setembro 22, 2026

Relógio: guia da constelação sem estrelas guia, ao lado de Achernar

Carta estelar do Relógio como aparece do Brasil olhando para o sul: uma constelação de estrelas fracas entre o Cinzel, o Retículo, o Dourado, o Forno e o Pintor, com o globular NGC 1261 marcado em verde perto do canto sudeste

Existem constelações que se acham por uma estrela brilhante, e existem constelações que só se acham por causa da vizinha. O Relógio é do segundo tipo: nenhuma estrela seria notada num céu qualquer, e o único jeito confiável de chegar até ele é partir de Achernar, a estrela branco-azulada que marca a ponta do rio Eridano. Martin Mobberley resume bem o que esperar: uma constelação "pouco inspiradora" (Mobberley, The Caldwell Objects, p. 182). Ainda assim, o Relógio guarda um alvo de peso, o aglomerado globular NGC 1261, que já tem guia próprio completo no site. Este texto conta o resto: o que é essa constelação, como chegar até ela e o que mais existe (ou não existe) por perto.

Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.

Uma constelação vazia perto de Achernar

O Relógio (Horologium, abreviatura Hor) ocupa 249 graus quadrados do céu, perto do polo sul celeste. Faz fronteira com a Hidra Macho ao sul, o Retículo, o Dourado e o Cinzel a oeste, o Eridano ao norte, e novamente o Eridano e a Hidra Macho a leste (Mourão, verbete Horologium, p. 433). Foi descrita pela primeira vez pelo astrônomo francês Nicolas-Louis de Lacaille, em sua obra Caelum Australe Stelliferum, de 1763, e o nome é uma referência ao relógio de pêndulo, um dos instrumentos científicos que Lacaille usou para homenagear a ciência ao batizar as constelações do céu austral (Mourão, p. 433-434).

É "muito fácil de reconhecer" — não pelas próprias estrelas, mas porque fica ao lado de Achernar, a alfa do Eridano, uma das estrelas mais brilhantes do hemisfério sul (Mourão, p. 433). Sem essa referência, o Relógio é praticamente invisível: sua estrela mais forte, alfa Horologii, tem magnitude 3,85, e depois dela vêm só estrelas de quarta e quinta magnitude. Não há mitologia associada — como quase todas as constelações de Lacaille, ela nasceu de um catálogo de estrelas do sul, não de uma lenda.

Quando e como achar

Melhor época. O Relógio está centrado perto de 3h20min de ascensão reta, então culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21h locais em meados de dezembro. A boa temporada de observação vai de outubro a janeiro.

Para onde olhar. A carta abaixo mostra o céu olhando para o sul, com o norte para cima e o leste à esquerda.

Cidade Altura máxima (NGC 1261, Dec -55,2°)
Boa Vista (RR) 32°
Manaus (AM) 38°
Recife (PE) 43°
Brasília (DF) 51°
Rio de Janeiro (RJ) 58°
São Paulo (SP) 58°
Porto Alegre (RS) 65°

Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós a partir da declinação do NGC 1261 (base do catálogo do site) e da latitude de cada cidade; valores arredondados. O Relógio é visível do Brasil inteiro, e fica bem posicionado mesmo no Norte.

Carta estelar do Relógio como aparece do Brasil olhando para o sul: uma constelação de estrelas fracas entre o Cinzel, o Retículo, o Dourado, o Forno e o Pintor, com o globular NGC 1261 marcado em verde perto do canto sudeste
Carta estelar do Relógio como aparece do Brasil ao olhar para o sul: o norte fica em cima e o leste à esquerda. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial. A linha tracejada laranja larga é o limite oficial da constelação. Em verde-claro, o objeto de céu profundo citado neste artigo. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo.

  1. Localize Achernar, a estrela branco-azulada e brilhante na ponta do Eridano — ela não tem como ser confundida em céu razoavelmente escuro.
  2. A partir de Achernar, ande cerca de 12° a leste e um pouco ao norte: essa é aproximadamente a região central do Relógio.
  3. Não espere reconhecer nenhum "desenho": as estrelas do Relógio são fracas e espalhadas. É mais um exercício de contagem de graus a partir de Achernar do que de reconhecimento de padrão.
  4. Para o NGC 1261 especificamente, use o guia próprio do objeto, que traz duas rotas detalhadas a partir de Zeta Horologii ou de Achernar com círculos de ajuste.

As estrelas do Relógio

Estrela Brilho visual (mag.) Tipo espectral
Alfa (α) 3,85 classe G-K (gigante)
Delta (δ) 4,93 classe A
Beta (β) 4,98 classe A
Zeta (ζ) cerca de 5,2 (fora do corte de magnitude 5,0 do catálogo do site) não verificado nesta pesquisa

Brilhos e tipos espectrais consultados no catálogo de estrelas do site (base Hipparcos/HYG). Nenhuma estrela do Relógio tem nome próprio aprovado pela IAU.

Não há nada de notável para contar sobre as estrelas do Relógio: nenhuma delas foi batizada, nenhuma tem uma história associada nos livros que consultamos, e a mais brilhante mal chega à magnitude 3,85 — comparável às estrelas mais fracas que ainda se veem a olho nu num céu de cidade grande. A única com alguma função prática é Zeta Horologii, magnitude 5,2, que Mobberley usa como ponto de partida para chegar ao NGC 1261.

O globular NGC 1261: o motivo de visitar o Relógio

O único destino de peso da constelação é o NGC 1261 (Caldwell 87), um aglomerado globular de magnitude 8,6 (SIMBAD) a cerca de 48.000 anos-luz de distância — mais de sete vezes mais longe que os globulares mais próximos do céu sul, segundo Mobberley. É um objeto respeitável em brilho, mas difícil de achar justamente porque a constelação não tem estrelas guia: Mobberley chega a dizer que muitos observadores, sem telescópio GoTo, o consideram um dos objetos mais difíceis de localizar de todo o catálogo Caldwell. Do Rio de Janeiro, ele passa a cerca de 58° de altura, bem posicionado na primavera. O guia completo do objeto traz as duas rotas de star-hopping, o que esperar em cada abertura de telescópio e a estratégia de astrofotografia.

Outras galáxias do catálogo

O catálogo de objetos do site também lista quatro galáxias fracas dentro dos limites do Relógio: NGC 1433 (magnitude 9,95), NGC 1512 (10,37), NGC 1527 (10,8) e NGC 1448 (10,94). São todas alvos de telescópio grande ou astrofotografia, sem registro descritivo nos livros de observação visual que consultamos para este guia — não encontramos, nesta pesquisa, nenhuma nota de observador amador sobre elas, então preferimos não inventar impressões visuais. Se você tiver um telescópio de 250 mm ou mais e uma câmera, valem a pena como um projeto à parte, mas nenhuma delas compete com o NGC 1261 em interesse.

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu Nada de notável na própria constelação; use-a como ponto de referência a partir de Achernar.
Binóculo (10×50) O NGC 1261 aparece como uma manchinha pequena, difícil de identificar sem carta detalhada.
Telescópio de 150 a 250 mm O NGC 1261 como uma bola de luz com centro mais claro; veja o guia do objeto para o roteiro completo.
Telescópio grande ou astrofotografia As galáxias NGC 1433, 1512, 1527 e 1448, como projeto à parte.

Dicas de campo:

  • Escolha uma noite sem Lua entre outubro e janeiro.
  • Comece sempre por Achernar: sem ela, é fácil se perder entre o Relógio, o Cinzel e o Retículo, todos igualmente discretos.
  • Leve uma carta detalhada ou um telescópio GoTo para o NGC 1261 — é o tipo de alvo que recompensa o preparo, não a sorte.

Referências

  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 87 (NGC 1261), p. 182-183.
  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Horologium", p. 433-434.
  • Catálogo de estrelas e objetos do site (base Hipparcos/HYG Database v4.1, David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0; dados de DSOs do OpenNGC), consultado via constellation_chart.py info Hor, em 21 set. 2026; limites de constelação da IAU.