setembro 22, 2026
Pomba: guia da constelação de Phact e do globular isolado NGC 1851

A Pomba não é uma constelação vazia como boa parte das vizinhas modernas do céu austral: tem uma estrela de segunda magnitude fácil de achar, uma origem bíblica clara e, principalmente, um dos aglomerados globulares mais isolados e recompensadores do céu de verão, o NGC 1851, que já tem guia próprio completo no site. Para quem observa do Brasil, ela é uma boa companhia de dezembro, baixa o bastante para trazer o "sabor" do céu austral, mas alta o bastante para ser fácil.
Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.
A pomba de Noé no céu austral
A Pomba (Columba, abreviatura Col) ocupa 270 graus quadrados do céu, entre o Pintor e o Cinzel a oeste, a Lebre e o Cão Maior ao norte, e a Popa (Puppis) ao sul e ao leste (Mourão, verbete Columba, p. 222). É "fácil de localizar" a olho nu, principalmente pelas suas duas estrelas de terceira magnitude, Alfa e Beta Columbae — Phact e Wazn (Mourão, p. 222).
A constelação aparece na Uranometria de Johann Bayer, publicada em 1603, representada como uma pomba com um ramo de oliveira no bico — uma referência direta à pomba que Noé enviou de sua arca, segundo o relato bíblico, para verificar se as águas do dilúvio já tinham baixado; o ramo de oliveira, nesse relato, indicava que as árvores já estavam acima do nível da água (Mourão, p. 222). Outras fontes atribuem a criação da figura ao holandês Petrus Plancius, já em 1592, mais cedo que a publicação de Bayer — é possível que Plancius tenha desenhado a constelação primeiro e Bayer a tenha registrado e popularizado pouco depois; as fontes consultadas não deixam isso completamente claro.
Quando e como achar
Melhor época. A Pomba está centrada perto de 5h50min de ascensão reta, então culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21h locais em meados de janeiro. A boa temporada de observação vai de novembro a fevereiro, no verão brasileiro — a mesma época de Sirius e Canopus, bem altas ao norte da constelação.
Para onde olhar. A carta abaixo mostra o céu olhando para o sul, com o norte em cima e o leste à esquerda.
| Cidade | Phact | NGC 1851 |
|---|---|---|
| Boa Vista (RR) | 53° | 47° |
| Manaus (AM) | 59° | 53° |
| Recife (PE) | 64° | 58° |
| Brasília (DF) | 72° | 66° |
| Rio de Janeiro (RJ) | 79° | 73° |
| São Paulo (SP) | 79° | 74° |
| Porto Alegre (RS) | 86° | 80° |
Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós a partir das declinações do catálogo do site (base Hipparcos) e da latitude de cada cidade; valores arredondados. A Pomba é visível do Brasil inteiro, com boa altura mesmo no Norte.

Passo a passo.
- Localize Sirius, a estrela mais brilhante do céu noturno, no Cão Maior, e Canopus, a segunda mais brilhante, mais ao sul. A Pomba fica na região entre as duas, um pouco mais para o sul e o oeste de Sirius.
- Phact, a estrela mais forte da Pomba (magnitude 2,65 a 2,75, conforme a fonte), é a referência principal: uma estrela branco-azulada isolada, sem vizinhas de brilho parecido por perto.
- A partir de Phact, Wazn fica um pouco a sudeste, e as duas, junto com Elkurud, mais ao sul, desenham o corpo alongado da pomba.
As estrelas da Pomba
| Estrela | Posição | Brilho visual (mag.) | Tipo espectral | Distância |
|---|---|---|---|---|
| Phact (alfa) | a mais brilhante | 2,65 (catálogo do site) / 2,75 (Mourão) | B8ne (branco-azulada) | cerca de 148 anos-luz (Mourão, dado antigo) |
| Wazn (beta) | ao sul de Phact | 3,12 (catálogo do site) / 3,22 (Mourão) | K1 III (gigante alaranjada) | cerca de 102 anos-luz (Mourão, dado antigo) |
| Elkurud (teta) | ao sul do par | 5,00 | não verificado nesta pesquisa | não verificado nesta pesquisa |
Brilhos consultados no catálogo de estrelas do site (base Hipparcos/HYG) e comparados aos valores mais antigos do Mourão; distâncias vêm só do Mourão, sem confirmação em fonte moderna nesta pesquisa.
Phact significa, em árabe, "pomba" ou "anel de pomba" (o nome tem grafias variadas nos livros: Phakt, Phaet, Farte, Phad). É uma estrela branco-azulada de tipo B, bem mais quente e luminosa que o Sol. Wazn vem do árabe al wazn, "pesado" — um nome originalmente associado a Delta Canis Majoris, no Cão Maior vizinho, mas que os catálogos modernos aplicam à Beta da Pomba (Mourão, verbetes Phakt e Wezn, p. 662 e 908). É uma gigante alaranjada de tipo K.
Mu Columbae, a estrela fugitiva. Perto do limite norte da constelação fica Mu Columbae, uma estrela de quinta magnitude com um passado violento: ela se move rápido pelo céu e, ao traçar sua trajetória para trás no tempo, os astrônomos concluíram que ela teria sido ejetada da região da Nebulosa de Órion há cerca de 2,5 milhões de anos, provavelmente por uma colisão que rompeu um sistema binário. A outra metade desse sistema seria AE Aurigae, no Cocheiro, que se afasta de Órion na direção oposta. Uma terceira estrela fugitiva da mesma região é 53 Arietis (UW Ari), em Áries. É uma bela curiosidade sobre como uma catástrofe estelar antiga espalhou remanescentes por três constelações diferentes.
O globular NGC 1851: o alvo isolado do verão
O destino de peso da constelação é o NGC 1851 (Caldwell 73), um aglomerado globular de magnitude 7,1 a 7,2, um dos objetos de céu profundo mais brilhantes em qualquer direção a mais de 20 graus de distância — segundo Bakich, não há nada que compita com ele por perto. Fica a cerca de 8° a sudoeste de Phact, a uma distância estimada em 37.000 a 40.000 anos-luz, e passa a cerca de 73° de altura no Rio de Janeiro, um dos melhores ângulos possíveis para observação. O guia completo do objeto traz as duas rotas de localização (a partir de Phact, ou por coordenadas visuais entre Sirius e Canopus), o que esperar em cada abertura de telescópio, a comparação com o M79 (na Lebre) e a estratégia de astrofotografia.
Roteiro de observação
| Instrumento | O que ver |
|---|---|
| A olho nu | Phact e Wazn, isoladas e fáceis de reconhecer entre Sirius e Canopus; o desenho alongado da pomba em céu escuro. |
| Binóculo (10×50) | O par Phact-Wazn no mesmo campo; o NGC 1851 como uma manchinha, a caminho de se tornar resolvível. |
| Telescópio de 150 a 250 mm | O NGC 1851 com o núcleo brilhante e o halo começando a se resolver — veja o guia do objeto para o roteiro completo. |
| Astrofotografia | O NGC 1851 isolado em campo largo, com espaço de sobra para composição; veja o guia do objeto para enquadramento. |
Dicas de campo:
- Escolha uma noite sem Lua entre novembro e fevereiro.
- Use Sirius e Canopus como bússola: a Pomba fica entre as duas, mais perto do horizonte sul.
- Depois de Phact e Wazn, aponte para o NGC 1851 — é o tipo de alvo que recompensa até quem está só começando a observar globulares.
Referências
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Criação da Pomba por Petrus Plancius em 1592 (índice; verbete não localizado na íntegra nesta pesquisa).
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbetes "Columba" (p. 222), "Phakt" (p. 662) e "Wezn" (p. 908).
- RIDPATH, Ian (org. citações do acervo). Mu Columbae e estrelas fugitivas de Órion (nota de pesquisa do acervo, p. 210 do original consultado).
- scripts/data/artigos/ngc-1851-globular-da-pomba.md (guia já publicado do NGC 1851 no site, com as referências completas de Bakich, Mobberley, Kambič e Monks).
- Catálogo de estrelas do site (base Hipparcos/HYG Database v4.1, David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0), consultado via
constellation_chart.py info Col, em 21 set. 2026; limites de constelação da IAU.