setembro 21, 2026
NGC 6946 (Caldwell 12), a Galáxia dos Fogos de Artifício: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
Poucos objetos do catálogo Caldwell escondem tanto atrás de um nome chamativo quanto a Galáxia dos Fogos de Artifício. NGC 6946 é uma espiral vista quase de frente, na fronteira entre o Cisne e o Cefeu, e ganhou o apelido porque nenhuma outra galáxia do céu revelou tantas supernovas: nove explosões registradas entre 1917 e 2008, e pelo menos uma depois disso. Ao mesmo tempo, é um dos alvos mais frustrantes de se observar visualmente, porque seu brilho, generoso no total, está espalhado por uma área grande e mergulhado na poeira da própria Via Láctea. Este guia explica o que ela é, por que raramente aparece nos relatos de observadores brasileiros e o que fazer com ela mesmo assim.
Texto em revisão. Este artigo faz parte do novo formato de guia de objeto do site. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: uma espiral de frente cheia de supernovas
NGC 6946 é uma galáxia espiral do tipo Sc (SIMBAD), ou seja, com braços bem abertos e um núcleo relativamente pequeno, vista quase de frente a partir da Terra. Fica perto do plano da Via Láctea, o que tem duas consequências: sofre bastante extinção pela poeira da nossa própria Galáxia, e por isso parece mais fraca do que sua magnitude sugere, e ao mesmo tempo aparece num campo estelar riquíssimo (Mobberley; Bakich, via ficha de pesquisa obj-0631-0693). Foi descoberta por William Herschel em 9 de setembro de 1798 (Bakich).
Uma galáxia grande e generosa. Mobberley registra um diâmetro real de cerca de 50.000 anos-luz, pouco menor que a Via Láctea, a uma distância estimada em cerca de 15 milhões de anos-luz — um valor clássico, citado por vários observadores amadores, mas que medidas mais recentes por outros métodos colocam entre 18 e 22 milhões de anos-luz (ver pendências). É relativamente próxima, no chamado Grupo NGC 6946, um pequeno aglomerado de galáxias que não faz parte do nosso Grupo Local.
A campeã de supernovas. O que torna NGC 6946 famosa entre astrônomos amadores é a frequência com que estrelas morrem nela à vista de quem observa da Terra. Mobberley lista nove supernovas descobertas entre 1917 e 2008 (1917A, 1939C, 1948B, 1968D, 1969P, 1980K, 2002hh, 2004et e 2008S), a maioria descoberta por observadores amadores ou por buscas automatizadas dedicadas (como a LOTOSS); a mais brilhante da lista, a SN 1980K, chegou à magnitude 11,4. Depois de 2008 pelo menos mais uma supernova foi anunciada na galáxia (conhecimento geral, a confirmar em fonte atualizada). Nenhuma outra galáxia conhecida acumulou tantas supernovas documentadas num intervalo de tempo tão curto, o que rendeu à NGC 6946 o apelido informal de "Galáxia dos Fogos de Artifício".
Estruturas notáveis
- Os braços espirais. Bem abertos e ricos em regiões de formação estelar, mas de baixo brilho superficial: Bakich nota que só aparecem, em parte, a partir de telescópios de 300 mm, e que quatro braços distintos exigem 400 mm ou mais.
- O núcleo. Relativamente compacto: ocupa cerca de 10% do diâmetro aparente da galáxia (Bakich).
- Regiões HII. Nós de formação estelar espalhados pelos braços, os mesmos locais onde nasceram (e morreram) as estrelas que geraram as supernovas históricas.
- O campo de fundo. Por estar perto do plano galáctico, a região ao redor de NGC 6946 é rica em estrelas da própria Via Láctea, o que ajuda a localizá-la, mas compete visualmente com seu brilho baixo.
Como localizar
NGC 6946 fica cerca de 2,1° a sudoeste de Eta Cephei (Bakich), numa região sem estrelas muito brilhantes, na fronteira entre o Cisne e o Cefeu. Para quem observa do hemisfério norte, o ponto de partida mais prático costuma ser a estrela Eta Cephei; a partir dela, um deslocamento curto para sudoeste leva ao campo da galáxia, que se confunde facilmente com o céu de fundo sem um bom mapa ou aplicativo de apontamento (go-to).

Quando e como observar
Este é um objeto de declinação muito alta: o SIMBAD lista Dec +60°09′. Isso o torna, na prática, um alvo do hemisfério norte.
E do Rio de Janeiro?
A altura máxima que um objeto atinge no céu, ao cruzar o meridiano, é dada por 90° menos a diferença entre a latitude do observador e a declinação do objeto. No Rio de Janeiro (latitude −23°) essa conta dá 90 − |−23 − 60,15| ≈ 6,9° — ou seja, mesmo no seu ponto mais alto, NGC 6946 mal desponta acima do horizonte norte, envolta na sujeira atmosférica e na polução luminosa típicas dessa altura. Na prática, é um objeto inacessível para observação útil do Rio de Janeiro e de quase todo o Brasil (só as regiões mais ao norte do país, próximas à linha do Equador, teriam alguma chance, e mesmo assim baixa). O mesmo cálculo, para um observador a 40° N, dá cerca de 69° de altura — próximo do zênite; a 50° N, cerca de 59°: em ambos os casos, uma vista excelente, bem acima da poluição do horizonte. Este guia foi escrito pensando em quem observa de latitudes médias do hemisfério norte, onde a galáxia é, de fato, observável.
Os gráficos abaixo mostram a altura do objeto ao longo do ano e nesta noite, mas calculados para o local do observatório do site (por padrão, o Rio de Janeiro, ou a localização aproximada de quem lê, se o navegador informar). Para este objeto, espere ver curvas baixas ou negativas na maior parte do ano — é exatamente o comportamento esperado para uma declinação tão ao norte.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 7°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 19:20 · 7° N
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 53 mag 9,1
- Enquadramento
- 100 ocupa 25 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 7° | N 357° | 107° |
| 20:00 | 6° | N 353° | 107° |
| 20:30 | 5° | N 349° | 107° |
| 21:00 | 3° | NNW 346° | 107° |
| 21:30 | 2° | NNW 343° | 107° |
| 22:00 | -1° | — | 107° |
| 22:30 | -3° | — | 106° |
| 23:00 | -6° | — | 106° |
| 23:30 | -9° | — | 106° |
| 00:00 | -13° | — | 106° |
| 00:30 | -16° | — | 106° |
| 01:00 | -20° | — | 106° |
| 01:30 | -23° | — | 106° |
| 02:00 | -27° | — | 106° |
| 02:30 | -31° | — | 106° |
| 03:00 | -34° | — | 106° |
| 03:30 | -38° | — | 106° |
| 04:00 | -41° | — | 106° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Invisível: é um objeto para telescópio. |
| Binóculo | Em céu escuro e com a galáxia alta (hemisfério norte), uma mancha oval tênue e difusa, sem estrutura. |
| Telescópio de 150 a 250 mm | Uma mancha oval mais definida, com o núcleo levemente mais brilhante; a estrutura espiral ainda não aparece com clareza (Bakich). |
| Telescópio de 300 mm ou mais | Começam a aparecer dois dos braços espirais; em 400 mm ou mais, sob céu escuro, é possível distinguir quatro braços e uma textura granulada nas regiões de formação estelar (Bakich). |
Expectativa honesta: mesmo para quem observa do hemisfério norte, com a galáxia bem alta, Mobberley descreve a NGC 6946 como visualmente "decepcionante", por causa do brilho superficial baixo e da extinção da Via Láctea na linha de visada. É um objeto mais gratificante para quem já caça supernovas ou faz astrofotografia do que para quem busca uma vista espetacular ao ocular.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com cerca de 11′ × 11′ de diâmetro aparente (SIMBAD), NGC 6946 é um alvo relativamente pequeno para um campo amplo, mas generoso o bastante para um telescópio de focal média a longa. Com um instrumento de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo de cerca de 1,1° × 0,75° deixa a galáxia pequena no quadro, cercada por um campo estelar denso — típico da região próxima ao plano galáctico. Uma focal de 1.500 a 2.000 mm aproveita melhor o objeto, se o guiamento e o seeing permitirem.
Desafios do alvo
- Baixíssimo brilho superficial. É o mesmo motivo que a torna decepcionante ao olho: o brilho total, distribuído por uma área grande, exige tempo de exposição total generoso para revelar os braços espirais.
- Extinção e campo estelar denso. A proximidade com o plano da Via Láctea empesta o fundo de estrelas e reduz o contraste da galáxia; o processamento precisa equilibrar a supressão de estrelas de fundo sem apagar os detalhes dos braços.
- Para quem está no Brasil, altura baixíssima ou nula. Fora do alcance prático da maior parte do país, como visto acima — o principal desafio aqui não é técnico, é geográfico.
Equipamento e filtros
Para quem observa de latitudes onde o objeto sobe bem, um telescópio de abertura média a grande (200 mm ou mais) com câmera monocromática e filtros LRGB tende a revelar melhor os braços espirais do que uma câmera colorida de tiro único, dado o baixo contraste do alvo. Como é uma galáxia (emissão contínua, não em linhas discretas), filtros de banda estreita não ajudam tanto quanto em nebulosas; o ganho vem principalmente de tempo total de exposição e de um céu escuro.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (luminância ou RGB) | 60 a 100 | 120 a 300 s | Acumular sinal suficiente para o baixo brilho superficial |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e, sobretudo, à altura real que o objeto atinge no seu local de observação.
Smart telescopes e campo de visão
Para quem observa de latitudes onde NGC 6946 sobe bem acima do horizonte, ela é um alvo interessante para smart telescopes: cabe com folga no campo de aparelhos como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), com espaço de sobra para o campo estelar ao redor. O baixo brilho superficial pede, como em qualquer captura desse tipo de instrumento, muitas horas de empilhamento. Do Rio de Janeiro e da maior parte do Brasil, no entanto, a altura insuficiente torna a tentativa pouco produtiva. Use o mapa abaixo para conferir o campo do seu modelo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
NGC 6946 é um lembrete de que nem todo objeto bonito do catálogo Caldwell está ao alcance de quem observa do Brasil: sua declinação de +60° a deixa, na prática, fora do horizonte útil do Rio de Janeiro e da maior parte do país. Ainda assim, vale conhecer a história por trás do apelido "Fogos de Artifício" — a galáxia com mais supernovas documentadas do céu — e, se você tiver contato com observadores do hemisfério norte ou viajar para lá, ela é um alvo gratificante tanto para quem caça supernovas quanto para quem faz astrofotografia de longa exposição. Para objetos de galáxias mais favoráveis à latitude do Rio, veja os guias de Aquário e de outros catálogos do site.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 641 (NGC 6946).
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 12, p. 36-37.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo morfológico e dimensões de NGC 6946, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.