setembro 21, 2026

NGC 6885 (Caldwell 37), o Aglomerado da Raposa: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 6885 — Aglomerado NGC 6885 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

A Raposa é uma constelação pequena e sem estrelas de destaque, espremida entre o Cisne e a Flecha, mas atravessada pela Via Láctea de verão. É lá que mora o NGC 6885, um aglomerado aberto que carrega uma confusão de catálogo: por décadas, ninguém teve certeza se ele é o mesmo objeto que o vizinho NGC 6882, ou se William Herschel descreveu dois campos de estrelas diferentes, ou o mesmo campo duas vezes. Hoje os programas de planetário tratam os dois números como o mesmo aglomerado, centrado na estrela alaranjada 20 Vulpeculae. É também o Caldwell 37, um bom alvo de binóculo para quem já visitou a vizinha Nebulosa Dumbbell (M27) e o Cabide (Collinder 399), a poucos graus dali.

Texto em revisão. Este é um guia de teste no novo formato de objeto. As fontes estão listadas no final e as dúvidas, no campo de pendências.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 6885 — Aglomerado NGC 6885 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: um aglomerado aberto disfarçado de confusão de catálogo

Um aglomerado aberto é um grupo de estrelas nascidas juntas na mesma nuvem molecular, ainda soltas pela gravidade mútua e destinadas a se dispersar ao longo de algumas centenas de milhões de anos. O NGC 6885 tem cerca de 15 milhões de anos (Mobberley), o que o coloca entre os aglomerados jovens: a maior parte das estrelas ainda está na sequência principal, sem gigantes evoluídas de destaque.

O NGC 6885 em números. A distância citada pelos livros é de cerca de 1.900 a 1.950 anos-luz (Mobberley; Monks), o que dá um diâmetro físico perto de 10 anos-luz para um tamanho aparente de 15′ a 20′. O SIMBAD lista uma paralaxe de 0,439 milissegundos de arco associada a esta entrada, o que sugeriria uma distância muito maior, de cerca de 7.400 anos-luz; esse valor provavelmente vem de uma única estrela ligada à designação no banco de dados, e não de uma medida do aglomerado como conjunto (aglomerados abertos raramente têm paralaxe própria confiável, porque são grupos extensos, não pontos). Por isso, este guia segue a distância tradicional dos livros, com a divergência registrada nas pendências.

Magnitude: um mistério à parte. Mobberley, Bakich e Monks concordam em magnitude integrada 8,1, e é esse o valor mais citado para o aglomerado propriamente dito. O catálogo do site, no entanto, traz 5,7 — um valor bem mais brilhante, marcado como aproximado. A explicação mais provável é a mesma confusão histórica que envolve o NGC 6882 e o NGC 6885: a estrela 20 Vulpeculae, de magnitude 5,9, fica bem no meio do campo e não é, tecnicamente, uma estrela-membro do aglomerado (Mobberley). É fácil que um catálogo antigo tenha atribuído ao "aglomerado" o brilho da estrela isolada que domina o campo a olho nu. Vale a pena o site conferir esse número.

Descoberta e identidade. William Herschel catalogou os dois campos, NGC 6882 e NGC 6885, em noites seguidas, com descrições parecidas — e os dados de posição registrados por ele não batem exatamente com o que se vê hoje em nenhum dos dois. O observador Stephen James O'Meara dedicou páginas ao problema (citado por Monks), sem chegar a uma resposta definitiva; hoje, cartas celestes e aplicativos tratam as duas designações como o mesmo aglomerado, centrado em 20 Vulpeculae, e este guia segue essa convenção sem tentar resolver o histórico.

Estruturas notáveis

  • 20 Vulpeculae. A estrela alaranjada de magnitude 5,9 que domina o campo a olho nu e complica a leitura de "onde começa e termina" o aglomerado (Mobberley).
  • O grupo triangular frouxo. Em telescópios pequenos, as estrelas do NGC 6885 formam um agrupamento largo e pouco concentrado, sem um núcleo denso (Bakich).
  • Estrelas de 9ª e 10ª magnitude. O grosso das estrelas mais fáceis de separar (Mobberley), com dezenas adicionais até a 13ª magnitude em telescópios maiores.
  • O Cabide, vizinho de campo. A cerca de 9° dali fica o asterismo do Cabide (Collinder 399), e a Dumbbell (M27) está a uns 4° de distância (Mobberley) — um bom roteiro de uma noite só.

Como localizar

O ponto de partida mais confiável é Albireo (Beta Cygni), a bela dupla amarelo-azul na ponta do Cisne: ande cerca de 9° para leste e 1½° para sul e você chega à região de 20 Vulpeculae (Mobberley). Outra rota parte de Gama Sagittae, a ponta da Flecha: cerca de 7,6° a nor-nordeste dela (Bakich). Como o campo é rico e sem uma forma óbvia, vale primeiro localizar 20 Vulpeculae com um binóculo de campo largo e depois aumentar o zoom.

Carta de localização de NGC 6885: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de cerca de +26,5°, o NGC 6885 culmina a uns 40° de altura no Rio de Janeiro — mais baixo do que a maioria dos objetos deste catálogo, mas ainda uma altura confortável para binóculo e telescópio, bem acima da faixa de neblina e luzes do horizonte. É um objeto de meio do céu no inverno do hemisfério sul, com melhor época entre junho e outubro (Mobberley), quando cruza o meridiano à noite.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho do NGC 6885 pelo céu nesta noite (zênite no centro, cores pela altura e linha pontilhada, tracejada ou contínua conforme o crepúsculo), seguido da altura hora a hora.

Altura de Aglomerado NGC 6885 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de junho a agosto. O objeto chega a 40° à meia-noite em julho.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ25 jul · 40°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de junho a agosto (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 40° em 25 de julho.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
19:20 · 40° NNW
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
62 / 100
Posição no céu
37
Brilho
100 mag 5,7
Enquadramento
100 ocupa 44 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de NGC 6885 — Aglomerado NGC 6885 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 18:20 e 23:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 19:20, com 40°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO19:0020:0021:0022:0023:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 39° NNW 346° 92°
20:00 37° NNW 338° 92°
20:30 34° NNW 330° 91°
21:00 30° NW 324° 91°
21:30 26° NW 318° 91°
22:00 21° NW 313° 91°
22:30 16° NW 308° 91°
23:00 10° NW 305° 91°
23:30 4° WNW 301° 90°
00:00 -2° — 90°
00:30 -8° — 90°
01:00 -15° — 90°
01:30 -21° — 90°
02:00 -27° — 90°
02:30 -34° — 89°
03:00 -41° — 89°
03:30 -47° — 89°
04:00 -54° — 89°
Altura de NGC 6885 — Aglomerado NGC 6885 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 19:20, com 40°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu A estrela 20 Vulpeculae é visível isoladamente (mag. 5,9); o aglomerado em si, não, mesmo com magnitude 8,1 (a olho nu equivale a um ponto de luz sem forma).
Binóculo (7×50 a 15×70) Um campo estelar rico ao redor de 20 Vulpeculae, sem separação clara de "aglomerado" — Mobberley recomenda binóculos grandes ou maiores para começar a distinguir a estrutura.
Telescópio de 100 a 150 mm Baixa ampliação, campo de meio grau: dá para perceber um agrupamento largo e frouxo de estrelas de 9ª e 10ª magnitude ao redor da estrela central (Mobberley; Monks).
Telescópio de 200 mm ou mais Mais estrelas de 11ª a 13ª magnitude aparecem, mas o aglomerado continua discreto — é um alvo de contexto, não de impacto visual isolado.

Expectativa honesta: o NGC 6885 não é um aglomerado de tirar o fôlego, e a confusão histórica em torno dele é, para muitos observadores, mais interessante do que a própria vista ao telescópio. Ele vale a visita como parte de um roteiro maior — 20 Vulpeculae, o Cabide e a Dumbbell numa mesma sessão — mais do que como destino único.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com 15′ a 20′ de diâmetro aparente e o campo estelar rico da Via Láctea ao fundo, um campo de 40′ a 1° funciona bem: um telescópio de 300 a 600 mm de focal com câmera de sensor APS-C, ou um smart telescope, enquadra o aglomerado com folga e ainda captura 20 Vulpeculae com destaque.

Desafios do alvo

  • Falta de contraste com o fundo. O campo é denso de estrelas da Via Láctea, então o aglomerado não se destaca tanto do fundo quanto um aglomerado isolado destacaria; o processamento deve realçar as estrelas mais brilhantes sem exagerar no ruído do campo.
  • A estrela central satura fácil. 20 Vulpeculae, de magnitude 5,9, pode saturar em exposições longas — vale considerar quadros curtos complementares para preservar sua cor.
  • Pouco relevo de cor. É um aglomerado de estrelas relativamente novas, sem nebulosidade associada relatada nas fontes consultadas; o interesse fotográfico está mais no campo estelar denso do que em uma estrutura própria.

Equipamento e filtros

Uma câmera colorida de um disparo é suficiente; não há necessidade de filtros de banda estreita, já que não há nebulosidade conhecida associada. Um filtro anti-poluição luminosa leve pode ajudar sob o céu de Bortle 7 a realçar o contraste das estrelas mais fracas contra o fundo do céu.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (RGB) 40 a 60 60 a 90 s Estrelas do aglomerado e do campo, sem saturar 20 Vulpeculae
Dark 20 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros.

Smart telescopes e campo de visão

O campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) enquadra o NGC 6885 com folga, incluindo boa parte do campo estelar denso ao redor e o vizinho Cabide, se você preferir um enquadramento mais largo em outro alvo da mesma noite. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

O NGC 6885 não vai ganhar concurso de beleza, mas é um objeto que ensina algo sobre como os catálogos são feitos por pessoas, com erros e superposições que perduram séculos depois. É um bom alvo de binóculo numa noite de céu de verão do hemisfério norte (inverno no Brasil), fácil de combinar com a vizinha Nebulosa Dumbbell (M27), a poucos graus dali.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 619 (NGC 6885).
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 37, p. 86-87.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. NGC 6885, p. 159-160 (a conferir).
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe, magnitude e dimensões de NGC 6885, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.