setembro 21, 2026
NGC 5248 (Caldwell 45), a galáxia mais brilhante de Boieiro: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
Trace uma linha entre Arcturo e Spica, as duas estrelas mais brilhantes de Boieiro e Virgem, e olhe para o ponto médio: um pouco a noroeste dali, numa região do céu quase vazia de estrelas guia, fica a galáxia mais brilhante de toda a constelação de Boieiro. É o NGC 5248, uma espiral vista quase de frente, tão perto da fronteira com Virgem que, segundo Mobberley, "faria mais sentido" se estivesse do outro lado da linha. É o Caldwell 45, membro do grande Aglomerado de Virgem, e um dos objetos mais bem posicionados no céu do Rio de Janeiro entre os deste lote: culmina bem alto, quase no zênite de quem mora em latitudes tropicais.
Texto em revisão. Este é um guia de teste no novo formato de objeto. As fontes estão listadas no final e as dúvidas, no campo de pendências.

Ficha técnica e designações
Visão geral: a galáxia mais brilhante de Boieiro
Boieiro, o pastor de bois, é famoso por Arcturo, a quarta estrela mais brilhante do céu, mas o resto da constelação é pobre em objetos de céu profundo — não é uma região atravessada pela Via Láctea, e por isso tem poucos aglomerados e nebulosas. Galáxias, porém, aparecem: a mais notável é o NGC 5248, que Mobberley chama simplesmente de "a galáxia mais brilhante de Boieiro".
O NGC 5248 em números. A distância citada por Mobberley é de 75 milhões de anos-luz; a partir da velocidade radial medida pelo SIMBAD (1.150 km/s, já corrigida pelo desvio Doppler cosmológico) e de uma constante de Hubble típica de 70 km/s por megaparsec, chega-se a uma estimativa independente bem menor, de cerca de 54 milhões de anos-luz. A diferença é real e este guia registra as duas: medidas baseadas em redshift, como a do SIMBAD, tendem a ser mais consistentes para galáxias deste porte do que estimativas antigas por comparação morfológica. Com uma distância de 55 a 75 milhões de anos-luz e um tamanho aparente de 4,6′ a 6,2′, o diâmetro físico fica entre 75 e 130 mil anos-luz (Mobberley cita cerca de 130 mil, no extremo maior da faixa).
Membro do Aglomerado de Virgem. Apesar de estar tecnicamente do lado de Boieiro na fronteira das constelações, o NGC 5248 é considerado por Mobberley membro do grande Aglomerado de Virgem — a concentração de milhares de galáxias que também abriga M87, M104 (Sombrero) e dezenas de outras Messier, a cerca de 55 a 60 milhões de anos-luz de nós. A afiliação é geometricamente plausível, dada a proximidade de distância, mas este guia a trata como aproximada, já que catálogos de associação de grupos de galáxias podem classificar o objeto de formas diferentes.
Um campo vazio de estrelas-guia. Bakich descreve a região ao redor do NGC 5248 como particularmente pobre, sem estrelas mais brilhantes que magnitude 5 ou 6 entre a galáxia e as estrelas de referência distantes (Arcturo, Spica, Vindemiatrix) — um desafio extra de localização, típico de campos "vazios" no meio de constelações grandes.
Estruturas notáveis
- O núcleo brilhante. Visível já em telescópios de 16 cm, cercado por uma forma elíptica que lembra, segundo Mobberley, "parênteses" de cada lado — os dois braços espirais vistos de perfil parcial.
- Os dois braços em aço-azulado. Em imagens coloridas profundas, dois braços espirais curtos e curvados, pontilhados de regiões HII rosadas, dão o principal interesse fotográfico da galáxia (Mobberley).
- Comparação com M100. Mobberley observa que imagens de CCD do NGC 5248 lembram, "a alguns pelo menos", a galáxia M100, mas "esticada ou espremida" — uma referência útil para quem já fotografou aquele alvo mais famoso do Aglomerado de Virgem.
- A estrela de campo de magnitude 14. Bem na borda sul da galáxia, visível em aberturas maiores (Mobberley).
- Galáxias satélites (a conferir). Bakich cita duas galáxias fracas de magnitude 15, UGC 8575 e UGC 8629, a cerca de meio grau da principal, visíveis em telescópios de 35 cm — informação a confirmar antes de recomendar como alvo de caça.
Como localizar
Não há estrelas de referência próximas, então vale montar o percurso com cuidado. Trace o triângulo entre Mufrid (Eta Boötis), Vindemiatrix (Épsilon Virginis) e o NGC 5248: a galáxia fica quase equidistante das duas estrelas, no ângulo reto do triângulo (Mobberley). Bakich dá uma rota alternativa: cerca de 8,9° a lés-sudeste de Vindemiatrix. Como referência mais ampla, a galáxia fica cerca de 10° ao sul e 9° a oeste de Arcturo — praticamente no meio do caminho entre Arcturo e Spica, um pouco deslocada para noroeste.

Quando e como observar
Com declinação de cerca de +9°, o NGC 5248 culmina perto de 58° de altura no Rio de Janeiro — a maior altura entre os objetos deste lote, quase no zênite, o ângulo mais favorável possível para atravessar pouca atmosfera. A melhor época vai de março a junho (Mobberley), no outono do hemisfério sul, quando Boieiro e Virgem cruzam o meridiano à noite.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho do NGC 5248 pelo céu nesta noite (zênite no centro, cores pela altura e linha pontilhada, tracejada ou contínua conforme o crepúsculo), seguido da altura hora a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -20°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 19:20 · -20° W
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 39 mag 10,0
- Enquadramento
- 36 ocupa 9 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -23° | — | 35° |
| 20:00 | -30° | — | 35° |
| 20:30 | -37° | — | 35° |
| 21:00 | -43° | — | 35° |
| 21:30 | -50° | — | 36° |
| 22:00 | -57° | — | 36° |
| 22:30 | -63° | — | 36° |
| 23:00 | -69° | — | 36° |
| 23:30 | -74° | — | 36° |
| 00:00 | -76° | — | 37° |
| 00:30 | -75° | — | 37° |
| 01:00 | -71° | — | 37° |
| 01:30 | -65° | — | 37° |
| 02:00 | -59° | — | 37° |
| 02:30 | -52° | — | 38° |
| 03:00 | -46° | — | 38° |
| 03:30 | -39° | — | 38° |
| 04:00 | -32° | — | 38° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Invisível; magnitude próxima de 10 está bem fora do alcance, mesmo em céu excelente. |
| Binóculo (7×50 a 15×70) | Muito difícil; só binóculos grandes, sob céu escuro, podem flagrar uma mancha oval bem tênue. |
| Telescópio de 150 a 200 mm | A forma elíptica fica óbvia, com um núcleo brilhante cercado pelas curvas dos braços vistos de lado (Mobberley). |
| Telescópio de 350 mm ou mais | Dá para tentar localizar as galáxias satélites UGC 8575 (cerca de meio grau a oeste) e UGC 8629 (cerca de meio grau a sudeste), segundo Bakich — um desafio adicional para quem já dominou o alvo principal. |
Expectativa honesta: apesar de ser "a galáxia mais brilhante de Boieiro", o NGC 5248 é um alvo de brilho moderado, mais recompensador para quem gosta do desafio de localizar um objeto num campo vazio do que para quem busca espetáculo visual imediato. A boa notícia é a altura: para quem observa do Rio, ela cruza quase pelo zênite, o melhor ângulo possível.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com 4,6′ a 6,2′ de diâmetro aparente, um campo de 20′ a 30′ funciona bem, com espaço de sobra para tentar capturar as galáxias satélites mais fracas nos cantos do quadro. Um telescópio de 800 a 1.500 mm de focal com câmera de sensor APS-C enquadra a galáxia principal com boa escala.
Desafios do alvo
- Braços de baixo contraste. Os dois braços espirais, mais fracos que o núcleo e o bojo, exigem tempo de exposição total generoso e processamento cuidadoso para não desaparecerem no ruído de fundo.
- Campo de estrelas escasso. A pobreza de estrelas na região pode dificultar o autoguiado e o plate-solving em alguns sistemas; vale conferir a disponibilidade de estrela-guia antes da sessão.
- Cor sutil das regiões HII. As manchas rosadas nos braços exigem boa calibração de cor e exposições suficientemente profundas em banda vermelha (Ha ou RGB bem exposto).
Equipamento e filtros
Mobberley recomenda esta galáxia tanto para imageamento sem filtro (unfiltered) quanto para LRGB tradicional; uma câmera colorida de um disparo funciona bem, sem necessidade de filtros de banda estreita.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (RGB ou luminância) | 50 a 80 | 120 a 180 s | Núcleo, braços e, se possível, galáxias satélites |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros.
Smart telescopes e campo de visão
O campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) enquadra o NGC 5248 com folga, e o pouco povoado do campo de estrelas ao redor ajuda o algoritmo de plate-solving a não se confundir com alvos vizinhos. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
O NGC 5248 é uma boa porta de entrada para o Aglomerado de Virgem a partir de um canto pouco visitado do céu: sem o tráfego de galáxias vizinhas que caracteriza o coração do aglomerado, mas com uma altura excelente para quem observa do Rio de Janeiro. Para explorar o resto do aglomerado, veja o guia da constelação de Virgem, com M87, M104 e outras galáxias da região.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 339 (NGC 5248).
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 45, p. 102-103.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, velocidade radial e dimensões de NGC 5248, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.