setembro 21, 2026

NGC 40 (Caldwell 2), a Bow-Tie: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 40 — Bow-Tie nebula — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Nem toda nebulosa planetária se deixa ver facilmente — às vezes, a própria estrela que a estrela criou atrapalha a vista dela. É o caso de NGC 40, a segunda entrada do catálogo Caldwell: uma bolha de gás expelida por uma estrela moribunda em Cefeu, com uma estrela central relativamente brilhante, de tipo Wolf-Rayet, que ofusca o disco tênue ao redor em aumentos baixos. O apelido "Bow-Tie" (gravata-borboleta) descreve a forma alongada que aparece em fotografias e em aumentos altos. Este guia explica o que é a nebulosa, como encontrá-la, quando observar do hemisfério norte — e por que, do Rio de Janeiro, ela é simplesmente inacessível.

Texto em revisão. Este é um dos guias do lote de objetos Caldwell do hemisfério norte, que nunca sobem no horizonte do Rio de Janeiro. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 40 — Bow-Tie nebula — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é uma nebulosa planetária

Uma nebulosa planetária é o envoltório de gás que uma estrela de massa parecida com a do Sol expele nos últimos milhares de anos de vida, antes de o núcleo se transformar numa anã branca. O termo, cunhado por William Herschel em 1784, é um erro histórico: essas nebulosas nada têm a ver com planetas, mas o disco esverdeado de algumas delas lembrava um planeta visto ao telescópio da época. O fenômeno é passageiro — dura no máximo umas dezenas de milhares de anos — e conhecem-se cerca de mil desses objetos na Galáxia.

A nebulosa em números. A estrela central de NGC 40 é incomum: tem magnitude 11,46 no SIMBAD e é classificada como do tipo espectral [WC8], uma Wolf-Rayet de carbono — uma estrela muito quente que perdeu suas camadas externas de hidrogênio e expõe material processado internamente. É justamente essa estrela relativamente brilhante para o padrão de núcleos de planetárias (a maioria tem magnitude 13 ou mais fraca) que faz a nebulosa "desaparecer" em aumentos baixos: o brilho da estrela central ofusca o disco de gás ao redor, e é preciso ampliar bastante para separar os dois (Mobberley).

Distância. Aqui os números divergem de forma notável: os livros trazem cerca de 3.500 anos-luz (Mobberley), enquanto a paralaxe da estrela central no SIMBAD (0,5612 milissegundos de arco) dá cerca de 5.800 anos-luz — quase o dobro. Esse tipo de discrepância é comum em nebulosas planetárias, porque medir a paralaxe de uma estrela isolada e muito quente é tecnicamente difícil; este guia adota o valor do SIMBAD, mas registra a diferença.

Descoberta. William Herschel descobriu NGC 40 em 25 de novembro de 1787 (Bakich).

Uma questão de brilho superficial. Bakich cita a regra prática do astrônomo amador Jeff Medkeff: multiplicar a magnitude integrada pelo brilho superficial dá uma ideia de dificuldade — quanto maior o número, mais difícil o objeto é de observar, porque a luz está mais espalhada. NGC 40 tem magnitude integrada moderada, mas um disco pequeno o suficiente para não ser um objeto tão difícil quanto sua magnitude sozinha sugeriria.

Estruturas notáveis

  • A estrela central. De magnitude 11,46 (SIMBAD), é o elemento mais brilhante do campo e o que primeiro chama atenção em aumentos baixos — chegando a ofuscar a nebulosa ao redor (Mobberley).
  • O disco interno oval. Em céu escuro e telescópio de 100 mm, aparece como um disco oval cerca de um terço mais comprido que largo (Bakich).
  • Nós brilhantes. Com 250 mm, surgem concentrações mais brilhantes a sudeste e a noroeste do disco (Bakich).
  • A cavidade escura. Em aumentos de 200× ou mais, com 250 mm, uma região mais escura aparece entre a concha de gás e a estrela central (Bakich).
  • A forma de gravata-borboleta. O apelido "Bow-Tie" vem da forma alongada e um pouco entortada que a nebulosa assume em fotografias e imagens de longa exposição — mas Mobberley alerta que o mesmo apelido é usado, por outros observadores, para NGC 2440, em Puppis, um objeto diferente e bem mais ao sul.

Como localizar

NGC 40 fica cerca de 5,5° a sul-sudeste de Gama Cephei (magnitude 3,2), a estrela que marca o topo da "casinha" que desenha a constelação de Cefeu (Bakich). Como a nebulosa é pequena e a estrela central relativamente brilhante, um buscador de campo largo ajuda a chegar perto, e depois um aumento médio a alto revela a forma oval e a estrela dentro dela.

Carta de localização de NGC 40: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de cerca de +72,5°, NGC 40 é circumpolar — nunca se põe — para qualquer observador ao norte de aproximadamente 17,5° N, o que inclui praticamente toda a Europa, os Estados Unidos, o Canadá e boa parte da Ásia. A altura máxima acima do horizonte é 90° menos a diferença entre a latitude do observador e a declinação do objeto: cerca de 57° a 40° N e 67° a 50° N — em ambos os casos, alta o bastante para uma observação confortável em qualquer época do ano, já que o objeto está sempre visível.

E do Rio de Janeiro?

NGC 40 nunca sobe acima do horizonte do Rio de Janeiro. Pela mesma conta usada em todo o artigo, a altura máxima seria 90° menos a diferença entre a latitude do Rio (−23°) e a declinação do objeto (+72°31′), o que dá um valor negativo, de cerca de −5,5°. É um objeto que, do ponto de vista do céu do Rio, está sempre "abaixo" do horizonte oposto, sem exceção de estação ou hora do dia. Os gráficos abaixo mostram a altura calculada para a localização do observatório do site (o Rio de Janeiro por padrão): o objeto nunca cruza a linha do horizonte.

Altura de Bow-Tie nebula ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. O objeto não passa de 30° à meia-noite em nenhuma época do ano.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZhoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Neste local o objeto não passa de 30° de altura no meio da noite em nenhuma época do ano.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -6°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
22:40 · -6° N
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
9 mag 11,9
Enquadramento
7 ocupa 2 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -11° — 124°
20:00 -9° — 124°
20:30 -8° — 125°
21:00 -7° — 125°
21:30 -6° — 125°
22:00 -6° — 125°
22:30 -6° — 125°
23:00 -6° — 125°
23:30 -6° — 125°
00:00 -7° — 125°
00:30 -7° — 125°
01:00 -8° — 125°
01:30 -10° — 125°
02:00 -11° — 125°
02:30 -13° — 125°
03:00 -15° — 125°
03:30 -17° — 125°
04:00 -19° — 125°
Altura de NGC 40 — Bow-Tie nebula ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 22:40, com -6°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte22:40 · -6°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Invisível; nenhuma nebulosa planetária desse tamanho e brilho é visível sem instrumento.
Binóculo Praticamente indistinguível de uma estrela; a nebulosa é pequena demais e o brilho baixo demais para binóculos comuns revelarem.
Telescópio de 100 a 150 mm Em céu escuro, um disco oval cerca de um terço mais comprido que largo, com a estrela central de magnitude 11,46 dominando a cena em aumentos baixos (Bakich).
Telescópio de 250 mm ou mais Com 200× ou mais e um filtro UHC, a estrutura melhora: nós brilhantes a sudeste e a noroeste, e uma cavidade mais escura entre a concha e a estrela (Bakich; Mobberley). Mobberley recomenda especificamente 200× ou mais e o filtro UHC para separar bem o disco da estrela central.

Expectativa honesta: este não é um alvo fácil de "primeira vista". A estrela central relativamente brilhante engana o observador e faz parecer que só há uma estrela ali; é preciso paciência, aumento alto e, de preferência, um filtro de banda estreita para revelar o disco de gás ao redor.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Mobberley recomenda uma amostragem fina, abaixo de 2″ por pixel, e bom seeing, dado o tamanho pequeno da nebulosa (cerca de 40″). Um campo estreito, de poucos minutos de arco, é o ideal para não desperdiçar resolução — o oposto do enquadramento generoso usado em nebulosas grandes e difusas.

Desafios do alvo

  • Tamanho minúsculo. Com menos de 1′ de diâmetro, NGC 40 exige focal longa e boa amostragem para revelar qualquer estrutura interna.
  • Contraste entre a estrela e o gás. A estrela central de magnitude 11,46 satura facilmente antes que o gás mais fraco apareça bem exposto; pode ser necessário combinar exposições curtas (para a estrela) e longas (para o disco).
  • Declinação alta reduz o erro de guiagem. Mobberley observa que, por estar tão perto do polo, a declinação alta reduz o erro angular de guiagem em cerca de 3,2 vezes comparado a um objeto no equador celeste — uma vantagem técnica rara.

Equipamento e filtros

Um telescópio de focal longa (refletor Cassegrain ou similar) e boa óptica adaptativa, ou o empilhamento de muitas exposições curtas processadas com um software tipo Registax, ajudam a superar o seeing e revelar a estrutura fina do disco (Mobberley). Câmera monocromática com filtro OIII ou UHC separa melhor o gás da estrela central do que uma câmera colorida de um disparo.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (luminância ou OIII) 60 a 100 30 a 60 s Empilhamento tipo "lucky imaging" para vencer o seeing
Light (cor, RGB) 30 a 40 60 a 120 s Cor do disco e da estrela central
Dark 20 a 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 20 automática Correção de vinheta e poeira

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros. Mobberley cita uma imagem de referência feita por Tom Carrico com um telescópio RCOS de 25 cm.

Smart telescopes e campo de visão

NGC 40 é pequena demais para tirar proveito do campo largo típico de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°): ela vai aparecer como um ponto pequeno em meio a um campo estelar vasto, sem muito detalhe. Ainda assim, é um bom teste de resolução para o equipamento em modo de zoom digital, e por ser circumpolar de boa parte do hemisfério norte, dá para observar em qualquer noite do ano. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

NGC 40 é um lembrete de que nem toda planetária é um espetáculo de cor e forma ao telescópio: às vezes, o desafio está exatamente em separar a estrela criadora do gás que ela criou. É um bom alvo para quem já tem prática com filtros e aumentos altos, do hemisfério norte. Do Rio de Janeiro, como quase todo o começo do catálogo Caldwell, ela está simplesmente fora de alcance. Para seguir pelo mesmo canto do céu, vale visitar o vizinho NGC 188, o aglomerado quase no polo, e a Nebulosa da Íris (NGC 7023), ambos também em Cefeu.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 750 (NGC 40).
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 2, p. 16-17.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo espectral, paralaxe, magnitude e dimensões de NGC 40, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.