setembro 21, 2026

NGC 188 (Caldwell 1), o aglomerado quase no polo: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 188 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Há um objeto no catálogo Caldwell que ganhou o número 1 não por ser espetacular, mas por decência: fica tão perto do polo norte celeste que qualquer lista organizada por declinação tinha de começar por ele. NGC 188 é um aglomerado aberto discreto, de estrelas fracas e muito antigas, a apenas alguns graus de Polaris, na fronteira entre Cefeu e a Ursa Menor. Ele nunca chamou a atenção de Charles Messier, que nem sequer soube da sua existência, e por décadas foi tratado como curiosidade de catálogo — até os astrônomos perceberem que era um dos aglomerados abertos mais velhos conhecidos na Via Láctea, um verdadeiro fóssil estelar. Este guia explica o que ele é, como achar e por que, do Rio de Janeiro, ele está permanentemente fora de alcance.

Texto em revisão. Este é um dos guias do lote de objetos Caldwell do hemisfério norte, que nunca sobem no horizonte do Rio de Janeiro. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 188 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: um aglomerado aberto muito, muito velho

Um aglomerado aberto é um grupo de estrelas nascidas juntas, de uma mesma nuvem de gás, ainda ligadas frouxamente pela gravidade. A maioria se dispersa em algumas dezenas ou centenas de milhões de anos, à medida que os encontros com outras estrelas e nuvens do disco galáctico vão soltando os membros mais fracos. NGC 188 é a exceção que confirma a regra: segundo Mobberley, tem cerca de 5 bilhões de anos, quase a idade do Sol, e está entre os aglomerados abertos mais antigos que se conhece na Galáxia. Ele sobreviveu tanto tempo por um motivo de geografia cósmica — fica bem acima do plano do disco da Via Láctea, longe da maré gravitacional que desmonta a maioria dos aglomerados jovens mais rápido.

O aglomerado em números. A magnitude integrada é 8,1 (Bakich; Mobberley; catalog.json). O tamanho aparente listado no SIMBAD é de cerca de 33′, quase a largura de uma Lua cheia, embora Bakich e Mobberley descrevam um núcleo bem mais compacto, de 13′ a 14′: como em muitos aglomerados antigos e dispersos, a área "cheia de estrelas de fato" é menor do que a extensão total de prováveis membros mais fracos e espalhados que os catálogos modernos contam. A distância citada por Mobberley é de cerca de 4.800 anos-luz — o SIMBAD não lista uma paralaxe agregada para o aglomerado, então esse número vem só dos livros.

Onde fica exatamente. NGC 188 está a cerca de 4° de Polaris, na fronteira entre Cefeu e a Ursa Menor (Bakich). Sua declinação de +85° o coloca entre os objetos mais setentrionais de todo o céu profundo catalogado — mais perto do polo do que a maioria das estrelas que os observadores do hemisfério norte usam para se orientar.

Uma estrela variável de bônus. A cerca de 45′ a leste do aglomerado fica RU Cephei, uma variável semirregular que oscila entre magnitude 8,2 e 9,8 num período de 109 dias (Mobberley) — um alvo extra para quem gosta de acompanhar variáveis, dentro do mesmo campo amplo.

Por que Moore o pôs em primeiro lugar. O catálogo Caldwell, organizado por Patrick Moore em 1995 para reunir 109 objetos brilhantes fora da lista de Messier, começa exatamente pelo objeto mais ao norte do céu e termina pelo mais ao sul (Caldwell 109, no Camaleão). NGC 188 abre a lista não pelo brilho, mas pela posição (Bakich).

Estruturas notáveis

  • O núcleo denso. A região central, mais rica em estrelas, é o que se vê primeiro em telescópios pequenos e médios — um amontoado irregular sobre um fundo estelar já discreto, típico do polo galáctico.
  • Padrões de estrelas. Bakich descreve estrelas de brilho parecido formando curvas, ganchos e até letras reconhecíveis dentro do aglomerado — um exercício visual divertido em aberturas médias.
  • Faixas escuras. Segundo Bakich, corredores mais pobres em estrelas parecem cortar o aglomerado, um efeito de projeção e não uma nuvem escura real.
  • RU Cephei. A variável semirregular a 45′ de distância, incluída no mesmo campo de um buscador ou de uma imagem de campo amplo.

Como localizar

NGC 188 é um dos poucos objetos de céu profundo que se acha quase sem carta: está a cerca de 4° de Polaris, a estrela mais fácil de identificar do céu do hemisfério norte. Aponte o telescópio a essa distância da Estrela Polar, na direção de Cefeu, e o aglomerado deve entrar no campo de um buscador ou de uma ocular de baixo aumento. Como as estrelas mais brilhantes têm magnitude 13-14, é preciso um céu escuro e um telescópio de pelo menos 100 mm para resolver estrelas individuais com facilidade (Mobberley); com 250 mm ou mais, dezenas de estrelas ficam nítidas (Bakich).

Carta de localização de NGC 188: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de cerca de +85°, NGC 188 é circumpolar — nunca se põe — para qualquer observador ao norte de aproximadamente 5° N, ou seja, para praticamente todo o hemisfério norte habitado. Isso significa que ele pode ser observado em qualquer noite do ano, a qualquer hora, sempre que Cefeu estiver razoavelmente alto e longe da claridade do horizonte; Bakich sugere outubro como o mês de referência, quando a região culmina mais alta à noite. A altura máxima acima do horizonte é 90° menos a diferença entre a latitude do observador e a declinação do objeto: cerca de 45° a 40° N e 55° a 50° N — em ambos os casos, alto o bastante para uma boa observação em qualquer época do ano.

E do Rio de Janeiro?

Aqui a resposta é direta: NGC 188 nunca sobe acima do horizonte do Rio de Janeiro. A conta é a mesma usada para o resto do artigo — a altura máxima seria de 90° menos a diferença entre a latitude do Rio (−23°) e a declinação do objeto (+85°15′), o que dá um valor negativo, de cerca de −18°. Isso significa que o "ponto mais alto" da órbita aparente do aglomerado fica, na prática, bem abaixo do horizonte, do lado oposto do polo celeste norte. Não há hora do ano nem condição atmosférica que resolva isso: é simplesmente um objeto do outro hemisfério do céu. Os gráficos abaixo usam a localização do observatório do site (o Rio de Janeiro, por padrão) e mostram exatamente essa ausência — a linha da altura do objeto fica sempre no vermelho, abaixo do horizonte.

Altura de NGC 188 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. O objeto não passa de 30° à meia-noite em nenhuma época do ano.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZhoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Neste local o objeto não passa de 30° de altura no meio da noite em nenhuma época do ano.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -18°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
23:20 · -18° N
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
68 mag 8,1
Enquadramento
100 ocupa 39 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -20° — 115°
20:00 -20° — 116°
20:30 -19° — 116°
21:00 -19° — 116°
21:30 -19° — 116°
22:00 -19° — 116°
22:30 -18° — 116°
23:00 -18° — 116°
23:30 -18° — 116°
00:00 -18° — 116°
00:30 -19° — 116°
01:00 -19° — 116°
01:30 -19° — 116°
02:00 -19° — 116°
02:30 -20° — 116°
03:00 -20° — 116°
03:30 -21° — 117°
04:00 -21° — 117°
Altura de NGC 188 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 23:20, com -18°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte23:20 · -18°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Invisível; um aglomerado de magnitude 8 com estrelas individuais muito fracas não aparece sem instrumento.
Binóculo (7×50 a 15×70) Uma mancha nebulosa tênue perto de Polaris, sem estrelas resolvidas — mais um exercício de "achar o campo certo" do que de observar detalhe.
Telescópio de 100 a 150 mm Começa a resolver as estrelas mais brilhantes do aglomerado; interessante a partir daqui, segundo Mobberley.
Telescópio de 250 a 300 mm Com 200 mm a 100×, cerca de 50 estrelas de magnitude 13 ou mais fracas ficam visíveis; com 300 mm em céu escuro, o dobro (Bakich). É aqui que os padrões em curvas, ganchos e as faixas escuras aparecem com clareza.

Expectativa honesta: NGC 188 não é um objeto de "uau" visual — é um aglomerado modesto, de estrelas fracas, cujo valor está mais na história (o mais antigo, o mais setentrional, o primeiro da lista Caldwell) do que no espetáculo. Vale mais para quem gosta de "caçar" o catálogo Caldwell inteiro do que para uma primeira sessão de observação.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Mobberley recomenda um campo de cerca de 0,5° para enquadrar bem o núcleo do aglomerado, com espaço de sobra para as estrelas de fundo — um campo modesto, adequado a focais médias e longas. Como o aglomerado é circumpolar para qualquer observador ao norte de uns 5° N, dá para planejar a sessão em qualquer época do ano e esperar a melhor noite de seeing e transparência, sem pressa de estação.

Desafios do alvo

  • Estrelas fracas e próximas. Com a maioria das estrelas do aglomerado na faixa de magnitude 13-14, é preciso boa relação sinal-ruído e foco preciso para separá-las do fundo do céu.
  • Contraste baixo. Como não é um alvo de nebulosidade colorida, o interesse fotográfico está no padrão de estrelas e nas cores sutis delas (estrelas antigas tendem ao amarelo e ao laranja), não em um efeito visual chamativo.
  • RU Cephei como bônus. Incluir a variável no enquadramento permite documentar, ao longo de semanas, sua variação de brilho.

Equipamento e filtros

Mobberley registra que exposições de 30 segundos em câmera DSLR já bastam para captar o aglomerado com boa definição — um alvo tecnicamente fácil, mesmo com equipamento modesto, desde que o céu seja escuro o bastante para não afogar as estrelas mais fracas em ruído de fundo. Não é um alvo de filtro de banda estreita: câmera colorida de um disparo ou RGB tradicional funcionam bem.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (RGB ou colorida) 30 a 60 30 a 60 s Estrelas do núcleo e do halo mais fraco
Dark 20 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 20 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 30 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros.

Smart telescopes e campo de visão

NGC 188 cabe com folga no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), que inclui também a variável RU Cephei no mesmo quadro. Por ser circumpolar de latitudes médias e altas do hemisfério norte, é um alvo confortável para sessões longas e sem pressa. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

NGC 188 não vai ganhar concurso de beleza, mas carrega dois recordes que o tornam interessante: é (provavelmente) um dos aglomerados abertos mais velhos da Galáxia e o objeto mais setentrional do catálogo Caldwell, tão perto do polo que é circumpolar mesmo em latitudes moderadas. Do Rio de Janeiro, ele simplesmente não existe no céu visível — está permanentemente do outro lado do planeta, em termos de horizonte. Para quem observa do hemisfério norte, ele é um exercício rápido perto de Polaris; para quem lê daqui, fica como uma lembrança de que o céu profundo, como o próprio céu, tem lados que cada um de nós nunca vai ver ao vivo. Quem quiser continuar pelo catálogo Caldwell do mesmo canto do céu pode seguir para a vizinha NGC 40, a planetária Bow-Tie de Cefeu e para a Nebulosa da Íris (NGC 7023), ambas também em Cefeu e igualmente fora do alcance do Rio.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 762 (NGC 188).
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 1, p. 14-15.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo e dimensões de NGC 188, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.