setembro 21, 2026
NGC 3195 (Caldwell 109), a planetária do Camaleão: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Todo catálogo precisa de um último objeto, e Patrick Moore escolheu bem: NGC 3195 é uma nebulosa planetária pequena e compacta, encravada na obscura constelação do Camaleão, a apenas 9° do polo sul celeste. É o Caldwell 109, a última entrada de uma lista de 109 objetos organizados por declinação decrescente — e, coincidência ou não, um objeto que resume boa parte do que torna a observação perto dos polos celestes diferente: guiagem mais fácil, mas um céu quase vazio de estrelas guia brilhantes ao redor. Este guia explica como encontrá-la, o quanto ela sobe do Rio de Janeiro (a resposta é: pouco, mas o bastante) e o que esperar de cada instrumento.
Texto em revisão. Este é um guia de teste do novo formato de objeto, parte da cobertura dos catálogos Messier e Caldwell completos. As fontes estão listadas no final e as divergências entre elas, nas pendências.

Ficha técnica e designações
Visão geral: uma planetária compacta perto do polo sul celeste
NGC 3195 é uma nebulosa planetária: o envoltório de gás que uma estrela do tipo do Sol expele nos últimos milhares de anos de vida, iluminado pela anã branca muito quente que sobra no centro. É um fenômeno passageiro — as planetárias duram, no máximo, algumas dezenas de milhares de anos — e existem cerca de mil exemplares catalogados na nossa galáxia. O que torna NGC 3195 particular não é o tipo de objeto, mas a localização: fica a apenas 9° do polo sul celeste, numa das regiões do céu mais pobres em estrelas brilhantes de referência, na pequena e discreta constelação do Camaleão, sem nenhuma estrela mais brilhante que a magnitude 4.
NGC 3195 em números. A nebulosa tem magnitude 11,6 e apenas 38″ a 40″ de diâmetro aparente (Mobberley; SIMBAD) — bem menor do que planetárias famosas como a Hélice ou a Dumbbell —, mas com brilho superficial relativamente alto (cerca de magnitude 19 por segundo de arco quadrado, segundo Mobberley), o que a torna mais fácil de detectar do que o tamanho sugere. A distância de cerca de 5.500 anos-luz é uma estimativa do Mobberley, sem confirmação independente aqui; a essa distância, o diâmetro físico da nebulosa seria de pouco mais de 1 ano-luz, e a idade, de cerca de 5.000 anos — um objeto astronomicamente jovem.
A estrela central. É fraca, de magnitude 15,3, um alvo só para telescópios grandes com câmera. Mobberley a compara com a de outra planetária próxima ao polo oposto, a Caldwell 2 (Bow-Tie, perto do polo norte celeste): a nebulosa da Bow-Tie é cerca de 0,7 magnitude mais fraca que NGC 3195, mas tem uma estrela central de brilho comparável ao da própria nebulosa — enquanto a estrela de NGC 3195 é discreta diante do gás que ilumina.
O fim de uma lista. Patrick Moore organizou o catálogo Caldwell por declinação, do polo norte celeste ao polo sul; NGC 3195 é o último item, o mais austral da lista. Mobberley observa que existem objetos ainda mais próximos do polo sul (como o globular na constelação de Apus, ou um aglomerado aberto em Mensa), mas Moore encerrou a lista aqui — "depois de tantos globulares nas últimas páginas", uma planetária pareceu um bom lugar para parar.
Estruturas notáveis
- A forma levemente alongada. Em telescópios de 250 mm ou mais, acima de 200 aumentos, a natureza planetária fica clara, com um leve alongamento na direção nor-nordeste a sul-sudoeste (Bakich).
- O alto brilho superficial. Ao contrário de planetárias grandes e difusas como a Hélice, NGC 3195 é pequena o bastante para não se diluir tanto no céu de fundo — daí ser detectável mesmo com aberturas modestas.
- A estrela central fraca. De magnitude 15,3, é um objetivo só para quem tem telescópio grande e câmera sensível; visualmente, é praticamente inacessível.
- A vizinhança pobre em estrelas. A região ao redor, no Camaleão, tem poucas referências brilhantes — o que torna o star-hop mais lento, mas também simplifica a composição fotográfica, com pouca estrela de campo competindo com a nebulosa.
Como localizar
NGC 3195 fica cerca de 2° a oeste e 20′ ao sul de delta² Chamaeleontis, uma estrela de magnitude 4,4 fácil de reconhecer por ter uma companheira de magnitude 5,6 a apenas 5′ ao norte (Mobberley). Para quem prefere partir de uma estrela mais brilhante, a rota é 11° ao sul e 4° a leste de Miaplacidus (beta Carinae, magnitude 1,7), na Quilha do Navio — um salto longo, mas a partir de uma referência fácil de achar mesmo em céu urbano.

Quando e como observar
Aqui está o ponto que exige honestidade. Com declinação de cerca de −80,9°, NGC 3195 é circumpolar no Rio de Janeiro (latitude −22,9°): como a declinação é mais austral do que −(90° − 22,9°) = −67,1°, o objeto nunca se põe, girando o tempo todo em torno do polo sul celeste. Mas circumpolar não quer dizer alto. A altura máxima que ele atinge na passagem meridiana é de apenas 90° − |−22,9° − (−80,9°)| ≈ 32° — a mesma conta usada para qualquer objeto deste guia, aplicada a uma declinação extrema. Ou seja: NGC 3195 nunca desaparece do céu do Rio, mas também nunca sobe muito acima de um terço da distância entre o horizonte e o zênite, e está sempre voltado para o setor sul do céu, onde a camada de atmosfera atravessada pela luz é maior do que perto do zênite.
Na prática, isso significa observar em uma noite de horizonte sul limpo — sem prédios, morros ou árvores baixas nessa direção — e aceitar uma imagem ou uma vista um pouco mais turva do que a de um objeto que passa perto do zênite. Mobberley, escrevendo para quem observa da Austrália (onde o objeto sobe bem mais alto), aponta o ano todo como boa época; Bakich sugere fevereiro como o mês em que a nebulosa cruza o meridiano mais cedo na noite, o que também vale, de forma aproximada, para o Rio.
Os gráficos abaixo usam a localização real do observatório (o Rio de Janeiro, por padrão, ou a posição aproximada de quem está lendo). O primeiro mostra a altura do objeto ao longo do ano; o segundo, o caminho de NGC 3195 pelo céu nesta noite — repare como ele nunca sai da faixa baixa, ao sul.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 26°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 04:00 · 26° S
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 14 mag 11,6
- Enquadramento
- 6 ocupa 2 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 14° | S 183° | 66° |
| 20:00 | 14° | S 181° | 66° |
| 20:30 | 14° | S 180° | 66° |
| 21:00 | 14° | S 179° | 66° |
| 21:30 | 14° | S 178° | 66° |
| 22:00 | 15° | S 177° | 66° |
| 22:30 | 15° | S 176° | 65° |
| 23:00 | 16° | S 175° | 65° |
| 23:30 | 16° | S 174° | 65° |
| 00:00 | 17° | S 173° | 65° |
| 00:30 | 18° | S 172° | 65° |
| 01:00 | 19° | S 171° | 65° |
| 01:30 | 20° | S 171° | 65° |
| 02:00 | 21° | S 170° | 65° |
| 02:30 | 22° | S 170° | 65° |
| 03:00 | 24° | S 170° | 65° |
| 03:30 | 25° | S 170° | 65° |
| 04:00 | 26° | S 171° | 65° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu e binóculo | Invisível: mesmo com brilho superficial relativamente alto para uma planetária, magnitude 11,6 está bem além do alcance a olho nu ou em binóculo comum. |
| Telescópio de 100 mm, 100x | Uma "estrelinha gordinha", perceptivelmente diferente de uma estrela pontual, mas sem forma clara (Bakich). |
| Telescópio de 250 mm ou mais, acima de 200x | A natureza planetária fica evidente, com um leve alongamento na direção nor-nordeste a sul-sudoeste (Bakich). |
| Telescópio de 300 mm ou mais, com filtro OIII ou UHC | Mobberley recomenda essa combinação para revelar o disco pequeno com alguma estrutura interna — "com bastante imaginação". |
Expectativa honesta: mesmo com aberturas grandes, esta não é uma planetária espetacular como a Hélice ou a Anel; é um disco pequeno e compacto, sem os detalhes internos vistosos de nebulosas maiores. Some a isso a altura baixa no Rio de Janeiro, e o resultado é um objeto de nicho — recomendado para quem já esgotou alvos mais fáceis e quer completar o catálogo Caldwell, ou para quem simplesmente gosta do desafio de observar perto do polo celeste.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com apenas 38″ a 40″ de diâmetro, NGC 3195 é um dos menores alvos de todo este guia — precisa de focal longa para não desaparecer no quadro. Com um telescópio de 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo de cerca de 1,1° × 0,75° deixa a nebulosa como um pontinho minúsculo; focais de 2.000 mm ou mais (por exemplo, com barlow ou um Schmidt-Cassegrain em f/10) aproveitam muito melhor a resolução disponível.
Desafios do alvo
- Altura baixa no Rio de Janeiro. Como o objeto nunca sobe além de cerca de 32°, a imagem atravessa mais atmosfera do que a de um alvo perto do zênite, com mais turbulência (seeing pior) e mais extinção — o resultado tende a ser menos nítido do que em objetos mais altos deste guia.
- Tamanho angular minúsculo. Exige foco muito preciso e boa amostragem; pequenos erros de foco ou de guiagem têm impacto proporcionalmente maior num alvo tão pequeno.
- Poucas estrelas de guiagem próximas. A região ao redor, no Camaleão, é pobre em estrelas — o autoguiado pode precisar de um campo de busca maior ou de mais sensibilidade.
- Um lado bom: a declinação extrema ajuda o tracking. Mobberley lembra que, perto do polo, o céu "gira" mais devagar em segundos de arco por segundo de tempo — a uma declinação de −80°, os erros de rastreamento causados por um alinhamento polar imperfeito são reduzidos em cerca de seis vezes, comparado com um objeto no equador celeste.
Equipamento e filtros
Um filtro OIII ou dual-band (H-alfa e OIII) ajuda a destacar o disco da nebulosa contra o céu de fundo, embora o objeto seja pequeno demais para um filtro de banda estreita "revelar estrutura" da forma como faz em nebulosas grandes. Uma câmera colorida de tiro único funciona bem para um primeiro registro; para explorar mais detalhe, monocromática com boa amostragem e filtro OIII tende a valer mais a pena do que RGB tradicional.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (OIII ou dual-band) | 40 a 60 | 120 a 180 s | Capturar o disco pequeno e brilhante da nebulosa |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e, neste caso em particular, à qualidade do seu horizonte sul.
Smart telescopes e campo de visão
Um smart telescope como o Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°) enquadra NGC 3195 como um pontinho minúsculo, quase perdido no meio de um campo estelar pobre — o resultado visual tende a ser discreto, e a altura baixa no horizonte sul do Rio de Janeiro (cerca de 32° no máximo) soma mais um desafio para o empilhamento automático do aparelho. É um alvo para quem já tem experiência com o equipamento e quer testar seus limites, mais do que uma primeira escolha. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
NGC 3195 é um objeto de fechamento de lista, e isso já diz muito sobre o lugar dela no catálogo Caldwell: pequena, discreta, perto de um polo celeste onde poucos observadores costumam apontar o telescópio. Do Rio de Janeiro, ela nunca se põe, mas também nunca sobe muito — uma combinação que só faz sentido para quem já esgotou os alvos mais fáceis da estação e quer um desafio de verdade, com um horizonte sul limpo. Se você está explorando o Camaleão e constelações vizinhas do polo sul, vale complementar com o guia da Nebulosa de Carina, bem mais espetacular e mais alta no céu do Rio.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 144 (NGC 3195 / Caldwell 109).
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 109, p. 224-225.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas e dimensões de NGC 3195, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.