setembro 21, 2026

NGC 2174, a Nebulosa Cabeça de Macaco: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 2174 — Nebulosa Cabeça de Macaco — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Quando as fotos de banda estreita dão a volta ao mundo, alguém sempre pergunta: o que é aquele rosto de macaco vermelho, de cabeça pendendo, no meio de um campo de estrelas? É a Nebulosa Cabeça de Macaco, um grande complexo de gás de hidrogênio no norte de Órion, junto à divisa com Gêmeos. Ela é uma das nebulosas de emissão mais fáceis de reconhecer numa foto, e das mais difíceis de ver com os olhos. Ao contrário de outros guias desta série, este é um alvo que fica mais baixo para nós, ao norte do zênite, e por isso pede um pouco mais de planejamento.

Texto em revisão. Este guia segue o novo formato de objeto. As fontes estão listadas no final e as dúvidas, nas pendências do cabeçalho.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 2174 — Nebulosa Cabeça de Macaco — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Ficha técnica e designações
Designação principalNGC 2174
Outras designaçõesNGC NGC 2174
Tipo de objetoNebulosa de emissão (região H II)
ConstelaçãoOrion
Coordenadas (J2000)RA 06h 09m 24s | Dec +20° 39′ 35″
Distância da Terra—
Magnitude aparente—
Tamanho aparente40′
Melhor época (BR)Dezembro, Janeiro, Fevereiro

Visão geral: o que é uma nebulosa de emissão

Uma nebulosa de emissão é uma nuvem de gás, sobretudo hidrogênio, que brilha porque a luz ultravioleta de estrelas quentes e jovens ioniza o gás; ao voltar ao estado normal, o hidrogênio emite luz, principalmente no vermelho profundo do H-alfa. É por isso que Parker cita a Nebulosa de Órion, a Cabeça de Macaco e a Roseta como exemplos de alvos para câmeras monocromáticas com filtro de H-alfa: o sinal vem quase todo de uma só linha do espectro.

Nomes e números. O nome "NGC 2174" está no meio de uma pequena confusão de designações. O SIMBAD trata a NGC 2174 como região HII e a NGC 2175 como aglomerado aberto, na mesma posição do céu. Parker avisa que a nebulosa, muitas vezes chamada de NGC 2174, é na verdade uma região de forte emissão de H-alfa maior, que contém a NGC 2174 como uma pequena nebulosidade; ele a chama de NGC 2175 na legenda seguinte. Bakich lista as duas juntas como NGC 2175, a Cara de Macaco, com cerca de 40′ × 30′. Mollise, ao contrário, separa o aglomerado da nebulosa e diz que a nebulosa tem cerca de 20′ no telescópio de 11″. O aglomerado NGC 2175 é grande e esparso, de magnitude 6,8 e cerca de 20′ (Mollise; Data Book), com cerca de 60 estrelas listadas no Data Book. Bakich observa que a estrela de magnitude 7 no centro é apenas um alinhamento casual, bem mais próxima de nós. Nem o SIMBAD nem os livros trazem a distância da nebulosa.

Estruturas notáveis

  • O "rosto". Uma região de forte emissão, com o formato de um macaco que só aparece com clareza em fotos. Parker a mostra com o norte para baixo, o mesmo que vemos daqui, para o macaco ficar mais nítido (p. 122).
  • O aglomerado NGC 2175. Grande e esparso: Mollise identificou dez estrelas dele espalhadas por 20′.
  • A nebulosa NGC 2174. A parte mais visível, a sudoeste do aglomerado (Mollise).
  • NGC 2022. Uma pequena nebulosa planetária de Órion, tratada por Mollise na mesma seção (p. 206), mas bem afastada da nebulosa.

Como localizar

A nebulosa fica na divisa entre Órion e Gêmeos. Bakich indica um ponto de partida: cerca de 2,2° a sudoeste de Eta Geminorum. Outra referência, de Mollise, é o aglomerado NGC 2175, 1°22′ a nordeste da estrela Chi-2 de Órion. A região fica cerca de 13° ao norte de Betelgeuse (calculado a partir das coordenadas). Do Brasil, olhando para o norte, isso significa abaixo de Betelgeuse, do lado dos Gêmeos, mais perto do horizonte que o resto de Órion.

Carta de localização de NGC 2174: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de +20,5°, a Cabeça de Macaco culmina a cerca de 46° de altura no Rio de Janeiro (90° menos 43,5°), a norte do zênite. É uma altura moderada, mais baixa do que a dos outros objetos de Órion: a luz atravessa mais atmosfera e o brilho de fundo da cidade, no norte, pesa mais. A melhor época é o fim de dezembro, quando ela cruza o meridiano por volta da meia-noite, e o verão inteiro, com o objeto alto ao anoitecer entre janeiro e fevereiro.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho dele pelo céu nesta noite, seguido da altura hora a hora.

Altura de Nebulosa Cabeça de Macaco ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de novembro a janeiro. O objeto chega a 46° à meia-noite em dezembro.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ22 dez · 46°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de novembro a janeiro (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 46° em 22 de dezembro.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
04:00 · 46° N
Horas acima de 45°
0,3 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
56 / 100
Posição no céu
43
Brilho
50 (sem magnitude cadastrada)
Enquadramento
100 ocupa 89 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de NGC 2174 — Nebulosa Cabeça de Macaco pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 23:10 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 04:00, com 46°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO00:0001:0002:0003:0004:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -49° — 145°
20:00 -42° — 146°
20:30 -36° — 146°
21:00 -29° — 146°
21:30 -22° — 146°
22:00 -15° — 147°
22:30 -9° — 147°
23:00 -2° — 147°
23:30 4° ENE 66° 147°
00:00 11° ENE 62° 148°
00:30 17° ENE 58° 148°
01:00 22° NE 54° 148°
01:30 28° NE 49° 148°
02:00 33° NE 43° 149°
02:30 37° NE 37° 149°
03:00 41° NNE 29° 149°
03:30 44° NNE 21° 149°
04:00 46° N 11° 150°
Altura de NGC 2174 — Nebulosa Cabeça de Macaco ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com 46°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · 46°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Nada.
Binóculo (7×50 a 10×50) Em teoria, o aglomerado NGC 2175 (magnitude 6,8, segundo o Data Book), difícil de ver em Bortle 7; a nebulosa não.
Telescópio de 100 a 150 mm Bakich diz que 100 mm já "revela" o objeto em bom céu, ainda que só como um brilho difuso. Mollise diz que o aglomerado é fácil de achar em quase qualquer telescópio, mas a nebulosa exige mais.
Telescópio de 300 a 400 mm Bakich afirma que com 400 mm ou mais dá para ver a forma de "cara de macaco"; o filtro OIII reduz o brilho da estrela central. Mollise, com um telescópio de 11″, viu só uma névoa tênue saindo de uma estrela de magnitude 7,5.

Expectativa honesta: Mollise avisa que a nebulosa pode ser apenas entrevista em céu urbano com 10″ de abertura, com filtro UHC, numa noite excelente; com 12″ é mais fácil, mas nada rotineiro, e mesmo com 15″ ou mais não é evidente. Em Bortle 7, é um alvo fotográfico. Se quiser tentar, use um campo largo, um filtro de banda estreita e procure ao sul e a oeste do aglomerado.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Parker mostra uma imagem em que a região de forte emissão tem quase o tamanho do campo de uma lente Hyperstar num telescópio de 11″ com câmera SXV-H9C, isto é, um campo largo para um telescópio. Com um telescópio de 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado a partir do sensor e da focal): cabe o rosto e um pouco de contexto.

Desafios do alvo

  • Brilho baixíssimo. Parker diz que 157 exposições de 60 s (mais de duas horas e meia) não bastaram, e classifica o alvo como fora do alcance do iniciante; sugere subs de pelo menos 120 s.
  • Sinal quase só em H-alfa. Pugh confirma: é um objeto que se presta a banda estreita, com muitas e longas exposições para manter o fundo liso e o contraste alto.
  • Altura moderada. Por ficar mais baixo no Rio de Janeiro, prefira fotografar perto do meridiano.

Equipamento e filtros

A câmera monocromática com filtro de H-alfa é a escolha de Parker e Pugh. Pugh usou 20 exposições de 10 minutos de H-alfa em luminância com um refrator de 80 mm. Em câmera colorida, um filtro dual-band (H-alfa e OIII) é o caminho para Bortle 7.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (dual-band ou H-alfa) 60 a 90 180 s Nebulosidade fraca; o tempo total é o que conta
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros. Como referência, Pugh fez 20 exposições de 10 minutos em H-alfa, e Parker, 157 de 60 s com um sistema muito luminoso.

Smart telescopes e campo de visão

O campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) enquadra bem a nebulosa e o aglomerado. Por ser fraca e ficar mais baixa, ela pede muitas horas de empilhamento com o filtro dual-band do aparelho. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

A Cabeça de Macaco não é um alvo para a primeira noite, mas é um bom exemplo do que a banda estreita faz numa cidade: um rosto vermelho que a vista não vê. Para se preparar, comece pela Grande Nebulosa de Órion e pela Roseta, e use o guia da constelação de Órion para achar o caminho até os Gêmeos.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 983 (NGC 2175).
  • MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Tabela de aglomerados abertos (NGC 2175), p. 461.
  • MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer, 2006. NGC 2174, 2175 e 2022, p. 206-207.
  • PARKER, Greg. Making Beautiful Deep-Sky Images: Astrophotography with Affordable Equipment and Software. New York: Springer, 2007. Filtros de H-alfa, p. 36; figura 11.27, p. 122.
  • PUGH, Philip. The Science and Art of Using Telescopes. New York: Springer, 2009. "NGC 2174: The Monkey Nebula", p. 318-319.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas e tipo de NGC 2174 e NGC 2175, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.