setembro 21, 2026

M 95, a espiral barrada do Grupo de Leão: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M95 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

No coração do Leão, um pouco a nordeste de Regulus, um pequeno grupo de galáxias forma um dos alvos mais gratificantes da primavera do hemisfério norte — e, vista do Brasil, um dos melhores conjuntos de galáxias que sobem bem alto no céu. M 95 é a primeira das três galáxias Messier desse grupo: uma espiral barrada compacta, com um anel brilhante de formação estelar em volta do núcleo, que fica a apenas 0,7° da vizinha M 96. Isso não a torna espetacular ao telescópio pequeno — como quase toda galáxia distante, ela pede céu escuro e alguma paciência —, mas o conjunto que ela forma com M 96 e M 105 é um dos programas de uma noite só mais eficientes de todo o céu de outono brasileiro.

Texto em revisão. Este é um dos guias do novo formato de objeto do site, feito a partir de fontes de referência e do SIMBAD. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de M95 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o Grupo de M96 (Leo I)

M 95, M 96 e M 105, junto com galáxias menores como NGC 3384 e NGC 3377, formam o chamado Grupo de M96 — às vezes chamado Grupo Leo I, sem relação com a galáxia anã Leo I que fica perto de Regulus. É um grupo pequeno e relativamente próximo, com cerca de nove membros identificados, a uma distância média de cerca de 38 milhões de anos-luz (Bakich; Kambič; Moore). O SIMBAD não traz paralaxe para nenhuma dessas galáxias — elas estão longe demais para o método —, então este guia usa o valor dos livros.

Uma barra com anel. M 95 é classificada como SBb no SIMBAD: uma espiral barrada de braços moderadamente enrolados. Ao redor do núcleo, uma barra atravessa a galáxia de um lado a outro, e num anel logo fora dela concentram-se as regiões de formação estelar mais ativas — é esse anel fraco que aparece como o trecho mais brilhante dos braços em telescópios amadores (Bakich). Com 300 mm ou mais, a barra em si, orientada de leste a oeste, fica evidente.

Tamanho e brilho. O SIMBAD dá 5,6′ × 5,0′ de tamanho aparente e magnitude 9,73; os livros trazem valores um pouco maiores, de 7,8′ × 4,6′ (Bakich), porque incluem mais do halo fraco externo. A diferença é típica de medidas fotométricas com limiares distintos, e este guia adota o SIMBAD na ficha.

Descoberta. Pierre Méchain descobriu M 95 em 20 de março de 1781; Charles Messier a incluiu no catálogo apenas quatro dias depois (Kier).

Estruturas notáveis

  • A barra central. Uma faixa alongada de leste a oeste que cruza o núcleo; aparece com telescópios de 400 mm ou mais (Bakich).
  • O anel de formação estelar. Um anel fraco logo fora da barra, pontilhado de regiões HII; é o trecho mais brilhante dos braços espirais e o que dá à galáxia seu aspecto de "olho" em fotografias longas.
  • O núcleo. Brilhante e concentrado, visível já em telescópios pequenos como o ponto mais fácil da galáxia.
  • O halo externo fraco. Só aparece com céu bem escuro e aberturas grandes; é a parte que os livros incluem e o SIMBAD, mais conservador, deixa de fora do tamanho catalogado.

Como localizar

M 95 fica cerca de 3,6° a nordeste da estrela Rho Leonis (mag. 3,9), num trecho relativamente vazio do Leão, ao sul da linha que liga Regulus a Algieba (Bakich). A vizinha M 96 está a apenas 0,7° a leste — no mesmo campo de um binóculo ou de uma ocular de baixo aumento —, e M 105 fica mais 0,8° ao norte de M 96. Comece por M 96, que é um pouco mais brilhante e mais fácil de confirmar, e depois desloque o campo para os dois lados.

Carta de localização de M95: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de cerca de +12°, M 95 culmina a uns 55° de altura no céu do Rio de Janeiro — uma altura excelente, bem acima da faixa de pior turbulência e poluição luminosa perto do horizonte. É um dos poucos casos em que o observador brasileiro não perde nada para quem está no hemisfério norte: lá, a galáxia também passa relativamente baixa, perto do zênite só em latitudes médias do norte.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho de M 95 pelo céu nesta noite.

Altura de M95 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de janeiro a abril. O objeto chega a 56° à meia-noite em fevereiro.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ25 fev · 56°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de janeiro a abril (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 56° em 25 de fevereiro.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 7°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
04:00 · 7° ENE
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
42 mag 9,8
Enquadramento
64 ocupa 16 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M95 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 03:40 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 04:00, com 7°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO04:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -63° — 68°
20:00 -69° — 69°
20:30 -75° — 69°
21:00 -78° — 69°
21:30 -78° — 69°
22:00 -74° — 70°
22:30 -68° — 70°
23:00 -62° — 70°
23:30 -55° — 70°
00:00 -48° — 71°
00:30 -42° — 71°
01:00 -35° — 71°
01:30 -28° — 72°
02:00 -21° — 72°
02:30 -14° — 72°
03:00 -7° — 72°
03:30 0° — 73°
04:00 7° ENE 75° 73°
Altura de M95 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com 7°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · 7°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Invisível: mesmo em céu excelente, a magnitude 9,7 e o baixo brilho superficial estão bem abaixo do limite visual.
Binóculo (10×50 ou maior) Uma manchinha fraca e redonda, sem detalhe, só em céu escuro; use visão desviada. M 96 aparece no mesmo campo, um pouco mais fácil.
Telescópio de 150 a 200 mm Uma galáxia levemente alongada, com centro brilhante e um anel fraco ao redor (Bakich). A barra ainda não aparece.
Telescópio de 300 a 400 mm A barra leste-oeste fica evidente, e o anel de formação estelar se resolve em pequenas condensações, sobretudo em céu bem escuro.

Expectativa honesta: M 95 é a mais discreta das três galáxias Messier do grupo. Quem tenta vê-la antes de M 96 costuma se decepcionar; comece pela vizinha mais brilhante e volte a M 95 depois que o olho já estiver adaptado ao campo.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

M 95 sozinha cabe num campo modesto, de 15′ a 20′, mas o interessante é enquadrar o grupo inteiro: Kier recomenda um campo de 72′ × 48′ para capturar M 95 e M 96 juntas, e de 90′ × 60′ para incluir também M 105 e sua vizinha NGC 3384 (bt-p104). Com um telescópio de 500 a 600 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 2,2° × 1,5°), as três galáxias do grupo cabem numa única exposição, com espaço de sobra ao redor.

Desafios do alvo

  • Brilho superficial baixo. Como a maioria das galáxias distantes, M 95 exige tempo total de exposição generoso para revelar o anel e a barra sem saturar o núcleo.
  • Campo com três alvos de brilho desigual. M 96 é visivelmente mais brilhante que M 95 e M 105; um processamento com camadas separadas ou HDR ajuda a equilibrar o quadro sem estourar o núcleo de M 96.
  • Céu urbano. Sob Bortle 7, como no Rio de Janeiro, o halo externo fraco de M 95 é a primeira coisa a se perder; a barra e o anel interno resistem melhor.

Equipamento e filtros

Filtros de banda estreita não ajudam em galáxias como M 95: a luz vem de estrelas, não de gás ionizado numa faixa específica. O ganho vem de tempo total de exposição e de um filtro anti-poluição de banda larga (dual/tri-band de largura maior, ou um filtro UV/IR-cut) para melhorar o contraste sob céu urbano. Uma câmera colorida de um disparo funciona bem para o grupo inteiro num único enquadramento.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 60 a 90 120 a 180 s Núcleo, barra e anel das três galáxias
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu equipamento e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

Um smart telescope como o Seestar S50, com campo de cerca de 1,3° × 0,7°, enquadra M 95 e M 96 juntas com folga, mas exige dois apontamentos (ou um mosaico) para incluir também M 105. É um bom alvo para quem está começando em astrofotografia, porque o resultado — três galáxias reconhecíveis num só campo — já é gratificante com poucas dezenas de minutos de integração em céu razoável. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 95 raramente é o alvo principal de uma noite, mas completa um dos melhores programas de galáxias do céu de outono: em uma única sessão, dá para visitar uma espiral barrada, uma espiral maior (M 96) e uma elíptica (M 105), todas a uma altura excelente no Rio de Janeiro. Comece pela vizinha mais brilhante — o guia de M 96 — e depois visite a elíptica M 105; se quiser conhecer o resto da constelação e o outro trio de galáxias do Leão, leia o guia de Leão, a constelação da Foice e de Regulus.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 161 (M 95).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Leão, M 95/M 96/M 105, p. 325-326.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. Hickson 44 e M 95/M 96, p. 104-121 (impressa 90-107).
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Galáxias de Leão, p. 122-123.
  • COOKE, Antony. Visual Astronomy in the Suburbs: A Guide to Spectacular Viewing. London: Springer. Galáxias de Leão e Ursa Maior, p. 211-213.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo morfológico, magnitude V e dimensões de M 95 (NGC 3351), em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.