setembro 21, 2026

M 105, a galáxia elíptica do Grupo de Leão: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M105 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

M 105 fecha o trio de galáxias Messier do Grupo de Leão, ao lado de M 95 e M 96. É a única elíptica das três — uma bola de estrelas velhas, sem gás nem formação estelar recente, bem diferente das duas espirais vizinhas — e tem uma história curiosa: por muito tempo não foi contada oficialmente entre os objetos Messier, apesar de ter sido observada junto com as outras. Do Rio de Janeiro, culmina a mais de 50° de altura, tão acessível quanto suas vizinhas. Este guia trata de M 105 isoladamente; leia também os guias de M 95 e M 96.

Texto em revisão. Este é um dos guias do novo formato de objeto do site, feito a partir de fontes de referência e do SIMBAD. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de M105 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: a elíptica do trio, e uma entrada tardia no catálogo

M 105 é o membro mais brilhante do Grupo de M96 entre as elípticas — uma esfera (ou um elipsoide achatado) de estrelas antigas, sem os braços, o gás e a formação estelar recente que caracterizam M 95 e M 96. O SIMBAD a classifica como E1, quase perfeitamente esférica em projeção. Como toda elíptica desse tipo, tem pouco a mostrar em estrutura: seu interesse está mais no contraste com as vizinhas espirais do que em detalhe próprio.

Uma história de catálogo incomum. Pierre Méchain observou M 105 na mesma época em que descobriu M 95 e M 96, mas o objeto não chegou a entrar na lista final publicada por Charles Messier em 1781. Segundo uma carta de Méchain de 1783 — que também menciona M 106 e M 107 —, o astrônomo já conhecia esses três objetos; eles só foram formalmente incorporados ao catálogo Messier no século XX, quando pesquisadores recuperaram essa correspondência. É um lembrete de que o catálogo Messier, hoje tratado como uma lista fixa de 110 objetos, foi na verdade um documento histórico reconstruído aos poucos.

Tamanho e brilho. O SIMBAD dá 5,13′ × 4,68′ e magnitude 9,76; os livros trazem valores mais conservadores (3,9′ × 3,9′ e magnitude 9,3 em Bakich), provavelmente por medirem só a região central mais brilhante e não o halo difuso que o SIMBAD inclui.

Vizinhos. NGC 3384, uma galáxia lenticular do próprio grupo, fica a apenas 7′ a lés-nordeste de M 105; NGC 3389, uma espiral de fundo sem relação com o grupo, fica 10′ a lés-sudeste (Bakich).

Estruturas notáveis

  • O núcleo brilhante. Concentrado e fácil de ver; é praticamente tudo o que M 105 oferece ao olho.
  • O halo. De borda difícil de definir, esmaece gradualmente para fora; aparece redondo em baixo aumento e ligeiramente oval, alongado nordeste-sudoeste, acima de 250× (Bakich).
  • NGC 3384. A galáxia companheira mais próxima, no mesmo campo de baixo aumento; vista de qualquer telescópio como uma oval alongada, com centro grande e brilhante.
  • NGC 3389. Mais fraca e sem relação física com o grupo, um bom exercício de "que é galáxia de fundo e que não é" no mesmo campo.

Como localizar

O caminho mais direto até M 105 é passar por M 96 primeiro: M 105 fica apenas 0,8° ao norte-nordeste dela (Bakich). Quem preferir uma rota independente pode usar a mesma referência de M 95 e M 96, a estrela Rho Leonis (mag. 3,9), a cerca de 4° a sudoeste do trio.

Carta de localização de M105: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de cerca de +12,6°, M 105 culmina a uns 54° de altura sobre o horizonte do Rio de Janeiro — uma altura muito boa, típica de todo o Grupo de Leão visto do Brasil.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho de M 105 pelo céu nesta noite.

Altura de M105 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de janeiro a abril. O objeto chega a 55° à meia-noite em março.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ2 mar · 55°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de janeiro a abril (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 55° em 2 de março.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 5°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
04:00 · 5° ENE
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
50 mag 9,3
Enquadramento
43 ocupa 11 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M105 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 03:40 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 04:00, com 5°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO04:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -63° — 68°
20:00 -69° — 68°
20:30 -75° — 69°
21:00 -79° — 69°
21:30 -79° — 69°
22:00 -75° — 69°
22:30 -69° — 70°
23:00 -63° — 70°
23:30 -56° — 70°
00:00 -50° — 70°
00:30 -43° — 71°
01:00 -36° — 71°
01:30 -29° — 71°
02:00 -22° — 71°
02:30 -15° — 72°
03:00 -8° — 72°
03:30 -1° — 72°
04:00 5° ENE 74° 72°
Altura de M105 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com 5°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · 5°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Invisível; muito abaixo do limite visual mesmo em céu excelente.
Binóculo (10×50 ou maior) Uma manchinha fraca e redonda, mais difícil que M 96 e semelhante a M 95, no mesmo campo do trio.
Telescópio de 150 a 200 mm Núcleo brilhante e halo de borda difícil de definir; parece circular em baixo aumento (Bakich).
Telescópio de 300 mm ou mais Acima de 250×, a galáxia se revela um oval "gordo", alongado nordeste-sudoeste; NGC 3384 aparece nítida no mesmo campo, 7′ a lés-nordeste (Bakich).

Expectativa honesta: elípticas costumam decepcionar quem espera estrutura — não há braços, faixas de poeira ou regiões de formação estelar para caçar. O valor de M 105 está no contraste com M 95 e M 96 e na chance de comparar, no mesmo campo, três tipos de galáxia diferentes numa única noite.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

M 105 e NGC 3384 cabem juntas num campo pequeno, de 15′ a 20′, mas o melhor enquadramento inclui as cinco galáxias do trio completo: Kier recomenda 90′ × 60′ para reunir M 95, M 96, M 105 e NGC 3384 (bt-p104). Com um telescópio de 400 a 500 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo de cerca de 2,5° a 3° cobre o grupo com folga.

Desafios do alvo

  • Pouco contraste na elíptica. Sem braços nem cores fortes, M 105 rende menos detalhe do que as vizinhas espirais; o interesse fotográfico está mais no conjunto do que no objeto isolado.
  • Brilho desigual entre os membros. M 105 é mais fraca que M 96; um processamento cuidadoso evita que uma domine o quadro à custa da outra.
  • Céu urbano. Sob Bortle 7, o halo externo de M 105 é a primeira parte a se perder; o núcleo resiste bem.

Equipamento e filtros

Como em toda galáxia, filtros de banda estreita não ajudam. Um filtro de corte de poluição de banda larga melhora o contraste sob céu urbano, e uma câmera colorida de um disparo é suficiente para fotografar o grupo inteiro.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 60 a 90 120 a 180 s Núcleo e halo de M 105, NGC 3384 e o restante do grupo
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu equipamento e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

Um smart telescope como o Seestar S50, com campo de cerca de 1,3° × 0,7°, enquadra M 105 e NGC 3384 com folga, mas não alcança M 95 e M 96 no mesmo apontamento — é preciso reposicionar ou fazer um mosaico para visitar o grupo inteiro numa sessão. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 105 fecha o trio de Leão com o contraste que faltava: depois de duas espirais, uma elíptica tranquila, sem estrutura para caçar, mas com uma história de catálogo que lembra que a astronomia também é feita de arquivos e cartas recuperadas décadas depois. Junto com M 95 e M 96, forma um dos melhores programas de uma noite só do céu de outono brasileiro. Para conhecer o resto da constelação e o outro trio de galáxias do Leão, leia o guia de Leão, a constelação da Foice e de Regulus.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 166 (M 105) e nº 168 (NGC 3384).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Leão, M 95/M 96/M 105, p. 325-326.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. Hickson 44 e M 95/M 96, p. 104-121 (impressa 90-107).
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Galáxias de Leão, p. 122-123.
  • MACHHOLZ, Don. The Observing Guide to the Messier Marathon: A Handbook and Atlas. New York: Springer. Objetos "add-on" M104 a M110, p. 38.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo morfológico, magnitude V e dimensões de M 105 (NGC 3379), em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.