setembro 21, 2026
M 75, o globular de Sagitário: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Existem globulares que se espalham pelo campo do ocular como uma nuvem de estrelinhas, e existem globulares como M 75: tão distantes e compactos que, mesmo em telescópios grandes, continuam parecendo pouco mais que uma estrela desfocada. Ele fica em Sagitário, perto da fronteira com Capricórnio, longe da faixa mais densa da Via Láctea — o que lhe dá um campo de fundo relativamente limpo — e passa quase no zênite do Rio de Janeiro, um dos ângulos mais favoráveis do céu inteiro. Este guia reúne os dados, como localizar, quando observar e o que esperar ao telescópio.

Ficha técnica e designações
Visão geral: um globular no limite da distância
M 75 é um aglomerado globular, uma esfera compacta de centenas de milhares de estrelas antigas presas pela gravidade mútua, orbitando a grande distância do núcleo da Via Láctea. O que diferencia M 75 da maioria dos globulares do catálogo de Messier é a distância: ele está entre os mais afastados de todos, e isso muda completamente sua aparência ao telescópio.
M 75 em números. O SIMBAD lista a paralaxe do aglomerado em 0,069 ± 0,012 milissegundos de arco, o que corresponde a uma distância de cerca de 47.000 anos-luz — com incerteza relativamente alta, de uns 17%, justamente porque o sinal de paralaxe é muito fraco a essa distância. Livros mais antigos citam valores ainda maiores: Bakich fala em 60.000 anos-luz, Kambič em 67.500. Os três concordam em um ponto: M 75 é um dos globulares mais distantes do catálogo Messier, talvez o mais distante de todos, e essa é a razão de sua aparência peculiar. O tamanho aparente, segundo o SIMBAD, é de apenas 2,4′ × 2,1′ — um dos menores discos entre os globulares Messier — com magnitude 8,26 (catálogo do site).
Por que parece uma estrela. Bakich observa que, mesmo em um telescópio de 300 mm, é difícil resolver as estrelas individuais mais brilhantes de M 75: a essa distância, cada estrela do aglomerado é fraquíssima, e o que se vê é sobretudo um núcleo brilhante e estelar, cercado por um halo tênue. É um bom exercício para entender por que "distância" é um dos fatores que mais determinam a aparência de um globular ao telescópio, ao lado de concentração, população e tamanho real.
Campo limpo. Diferente de M 70 e M 22, que ficam na direção mais densa da Via Láctea, M 75 está um pouco fora dela, perto da fronteira entre Sagitário e Capricórnio — Bakich descreve o campo ao redor como livre de estrelas de primeiro plano, o que facilita destacar o aglomerado mesmo sendo pequeno.
Descoberta. M 75 foi descoberto por Pierre Méchain em 1780 e catalogado por Messier no mesmo ano, junto com boa parte dos globulares de Sagitário.
Estruturas notáveis
- O núcleo estelar. A característica mais marcante de M 75: mesmo em bons telescópios, o centro aparece como um ponto brilhante e concentrado, mais parecido com uma estrela do que com uma bola de estrelas — reflexo direto da grande distância (Bakich; Kambič).
- O halo fraco. Ao redor do núcleo, um halo tênue e pequeno, raramente resolvido em estrelas individuais mesmo em aberturas grandes.
- A alta concentração central. O pequeno tamanho angular (2,4′ segundo o SIMBAD) para uma magnitude relativamente boa (8,26) indica um aglomerado muito denso no centro — um dos mais concentrados do catálogo Messier.
- O campo de fundo limpo. Por estar fora da faixa mais espessa da Via Láctea, M 75 se destaca contra um fundo relativamente pobre em estrelas, o que ajuda a localizá-lo mesmo sendo pequeno.
Como localizar
M 75 fica cerca de 5° a nor-nordeste de Omega Sagittarii (magnitude 4,7), perto da fronteira entre Sagitário e Capricórnio (Bakich). Como não há estrelas muito brilhantes bem próximas, o melhor caminho é partir de M 55, outro globular de Sagitário mais fácil de localizar: a partir dele, ande cerca de 3° para o norte e 5° para leste até a estrela "62 Sagittarii", e depois mais um pouco para nordeste até M 75 (Machholz).
Como o aglomerado é pequeno e o campo, relativamente pobre em estrelas-guia, vale a pena usar um buscador com boa magnitude limite ou consultar um app de planetário antes de sair procurando visualmente.

Quando e como observar
M 75 passa a menos de 1,1° do zênite do Rio de Janeiro — está entre os pontos mais altos que qualquer objeto pode alcançar no céu carioca. É uma vantagem enorme: a luz atravessa o mínimo possível de atmosfera, o que ajuda tanto a nitidez visual quanto a astrofotografia, especialmente sendo M 75 um alvo pequeno e relativamente fraco.
O primeiro gráfico abaixo mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho de M 75 pelo céu nesta noite.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 19:20 · 79° W
- Horas acima de 45°
- 2,5 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 65 / 100
- Posição no céu
- 76
- Brilho
- 65 mag 8,3
- Enquadramento
- 32 ocupa 8 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 77° | W 272° | 73° |
| 20:00 | 70° | W 269° | 73° |
| 20:30 | 63° | W 267° | 72° |
| 21:00 | 56° | W 265° | 72° |
| 21:30 | 50° | W 263° | 72° |
| 22:00 | 43° | W 261° | 72° |
| 22:30 | 36° | W 259° | 71° |
| 23:00 | 29° | WSW 257° | 71° |
| 23:30 | 22° | WSW 255° | 71° |
| 00:00 | 16° | WSW 253° | 71° |
| 00:30 | 9° | WSW 250° | 70° |
| 01:00 | 3° | WSW 247° | 70° |
| 01:30 | -4° | — | 70° |
| 02:00 | -10° | — | 70° |
| 02:30 | -16° | — | 69° |
| 03:00 | -22° | — | 69° |
| 03:30 | -27° | — | 69° |
| 04:00 | -32° | — | 69° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Invisível; M 75 está bem abaixo do limite a olho nu. |
| Binóculo (10×50) | Uma manchinha pequena e fraca, quase pontual, fácil de confundir com uma estrela até comparar com uma carta. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Um disco pequeno e concentrado, com núcleo notavelmente brilhante em baixa ampliação. |
| Telescópio de 250 a 300 mm | Mesmo nesse porte, resolver estrelas individuais é difícil: o núcleo continua com aspecto estelar, e só o halo mais externo começa a mostrar uma textura granulada em ampliação alta (Bakich). |
Uma boa forma de pensar sobre M 75: compare-o com um globular próximo e bem resolvido, como M 22, na mesma constelação. A diferença de aparência entre os dois — um granulado e cheio de estrelas separadas, o outro quase uma bola de luz compacta — é quase inteiramente uma questão de distância: os dois têm populações de estrelas comparáveis, mas M 75 está muitas vezes mais longe.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com pouco mais de 2′ de diâmetro, M 75 é um dos alvos mais compactos deste site. Com um telescópio de 1.000 mm de focal, o aglomerado ocupa uma fração mínima do campo de uma câmera como a ASI294MC Pro (cerca de 1,1° × 0,75°); para um retrato que valorize o objeto, é melhor usar uma focal longa, de 2.000 mm ou mais, ou aceitar que o resultado será um pequeno "botão" de luz cercado por campo estelar — o que, dada a raridade do objeto, ainda vale o registro.
Desafios do alvo
- Alvo muito pequeno. Exige foco preciso, boa estabilidade atmosférica (seeing) e, de preferência, focal longa; em focais curtas, M 75 vira pouco mais que um ponto brilhante na imagem.
- Baixo brilho superficial. Apesar do núcleo brilhante, o halo é fraco; um bom guiamento e exposições relativamente longas ajudam a captar o contorno externo do aglomerado.
- Campo de fundo pobre. Ao contrário de outros globulares de Sagitário, M 75 não tem um campo estelar rico ao redor para preencher a composição — pense nisso ao planejar o enquadramento.
Equipamento e filtros
Não há gás para realçar com filtros de banda estreita neste alvo: o objetivo é resolução. Uma câmera colorida de um disparo funciona, mas quem tiver acesso a um telescópio de focal mais longa (Schmidt-Cassegrain ou Maksutov, por exemplo) tira mais proveito de M 75 do que com um refrator curto.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light | 40 a 60 | 60 a 90 s | Registrar núcleo e halo sem saturar |
| Dark | 20 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 20 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 30 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, à sua focal e ao céu da noite.
Smart telescopes e campo de visão
Por ser um alvo muito pequeno, M 75 vai aparecer como um ponto compacto no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), cercado por um campo relativamente pobre em estrelas. Não é o alvo mais espetacular para esse tipo de equipamento, mas é um bom "carimbo" no catálogo Messier completo. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
M 75 não impressiona pelo tamanho ou pelo detalhe resolvido, mas pelo que representa: um dos objetos mais distantes que dá para observar com um telescópio amador, catalogado há mais de dois séculos, brilhando quase no zênite de quem observa do Rio de Janeiro. Vale a visita logo depois de observar M 22 ou M 55, para sentir na prática a diferença que a distância faz na aparência de um globular. Leia também o guia da constelação de Sagitário.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 615 (M 75/NGC 6864).
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Globulares de Sagitário (M 22, M 28, M 54, M 55, M 69, M 70, M 75), p. 417-426 (conferir a página exata de M 75 na edição em mãos).
- MACHHOLZ, Don. The Observing Guide to the Messier Marathon: A Handbook and Atlas. New York: Springer, 2002. Tabela de localização de M 75/NGC 6864, p. 169 (conferir página impressa).
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de M 75, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.