setembro 21, 2026

M 70, o globular de Sagitário: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M70 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Poucos aglomerados globulares têm uma história de descoberta tão inesperada quanto M 70. Em julho de 1995, dois observadores amadores nos Estados Unidos, cada um em sua cidade, apontaram o telescópio para esse globular discreto de Sagitário — e ambos notaram, no mesmo campo, uma manchinha nebulosa que não deveria estar ali. Não era M 70: era um cometa novo, batizado depois com os dois sobrenomes, Hale-Bopp, um dos mais espetaculares do século XX. M 70 seguiu discreto, ofuscado por essa história e pelos vizinhos mais brilhantes do "bule" de Sagitário, mas é um alvo fácil e generoso para quem observa do Brasil: passa a poucos graus do zênite do Rio de Janeiro, a melhor posição possível no céu. Este guia reúne os dados, como localizar, quando observar e o que esperar ao telescópio.

Imagem de referência (DSS2) de M70 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: um globular na direção do centro galáctico

M 70 é um aglomerado globular, uma bola de centenas de milhares de estrelas muito antigas, presa pela própria gravidade em uma esfera com dezenas de anos-luz de diâmetro. A maioria dos globulares da Via Láctea, como M 70, orbita o núcleo da Galáxia a grande distância do disco onde vivemos, o que explica por que se concentram na direção de Sagitário: é para lá que apontamos quando olhamos para o centro galáctico.

M 70 em números. O SIMBAD lista a paralaxe do aglomerado em 0,121 ± 0,012 milissegundos de arco, o que corresponde a uma distância de cerca de 27.000 anos-luz (com incerteza de cerca de 10%, pelo erro da medida). O tamanho aparente é de 7,8′ segundo o SIMBAD — um disco pequeno, do tamanho de um quarto da Lua cheia, mas denso o bastante para brilhar com magnitude 9,06 (catálogo do site). Livros mais antigos, como o de Kambič, citam uma distância maior, de 29.300 anos-luz, e descrevem M 70 como um dos globulares mais fracos de Sagitário em binóculos — um bom lembrete de que "fraco" é relativo: ele ainda é bem mais brilhante que a maioria dos globulares do catálogo NGC.

Vizinho de M69. M 70 fica a cerca de 2,5° a leste de M 69, outro globular de Sagitário de brilho parecido; os dois, junto com M 54, mais a leste, formam uma pequena fileira ao sul da "tampa do bule". Segundo Kambič, o trio M 54, M 69 e M 70 é considerado "marginal" para observadores do hemisfério norte, que os veem baixos — uma vantagem clara de observar do Brasil, onde os três sobem bem mais alto.

Descoberta e catalogação. Charles Messier catalogou M 70 em 1780, junto com boa parte dos globulares de Sagitário, quando examinava a região à procura de cometas — a mesma motivação, por acaso, que levaria Alan Hale e Thomas Bopp até ele 215 anos depois.

Estruturas notáveis

  • O núcleo concentrado. Bakich descreve M 70 como tendo o centro mais concentrado que o do vizinho M 69, apesar de brilho semelhante — é a parte mais fácil de perceber em telescópios pequenos.
  • O halo parcialmente resolvido. Em instrumentos de 200 mm e cerca de 200 aumentos, o halo já mostra meia dúzia de estrelas individuais na borda, contra o fundo nebuloso do núcleo não resolvido (Bakich).
  • A linha de estrelas ao norte. Bakich menciona uma fileira curta de estrelas relativamente brilhantes logo ao norte do aglomerado, útil como referência ao comparar fotos com o que se vê no ocular.
  • O campo pobre da direção do bojo. Como muitos globulares no rumo do centro galáctico, M 70 aparece sobre um campo denso de estrelas de fundo da Via Láctea, mas ele próprio, por estar isolado do disco, tem poucas estrelas de primeiro plano se sobrepondo — o que ajuda a distingui-lo do céu ao redor.

Como localizar

M 70 fica a meio caminho entre duas estrelas brilhantes do "bule" de Sagitário: Kaus Australis (Epsilon Sagittarii, magnitude 1,8), no bico do bule, e Ascella (Zeta Sagittarii, magnitude 2,6), na alça (Bakich). Trace uma linha entre as duas e M 70 fica próximo do meio, ligeiramente ao sul dela. Se preferir partir de M 69, que fica na mesma região, ande cerca de 2,5° para leste.

Como o campo é rico em estrelas da Via Láctea, use um buscador de campo largo ou um binóculo para confirmar a posição antes de trocar para o telescópio principal.

Carta de localização de M70: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

M 70 culmina a apenas cerca de 9° do zênite do Rio de Janeiro — está entre os globulares mais bem posicionados do céu para quem observa daqui. Isso significa pouquíssima atmosfera atravessada pela luz do objeto, o que ajuda tanto na observação visual quanto na astrofotografia. Os autores que descrevem M 70 como "marginal" ou "difícil" escrevem do hemisfério norte, onde ele nunca sobe muito; para nós, é o contrário.

O primeiro gráfico abaixo mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho de M 70 pelo céu nesta noite.

Altura de M70 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de abril a setembro. O objeto chega a 81° à meia-noite em junho.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ30 jun · 81°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de abril a setembro (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 81° em 30 de junho.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
19:20 · 60° WSW
Horas acima de 45°
1,3 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
55 / 100
Posição no céu
54
Brilho
53 mag 9,1
Enquadramento
59 ocupa 15 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M70 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 18:20 e 00:10 durante a noite; o ponto mais alto é às 19:20, com 60°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO19:0020:0021:0022:0023:0000:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 58° WSW 245° 53°
20:00 52° WSW 246° 53°
20:30 45° WSW 247° 52°
21:00 39° WSW 246° 52°
21:30 33° WSW 245° 52°
22:00 27° WSW 244° 52°
22:30 20° WSW 243° 51°
23:00 14° WSW 241° 51°
23:30 8° WSW 238° 51°
00:00 2° SW 236° 51°
00:30 -3° — 50°
01:00 -9° — 50°
01:30 -14° — 50°
02:00 -19° — 50°
02:30 -23° — 49°
03:00 -27° — 49°
03:30 -30° — 49°
04:00 -32° — 49°
Altura de M70 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 19:20, com 60°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Invisível; mesmo em céu muito escuro, M 70 está abaixo do limite a olho nu.
Binóculo (10×50) Uma manchinha redonda e fraca, sem estrelas resolvidas, fácil de confundir com uma estrela desfocada até aumentar a atenção (Kambič descreve os globulares dessa faixa como "manchas uniformes, sem resolução" em binóculo).
Telescópio de 100 a 150 mm Um disco nebuloso com centro mais brilhante; ainda sem resolução individual de estrelas.
Telescópio de 200 mm ou mais A cerca de 200 aumentos, o núcleo aparece bem concentrado e brilhante, e o halo já mostra meia dúzia de estrelas individuais na borda, além da linha de estrelas mais brilhantes ao norte (Bakich).

Uma curiosidade para lembrar enquanto observa: foi apontando para este mesmo campo, em 23 de julho de 1995, que Alan Hale e Thomas Bopp — cada um em seu próprio telescópio, sem procurar cometas — notaram um objeto estranho perto de M 70. O achado, batizado depois de Hale-Bopp, se tornaria um dos cometas mais brilhantes e observados das últimas décadas.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com 7,8′ de diâmetro, M 70 é um alvo compacto. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo de cerca de 1,1° × 0,75° deixa o aglomerado pequeno no quadro, com bastante espaço de céu ao redor — uma focal maior, de 1.500 a 2.500 mm, enquadra melhor um globular deste tamanho e mostra mais detalhe do núcleo e do halo resolvido.

Desafios do alvo

  • Alvo pequeno e de brilho concentrado. É preciso mais distância focal do que para nebulosas extensas, e um bom seeing (estabilidade atmosférica) ajuda a separar as estrelas do halo.
  • Núcleo saturado. Como em qualquer globular, o centro denso satura rápido em exposições longas; HDR ou uma série curta adicional preserva o gradiente de brilho até o núcleo.
  • Campo estelar denso ao redor. Por estar perto da direção do centro galáctico, o fundo de estrelas é rico; isso não atrapalha o aglomerado em si, mas pede cuidado ao calibrar o fundo do céu.

Equipamento e filtros

Globulares não têm cor de gás para realçar com filtros de banda estreita; o objetivo é resolução e profundidade de tons entre as estrelas. Uma câmera colorida de um disparo funciona bem; câmeras monocromáticas com filtros LRGB entregam mais detalhe fino nas estrelas do halo, mas exigem boa focal e bom guiamento.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 40 a 60 60 a 120 s Resolver o halo e preservar o núcleo
Dark 20 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 20 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 30 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, à sua focal e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

Por ser um alvo pequeno, M 70 ocupa uma fração modesta do campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°); ele aparece como uma bola brilhante e compacta, cercada de campo estelar denso da Via Láctea. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 70 não é o globular mais espetacular de Sagitário — essa fama fica com M 22 —, mas é um alvo fácil, bem posicionado no céu do Rio de Janeiro e carregado de uma boa história para contar enquanto se observa: foi apontando para ele que um cometa famoso foi descoberto por acaso. É um bom complemento a uma noite dedicada aos globulares da região, junto com M 22, M 28 e M 55, todos já cobertos neste site. Leia também o guia da constelação de Sagitário, o "bule" que abriga a maior concentração de objetos Messier do céu.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 552 (M 70/NGC 6681).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Globulares de Sagitário (M 22, M 28, M 54, M 55, M 69, M 70, M 75), p. 417-426 (conferir a página exata de M 70 na edição em mãos).
  • MACHHOLZ, Don. The Observing Guide to the Messier Marathon: A Handbook and Atlas. New York: Springer, 2002. Tabela de localização de M 70/NGC 6681, p. 169 (conferir página impressa).
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de M 70, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.