setembro 21, 2026
M 56, o globular de Lira: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
M 56 não é o globular mais espetacular do céu de verão do hemisfério norte — está longe do brilho de M 13 ou M 22 —, mas tem uma localização charmosa: fica bem no meio da Via Láctea que corre entre o Cisne e a Lira, num trecho do céu cheio de estrelas duplas e coloridas, nebulosas planetárias e aglomerados. Para quem observa do hemisfério norte, é um alvo de meia-estação, fácil de achar a partir de duas estrelas bem conhecidas. Para quem observa do Rio de Janeiro, é um objeto que sobe moderadamente baixo, mas ainda dá para observar com um pouco de paciência. Este guia cobre os dois pontos de vista.

Ficha técnica e designações
Visão geral: um globular na Via Láctea de verão
M 56 é um aglomerado globular, uma esfera compacta de centenas de milhares de estrelas muito antigas, ligadas pela própria gravidade, orbitando a Via Láctea a grande distância do disco onde o Sol está. Diferente de globulares mais espetaculares como M 13, em Hércules, M 56 é discreto: um alvo de aparência modesta até em telescópios médios, mas ainda assim um representante clássico desse tipo de objeto.
M 56 em números. A paralaxe listada no SIMBAD (0,091 ± 0,011 milissegundos de arco) corresponde a uma distância de cerca de 35.800 anos-luz, com incerteza de uns 12%. O tamanho aparente, também do SIMBAD, é de 7,1′ de diâmetro, e a magnitude, 8,4 — um brilho relativamente baixo para um globular Messier, o que explica por que ele costuma ser descrito como "discreto" nos livros de observação.
Concentração: divergência entre fontes. A classificação de Shapley-Sawyer mede o quanto as estrelas de um globular se concentram para o centro, numa escala de I (muito concentrado) a XII (muito solto). As fontes consultadas divergem bastante sobre M 56: Allison o classifica como V (moderadamente concentrado), enquanto Mollise o coloca em X (bem mais frouxo, próximo dos globulares mais "espalhados" do catálogo). Essa divergência pode refletir diferentes revisões da classificação ao longo dos anos; o fato prático é que os observadores concordam que M 56 não tem um núcleo tão marcante quanto o de M 13 ou M 15.
Como um cometa em baixa potência. Allison descreve que, em baixo aumento, M 56 pode ser confundido com um cometa: uma mancha redonda e difusa, sem o núcleo estelar afiado que caracteriza muitos outros globulares. Mollise concorda que o objeto só "fica interessante" com telescópios de 250 a 300 mm.
Descoberta. M 56 foi catalogado por Charles Messier, sendo o 56º objeto de sua lista.
Estruturas notáveis
- O disco nebuloso. Em telescópios pequenos e médios, M 56 aparece como uma mancha circular pouco concentrada, sem um núcleo brilhante marcante — a característica que rende as comparações com um cometa (Allison).
- A leve concentração central. Apesar da baixa concentração relativa a outros globulares, Bakich nota que a densidade de estrelas aumenta perceptivelmente rumo ao centro.
- A posição na Via Láctea. M 56 fica sobre um campo relativamente rico de estrelas da Via Láctea de verão, entre Lira e Cisne, o que contribui para o cenário mesmo quando o aglomerado em si não impressiona.
- A resolução em telescópios grandes. Bakich indica que, em 200 mm com mais de 150 aumentos, M 56 já começa a se resolver em estrelas individuais; Mollise recomenda 250 a 300 mm para um resultado realmente satisfatório.
Como localizar
M 56 fica no trajeto entre duas estrelas bem conhecidas do céu de verão do hemisfério norte: Albireo (Beta Cygni), a bela dupla colorida na cabeça do Cisne, e Sulafat (Gamma Lyrae), na base da pequena constelação da Lira. Bakich descreve o aglomerado como estando a cerca de 45% do caminho de Albireo a Gamma Lyrae; Mollise dá a distância exata a partir de Albireo, cerca de 3°48′ na direção de Gamma Lyrae. Trace uma linha imaginária entre as duas estrelas e M 56 fica pouco menos da metade do caminho, mais perto de Albireo.
Como a região é rica em estrelas de campo, use um buscador de campo largo ou um binóculo para localizar a posição antes de aumentar a ampliação.

Quando e como observar
M 56 é um alvo do céu de verão do hemisfério norte, onde passa perto do zênite em latitudes médias e fica visível a noite toda nos meses centrais do ano — a melhor época para observá-lo de lá, junto com o Triângulo de Verão (Vega, Deneb e Altair), é justamente quando essas três estrelas dominam o céu noturno.
Os gráficos abaixo usam a localização do observatório do site (Rio de Janeiro, por padrão, ou a posição aproximada de quem está lendo). O primeiro mostra a altura de M 56 ao longo do ano; o segundo, o caminho do objeto pelo céu nesta noite.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 19:20 · 32° NNW
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 41 / 100
- Posição no céu
- 30
- Brilho
- 63 mag 8,4
- Enquadramento
- 52 ocupa 13 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 31° | NNW 333° | 83° |
| 20:00 | 28° | NNW 327° | 82° |
| 20:30 | 24° | NW 321° | 82° |
| 21:00 | 19° | NW 316° | 82° |
| 21:30 | 14° | NW 312° | 82° |
| 22:00 | 9° | NW 308° | 82° |
| 22:30 | 3° | NW 305° | 82° |
| 23:00 | -3° | — | 82° |
| 23:30 | -9° | — | 81° |
| 00:00 | -15° | — | 81° |
| 00:30 | -21° | — | 81° |
| 01:00 | -27° | — | 81° |
| 01:30 | -34° | — | 81° |
| 02:00 | -40° | — | 81° |
| 02:30 | -47° | — | 80° |
| 03:00 | -53° | — | 80° |
| 03:30 | -60° | — | 80° |
| 04:00 | -66° | — | 80° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
E do Rio de Janeiro?
A declinação de M 56 é de cerca de +30°. Usando a fórmula da altura máxima para a latitude do observatório (90° − |latitude − declinação|), a altura máxima do objeto no Rio de Janeiro (latitude −23°) é de cerca de 37° acima do horizonte norte, no momento da culminação. Não é uma altura excelente — está longe do zênite —, mas também não é baixa demais: dá para observar M 56 com um telescópio, de preferência em uma noite sem obstruções na direção norte e longe do brilho urbano mais forte perto do horizonte. Vale escolher a época em que o objeto culmina mais tarde à noite, com a ajuda do gráfico anual acima, para observá-lo o mais alto possível.
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Invisível em qualquer condição de céu. |
| Binóculo (10×50) | Uma manchinha redonda e fraca, sem estrutura visível, sob céu escuro (Bakich). |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Um disco nebuloso pouco concentrado, sem resolução de estrelas individuais — fácil de confundir com um cometa em baixo aumento (Allison). |
| Telescópio de 200 a 300 mm | A partir de 150 aumentos, começa a se resolver em estrelas; Mollise considera que M 56 só "fica interessante" a partir de 250-300 mm. |
Expectativa honesta: M 56 não é um globular que impressiona à primeira vista, especialmente em instrumentos pequenos. Ele recompensa mais quem já observou outros globulares e quer notar o contraste — um objeto discreto, quase "camuflado" entre as estrelas da Via Láctea ao redor.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com cerca de 7′ de diâmetro, M 56 é um alvo de porte médio. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°), o aglomerado cabe confortavelmente com espaço de sobra para o campo estelar rico ao redor, que vale a pena incluir na composição.
Desafios do alvo
- Baixo brilho superficial. Por ser um globular relativamente fraco e pouco concentrado, M 56 exige mais tempo total de exposição do que globulares mais brilhantes para revelar bem o halo.
- Do Rio de Janeiro, altura baixa. Fotografar a cerca de 37° de altura no máximo significa mais atmosfera atravessada, mais turbulência e mais extinção do que um alvo perto do zênite; prefira capturar perto da culminação, indicada no gráfico da noite.
- Campo estelar denso. A Via Láctea de fundo pode competir visualmente com o aglomerado; um processamento cuidadoso ajuda a equilibrar o brilho de M 56 contra o campo.
Equipamento e filtros
Como em qualquer globular, não há gás para realçar com filtros de banda estreita: o objetivo é resolução e profundidade tonal entre as estrelas. Uma câmera colorida de um disparo funciona bem; câmeras monocromáticas com filtros LRGB entregam mais detalhe fino, especialmente se combinadas com boa focal.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light | 40 a 60 | 90 a 150 s | Resolver o halo e preservar o núcleo |
| Dark | 20 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 20 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 30 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, à sua focal e ao céu da noite. Do Rio de Janeiro, priorize sessões perto do horário de culminação, quando o objeto está mais alto.
Smart telescopes e campo de visão
M 56 cabe bem no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), que também captura o campo estelar rico da Via Láctea ao redor. Do hemisfério norte, é um bom alvo de verão para esse tipo de equipamento; do Rio de Janeiro, funciona melhor perto da culminação, quando o objeto está o mais alto possível sobre o horizonte norte. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
M 56 é um globular de segundo plano — nunca vai competir com M 13 ou M 22 em espetacularidade —, mas é um bom exercício de observação e um objeto de passagem obrigatória para quem já dominou os globulares mais fáceis e quer entender a variedade de aparências que esses aglomerados podem ter. Do Rio de Janeiro, é um alvo possível, mas que recompensa paciência e uma boa noite perto da culminação. Se você gostou deste guia, considere também o de M 57, a Nebulosa do Anel, outro objeto clássico da constelação de Lira.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 588 (M 56/NGC 6779).
- ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. New York: Springer, 2006. Globulares do norte: M 92, M 56 e M 71, p. 173-176 (conferir página impressa exata).
- MACHHOLZ, Don. The Observing Guide to the Messier Marathon: A Handbook and Atlas. New York: Springer, 2002. Tabela de localização de M 56/NGC 6779, p. 40, 157 (conferir página impressa).
- MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. New York: Springer, 2002. "Três globulares, três personalidades": M 15, M 2 e M 56, p. 173-176 (conferir página impressa exata).
- MOORE, Patrick (ed.). Philip's Astronomy Encyclopedia. London: Philip's, 2002. Tabela do catálogo Messier, verbete M 56.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de M 56, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.