setembro 21, 2026
M 4, o globular ao lado de Antares: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Poucos objetos do céu profundo são tão fáceis de achar quanto M 4. Basta olhar para Antares, a estrela vermelha e brilhante que marca o coração do Escorpião, e deslocar o olhar pouco mais de um grau para oeste. Ali está um aglomerado globular grande, frouxo e muito próximo, que os livros do Hemisfério Norte tratam como um alvo marginal e que, do Brasil, passa praticamente sobre a nossa cabeça. Este guia mostra como achar M 4, quando observar, o que ele revela em cada instrumento e como fotografá-lo, do céu urbano ao escuro.
Texto em revisão. Este é um guia no novo formato de objeto, que reúne dados, mapas, gráficos de altura e estratégia de captura em um só lugar. As fontes estão listadas no final e as divergências entre elas, nas pendências do cabeçalho.

Ficha técnica e designações
Visão geral: um dos globulares mais próximos
Um aglomerado globular é uma esfera de centenas de milhares de estrelas muito antigas, presas entre si por gravidade e em órbita ao redor da Galáxia, em um halo que a envolve. M 4 é um deles, e um dos poucos que se mostram bem mesmo em telescópios pequenos, justamente por ser próximo.
Distância e tamanho. A paralaxe do SIMBAD (0,556 milissegundo de arco) coloca M 4 a cerca de 5.900 anos-luz, o que o deixa mais perto de nós do que alguns aglomerados abertos (Tonkin, p. 224); livros mais antigos trazem 7.000 a 7.200 anos-luz (Tonkin; Kambič, p. 430). A distância de aglomerados globulares é medida com dificuldade, tanto pela poeira que avermelha as estrelas quanto pelo método. O diâmetro aparente no SIMBAD é de 26′, quase meia Lua cheia, o que a essa distância dá cerca de 45 anos-luz (calculado; Kambič, com 7.200 anos-luz, chega a 54). As partes externas são tão fracas que em binóculos ele parece bem menor: cerca de 15′ (Kambič).
Brilho. Magnitude 5,6 (Kambič), 5,8 (Bakich) ou 5,9 (Mollise): a diferença vem do critério de cada um. Kambič relata que observadores confiáveis conseguem ver M 4 a olho nu nos sítios do hemisfério sul, onde ele fica alto (p. 430).
Pouco concentrado. Na escala de Shapley-Sawyer, que vai da classe I (muito concentrada no centro) à XII (quase sem concentração), M 4 é classe IX (Bakich; Monks; Mollise). Isso significa que ele parece frouxo, com estrelas espalhadas e pouco brilho no centro, o oposto de M 80, o globular vizinho. Kambič compara os dois na mesma legenda: M 4 é "um dos menos densos que conhecemos", e seu centro pode ser resolvido inteiramente por grandes telescópios profissionais, enquanto as estrelas de M 80 estão tão próximas no centro que não se separariam nem se o aglomerado estivesse mais perto (p. 430).
Poeira no caminho. M 4 fica atrás de nuvens de poeira interestelar da região de Antares, que enfraquecem e avermelham sua luz. Tonkin observa que ele seria ainda mais espetacular sem essa poeira (p. 224).
História. Jean-Philippe Loys de Cheseaux o descobriu em 1746, e Messier, em 1764, foi o primeiro a resolvê-lo em estrelas individuais (Bakich, nº 424). Isso já mostra o caráter do objeto: é um dos poucos globulares em que uma luneta pequena mostra grãos de estrelas.
Estruturas notáveis
- A "barra" central. Uma fileira de estrelas mais brilhantes atravessa o miolo em direção norte-sul, dando a M 4 um aspecto que lembra um olho de gato; Monks e Mollise usam esse apelido (Bakich descreve uma corrente N-S no centro com telescópio de 6″).
- A aparência granulada. Em um telescópio de 12″ a 200x, aparecem centenas de estrelas de magnitude 11 a 15 (Bakich).
- Companheira: NGC 6144. A cerca de 57′ a noroeste de M 4 fica NGC 6144, globular pequeno e fraco, de magnitude cerca de 9 (Mollise, p. 151). Um bom desafio para telescópios de 150 mm ou mais.
- M 80, o contraste. A cerca de 4° de Antares, na direção norte-noroeste, fica M 80: mais compacto (classe II), de magnitude 7,2 ou 7,3 e com menos de 10′. Kambič diz que, em binóculos, ele parece uma estrela desfocada e que cabe no mesmo campo de M 4 (p. 430-431). Mollise lembra que em 1860 uma nova, T Scorpii, apareceu em M 80 e chegou à magnitude 7 (p. 147).
Como localizar
A receita é a mesma em todos os livros: coloque Antares na borda leste do campo e M 4 aparecerá no centro (Tonkin, p. 224). Ele está a cerca de 1,3° a oeste-sudoeste da estrela (Mollise, p. 151); Bakich sugere colocar Antares fora do campo, a sudeste, e centralizar o objeto a pouco mais de 1° a oés-sudoeste. Em um binóculo, os dois cabem juntos e você pode passar da luz vermelha de Antares à mancha suave do aglomerado sem sair do lugar.
Para achar Antares, olhe para o Escorpião, alto no céu do sul no inverno: a estrela vermelha marca o coração do "J". Veja o guia da constelação de Escorpião.

Quando e como observar
M 4 está em AR 16h24m e Dec −26,5°. Ela cruza o meridiano à meia-noite no fim de maio, e a melhor época vai de abril a agosto: em abril, aparece ao leste nas primeiras horas da manhã; em agosto, no início da noite, a oeste. No Rio de Janeiro (latitude −23°), o globular passa a cerca de 86° de altura, praticamente no zênite, ligeiramente ao sul. Isso é uma vantagem enorme sobre os observadores do Hemisfério Norte: Kambič lembra que, para eles, M 4 nunca passa de 18° de altura e sua aparência depende muito das condições do céu (p. 430); para nós, o ar que a luz atravessa é o mais curto possível.
O gráfico abaixo mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório, e o seguinte, a noite de hoje. Use o primeiro para escolher a época e o segundo, a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 30°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 19:20 · 30° WSW
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 100 mag 5,4
- Enquadramento
- 100 ocupa 63 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 28° | WSW 251° | 22° |
| 20:00 | 21° | WSW 249° | 22° |
| 20:30 | 15° | WSW 247° | 22° |
| 21:00 | 8° | WSW 245° | 22° |
| 21:30 | 2° | WSW 242° | 21° |
| 22:00 | -4° | — | 21° |
| 22:30 | -10° | — | 21° |
| 23:00 | -15° | — | 21° |
| 23:30 | -21° | — | 20° |
| 00:00 | -26° | — | 20° |
| 00:30 | -30° | — | 20° |
| 01:00 | -34° | — | 20° |
| 01:30 | -37° | — | 19° |
| 02:00 | -39° | — | 19° |
| 02:30 | -40° | — | 19° |
| 03:00 | -41° | — | 19° |
| 03:30 | -40° | — | 18° |
| 04:00 | -38° | — | 18° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
Orientação. Por estar praticamente sobre a cabeça, o aglomerado exige que o observador incline o pescoço; um binóculo com apoio ou uma cadeira reclinável ajudam. Ao olhar para o sul, o leste fica à esquerda.
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Difícil no céu urbano; em céu escuro, uma mancha muito tênue junto a Antares. Kambič cita relatos de que é visível a olho nu em sítios do Sul (p. 430). |
| Binóculo (10×50) | Uma mancha de luz de cerca de 15′ com um núcleo um pouco mais brilhante e sem estrelas individuais em 10×50 (Kambič); em 37×100, começa a mostrar detalhes (Tonkin, p. 224). |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Dezenas de estrelas e, no centro, a barra norte-sul; com 6″, uma corrente de estrelas atravessa o miolo (Bakich). Mollise adverte que, por ser frouxo, é "fácil de passar por cima" com um telescópio pequeno, e que convém deixar o campo largo (p. 151). |
| Telescópio de 200 mm ou mais | Com 12″ e 200x, centenas de estrelas de magnitudes 11 a 15 (Bakich). Por ser frouxo, o miolo se resolve bem melhor que o de globulares densos como M 80 (Kambič, p. 430). |
| Filtros | Não ajudam. Globulares emitem luz de estrelas, não de gás; um filtro de banda estreita só escurece o campo. |
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
M 4 mede cerca de 26′, o que cabe com folga em quase qualquer conjunto. Uma focal de 500 a 1.000 mm dá campo suficiente para incluir o aglomerado com um espaço em volta. Com um telescópio de 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°, calculado do sensor), ele ocupa metade do quadro e ainda sobra espaço para a companheira NGC 6144. Uma focal de 300 mm ou menos inclui também Antares e M 80, e a estrela vermelha domina a composição; em fotos profundas, a região ao redor de Antares mostra poeira colorida.
Desafios do alvo
- A vizinha Antares. A estrela é tão brilhante que gera reflexos e halos quando está no quadro. Se quiser incluí-la, use exposições curtas e HDR; se não quiser, deixe-a fora do campo.
- Núcleo frouxo e poeira. Como M 4 é pouco concentrado, o núcleo não estoura tão facilmente quanto o de M 80, mas a poeira interestelar deixa a cor avermelhada. Uma calibração de cor cuidadosa mostra a diferença entre as estrelas.
- Campo estelar rico. Na direção do bojo galáctico, o fundo é cheio de estrelas, o que dificulta separar as estrelas do aglomerado das de campo.
- Guiagem e foco. Estrelas mais finas dão melhor resolução no miolo. Kier recomenda campo de 20′ e menos de 1″ por pixel para resolver o núcleo de globulares (p. 150) e reduzir a exposição para não queimar o centro (p. 159), o que vale aqui.
Equipamento e filtros
Globulares são luz de estrelas: nenhum filtro de banda estreita ajuda, e um filtro de poluição só ajuda um pouco em céu urbano. Uma câmera colorida com bloqueio de infravermelho serve bem. Em câmera monocromática, o LRGB com luminância sintética evita ruído de cor (Kier, p. 150). Alinhamento preciso dos canais e cuidado com a deconvolução, que pode gerar padrões estranhos no núcleo, são as recomendações centrais do autor para globulares (Kier, p. 159).
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light curto | 40 | 20 a 45 s | Preservar as estrelas do miolo e as brilhantes |
| Light longo | 60 | 90 a 120 s | Estrelas fracas do halo e o fundo |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.
Smart telescopes e campo de visão
M 4 é um alvo muito bom para smart telescopes: alto, brilhante e grande o bastante para preencher o campo de um Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), que o mostra inteiro, com estrelas resolvidas no halo. Antares tende a aparecer na borda do quadro com um halo, então vale girar o campo. Como o objeto é feito de estrelas, o filtro de banda estreita não acrescenta nada; use o modo comum ou o filtro anti-poluição. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
M 4 é o globular dos que começam: fácil de achar, próximo, frouxo e resolúvel. Para o observador brasileiro, é ainda um objeto de inverno quase no zênite, longe de qualquer problema de horizonte. O próximo passo natural é comparar M 4 com o denso M 80, ao lado, e depois seguir pela Via Láctea até o "bule" de Sagitário e M 22, o globular mais brilhante da região; ou percorrer a cauda do Escorpião até M 7.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 424 (M 4).
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Escorpião, M 4 e M 80, p. 430-431.
- KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. Considerações sobre globulares (M 3, M 5, M 13), p. 150, 159.
- MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer, 2006. M 80 e M 4, p. 146-151 (nova em M 80, p. 147).
- MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. New York: Springer, 2010. Globulares M 4 e M 80, p. 116-117.
- TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. M 4, p. 224.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tamanho e paralaxe de M 4, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.