setembro 22, 2026

Lebre, a Lebre de Órion: guia da constelação da Estrela Carmim e do globular M 79

Carta estelar da Lebre como aparece do Brasil, olhando para o norte: Arneb e Nihal no centro, com o globular M 79 marcado em verde acima delas

Debaixo dos pés de Órion, sem nenhuma estrela de primeira grandeza para chamar atenção, mora uma lebre — perseguida havia milênios pelo Cão Maior, seu vizinho mais brilhante. A Lebre não tem forma fácil de reconhecer nem mitologia riquíssima, mas guarda dois alvos que valem a visita: uma das estrelas mais vermelhas do céu e um dos aglomerados globulares mais ao sul do catálogo de Messier. Neste guia você vai aprender a achar a Lebre no céu do Brasil e conhecer Arneb, Nihal, a variável R Leporis e o globular M 79.

Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.

A lebre que Órion caçava

A Lebre (Lepus, abreviatura Lep) é uma constelação austral de tamanho médio, com cerca de 290 graus quadrados — a 51ª maior das 88, um pouco menos de 0,7% do céu (Bakich, objeto nº 920). Fica encaixada entre a Pomba e o Buril ao sul, o Cão Maior a leste, Órion ao norte e o Eridano a oeste (Mourão, verbete Lepus, p. 460). Não tem estrelas de primeira magnitude nem um desenho chamativo, mas é fácil de localizar por estar logo abaixo de Órion, ao sul de Rigel e Saiph (Mourão).

A lenda é simples: Órion, o caçador, gostava especialmente de caçar lebres, e por isso os antigos colocaram uma delas no céu bem junto dele — debaixo de seus pés, do ponto de vista de quem observa do hemisfério norte; do Brasil, onde vemos o céu "de cabeça para baixo" em relação à Europa, a Lebre fica acima de Órion (Moore, Observer's Year, p. 23). Ridpath reforça a mesma ideia, associando a origem do nome à lenda de uma praga de lebres na ilha de Léros, na Grécia.

Quando e como achar

Melhor época. A Lebre culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21 horas locais em meados de janeiro. Bakich cita 14 de dezembro como a data em que a constelação fica oposta ao Sol e cruza o meridiano à meia-noite — cerca de um mês antes da culminação às 21h (objeto nº 920). Na prática, a boa temporada para observá-la vai de novembro a fevereiro.

Para onde olhar. No Rio de Janeiro, Arneb passa a cerca de 85° de altura, quase no zênite. A carta abaixo mostra o céu olhando para o norte, com o sul para cima e o leste para a direita.

Cidade Arneb M 79
Boa Vista (RR) 69° 63°
Manaus (AM) 75° 69°
Recife (PE) 80° 74°
Brasília (DF) 88° 81°
Rio de Janeiro (RJ) 85° 88°
São Paulo (SP) 84° 89°
Porto Alegre (RS) 78° 84°

Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós com as declinações do catálogo do site e a latitude de cada cidade; valores arredondados. A Lebre passa muito alta em todo o Brasil, quase no zênite em Brasília, São Paulo e Rio.

Carta estelar da Lebre como aparece do Brasil, olhando para o norte: Arneb e Nihal no centro, com o globular M 79 marcado em verde acima delas
Carta estelar da Lebre como ela aparece do Brasil ao olhar para o norte: o norte fica embaixo e o leste à direita. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial. O contorno tracejado dourado é o limite oficial da constelação. Em verde-claro, o objeto de céu profundo citado neste artigo. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo.

  1. Localize Órion e desça pelos seus pés (Rigel e Saiph); a Lebre fica logo abaixo — ou, do Brasil olhando para o norte, logo "acima" de Órion na carta.
  2. Arneb é a estrela mais brilhante da região, de cor branco-amarelada; Nihal fica pouco abaixo dela.
  3. Para achar M 79, trace uma linha de Arneb passando por Nihal e estenda-a por mais cerca de 3,5° — quase a mesma distância que separa as duas estrelas (Bakich, objeto nº 945).

As estrelas da Lebre

Estrela Posição Brilho visual (mag.) Tipo espectral Distância aproximada
Arneb (alfa) a mais brilhante 2,58 F0 Ib (supergigante) cerca de 945 anos-luz
Nihal (beta) ao lado de Arneb 2,81 G2 II (gigante) cerca de 316 anos-luz
Epsilon oeste da figura 3,19 K5 III (gigante alaranjada) cerca de 160 anos-luz
Mu oeste 3,29 B9 IV —
Zeta leste 3,55 A3 V cerca de 78 anos-luz
Gama sul 3,59 F6 V cerca de 26 anos-luz
Eta leste 3,71 F0 V cerca de 65 anos-luz
Delta sul 3,76 G8 III (gigante) cerca de 145 anos-luz

Brilhos e tipos espectrais do catálogo HYG usado no gerador de cartas do site; distâncias da tabela de Patrick Moore (Observer's Year, p. 24) — uma fonte mais antiga, a conferir com o SIMBAD.

Arneb, "lebre" em árabe, é uma supergigante branco-amarelada, a estrela que dá nome à constelação (Ridpath). Nihal é uma gigante amarela, um pouco mais fraca. Um bom teste com binóculo: Épsilon tem uma cor claramente alaranjada, fácil de notar mesmo em instrumentos pequenos (Moore, Observer's Year, p. 23). Com um telescópio, vale visitar Gama, uma dupla fácil, com uma companheira de sexta magnitude a mais de 96 segundos de arco de separação (Moore, p. 23).

R Leporis, a Estrela Carmim de Hind

A atração mais famosa da Lebre não é uma das suas estrelas nomeadas, mas uma variável muito mais fraca: R Leporis, batizada de Estrela Carmim de Hind em homenagem ao astrônomo britânico John Russell Hind, que a descobriu em 1845 (Bakich, objeto nº 924). É uma das estrelas mais vermelhas do céu — tão vermelha que desfocar levemente a imagem no telescópio ajuda a espalhar a cor e torná-la mais evidente (Bakich). Fica cerca de 3,5° a oés-noroeste de Mu da Lebre. É uma variável do tipo Mira, com período de 432 dias; a faixa de magnitude varia conforme a fonte, entre 5,5 e 11,7 (Bakich) ou entre 5,9 e 10,5 (Moore, Observer's Year, p. 24) — em qualquer caso, está sempre ao alcance de um telescópio de 8 cm ou maior no mínimo de brilho, e por vezes visível a olho nu no máximo. Moore acrescenta que ela fica a mais de 100 anos-luz e é pelo menos 500 vezes mais luminosa que o Sol (p. 24).

M 79, o globular mais ao sul de Messier no céu de verão

O aglomerado globular M 79 é o objeto de céu profundo mais conhecido da constelação, e um dos globulares mais antigos da Via Láctea (Bakich, objeto nº 945). Tem magnitude 7,8 e cerca de 8,7 minutos de arco de diâmetro. As distâncias divergem: Bakich cita 40.000 anos-luz da Terra e 60.000 do centro galáctico; Moore cita cerca de 43.000 anos-luz e credita a descoberta ao astrônomo francês Pierre Méchain, em 1780 (Observer's Year, p. 24). Apesar do brilho relativamente alto, é um objeto difícil de resolver em estrelas com telescópios pequenos: um instrumento de 25 cm mostra um núcleo brilhante e concentrado, quase sem estrelas separadas, mas ampliações acima de 200x já revelam dezenas de estrelas de magnitude 13 nas bordas (Bakich). É o objeto Messier mais ao sul do céu de verão do hemisfério norte — ou, do ponto de vista brasileiro, um dos globulares mais bem posicionados da estação, quase no zênite em boa parte do país.

Mourão registra ainda NGC 2017, um agrupamento casual de estrelas sem relação física entre si, no mesmo campo de M 79 — mais uma curiosidade do que um alvo (Ridpath, apud ideias de referência do projeto).

Mitologia e história

Diferente de constelações como o Escorpião ou o Touro, a Lebre não carrega um mito de origem elaborado nos livros consultados: é, essencialmente, a companhia natural de Órion no céu, colocada ali porque ele gostava de caçá-la (Moore, Observer's Year, p. 23). Ridpath acrescenta uma lenda secundária, ligada a uma invasão de lebres na ilha grega de Léros — um símbolo da fertilidade e da velocidade do animal, e não coincidentemente também associado a Hermes/Mercúrio, deus mensageiro e "ladrão" da mitologia grega, segundo Mourão (verbete Lepus, p. 460).

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu Arneb e Nihal, a olho nu; M 79 fora de alcance, mas o Cão Maior brilhando logo ao lado ajuda a localizar a região.
Binóculo (10×50) Épsilon com sua cor alaranjada nítida, e uma primeira tentativa de R Leporis perto do seu máximo de brilho.
Telescópio pequeno (70 a 100 mm) A dupla fácil de Gama, R Leporis com sua cor vermelho-intensa (desfoque levemente a imagem para realçar a cor), e M 79 como uma mancha concentrada.
Telescópio de 200 mm ou mais M 79 começando a se resolver em estrelas nas bordas, com ampliação acima de 200x.

Dicas de campo:

  • Escolha uma noite sem Lua entre novembro e fevereiro; a Lebre está bem posicionada, alta no céu, em todo o Brasil.
  • Use Órion como ponto de partida: a Lebre fica bem abaixo de Rigel e Saiph (na carta, "acima", porque olhamos para o norte).
  • Para R Leporis, comece por Mu da Lebre e ande cerca de 3,5° para oés-noroeste; desfoque um pouco a imagem para ver melhor a cor.
  • Para M 79, prolongue a linha de Arneb a Nihal por mais 3,5°, na mesma direção.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die. New York: Springer, 2010. Objeto nº 920 (Lebre), nº 924 (R Leporis) e nº 945 (M 79).
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Noite de 18 de janeiro (Lebre, Arneb, R Leporis e M 79, p. 23-24).
  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Lepus" (p. 460).
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Lebre, Arneb, R Leporis e M 79, p. 209.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos e magnitudes, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.