setembro 21, 2026

M79, o globular de Lebre: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M79 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Lebre é uma constelação pequena e discreta, encolhida aos pés de Órion, sem nenhuma estrela de primeira grandeza e quase nenhum objeto de céu profundo ao alcance de um telescópio amador — com uma exceção notável. M79 é o único aglomerado globular de peso nessa região do céu, e também um dos objetos mais curiosos do catálogo Messier: um globular que orbita a Via Láctea de um jeito atípico, tão distante do plano galáctico que alguns astrônomos suspeitam que ele não nasceu na nossa Galáxia. Para quem observa do Rio de Janeiro, M79 guarda ainda um bônus raro: por pura coincidência de latitude, ele passa quase exatamente sobre a nossa cabeça. Este guia explica por que M79 é especial, como encontrá-lo, quando ele está mais alto e como abordar a fotografia desse pequeno mas denso globular.

Texto em revisão. Este é um dos guias do novo formato de artigo de objeto. Ele reúne dados, mapas, gráficos de altura e estratégia de observação e de captura em um só lugar. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de M79 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: um globular fora do padrão

Aglomerados globulares costumam se concentrar na direção do centro da Via Láctea, orbitando o núcleo galáctico em trajetórias relativamente próximas do plano da Galáxia — é por isso que a maioria dos globulares mais fáceis de observar fica em direção a Sagitário e Escorpião. M79 quebra esse padrão: fica bem longe dessa região, em Lebre, e sua órbita o leva a cerca de 60.000 anos-luz do centro galáctico, bem além do plano onde a maioria dos globulares circula (Monks).

M79 em números. O SIMBAD lista uma paralaxe de 0,088 ± 0,011 milissegundos de arco (qualidade C) para M79, o que corresponde a cerca de 37.000 anos-luz — o valor que este guia adota. Os livros trazem números próximos e ligeiramente mais altos: 39.800 anos-luz segundo a tabela de objetos Messier do Data Book of Astronomy, e cerca de 42.000 segundo Monks, que também estima um diâmetro linear de aproximadamente 118 anos-luz para o aglomerado. A proximidade entre os valores, dentro da margem de incerteza esperada para uma paralaxe de qualidade C, é um bom sinal de consistência.

Uma hipótese intrigante: um globular "importado". Segundo Monks, a origem de M79 é incerta, e uma das explicações propostas é que ele pertenceria originalmente à galáxia anã de Cão Maior (Canis Major Dwarf Galaxy), uma pequena galáxia satélite que está sendo lentamente despedaçada e absorvida pela gravidade da Via Láctea. À medida que essa interação avança, fragmentos da galáxia anã — possivelmente incluindo M79 — teriam sido incorporados à nossa Galáxia. Monks é claro ao dizer que essa explicação não é universalmente aceita entre os astrônomos, mas destaca que ela pelo menos oferece uma razão plausível para a órbita atípica do aglomerado.

Um globular de inverno (boreal). Monks também nota algo raro: a maioria dos globulares é melhor observada no verão do hemisfério norte, quando o centro da Galáxia está bem posicionado no céu noturno. M79 é uma exceção — fica bem colocado justamente no inverno boreal (nosso verão austral), o que o torna um dos poucos alvos desse tipo disponíveis nessa época do ano para quem observa do hemisfério norte. Para o Rio de Janeiro, isso significa uma boa janela de observação em torno de dezembro e janeiro.

Uma constelação quase vazia. Lebre não tem estrelas de primeira grandeza, e a maior parte do seu território não guarda objetos de céu profundo facilmente acessíveis a telescópios amadores. Isso faz de M79 um raro "farol" nessa região do céu: para quem está caçando objetos Messier, ele costuma ser o único alvo de peso a marcar nessa constelação inteira, o que aumenta seu valor simbólico dentro de um projeto de observação completo do catálogo.

Estruturas notáveis

  • O núcleo denso e largo. Bakich descreve, em telescópios de 250 mm, um núcleo amplo com relativamente poucas estrelas resolvidas — a maior parte da luz vem de uma região compacta e brilhante.
  • As bordas resolvíveis. Acima de 200 vezes de ampliação, dezenas de estrelas de magnitude até 13 aparecem nas bordas do aglomerado (Bakich).
  • Um dos globulares Messier mais austrais do inverno boreal. Monks lembra que M79 é praticamente o único representante do seu tipo disponível nessa época para observadores do hemisfério norte — um "queridinho" de nicho entre quem caça globulares fora da estação usual.

Como localizar

Use Alfa e Beta Leporis, as duas estrelas mais brilhantes da constelação, como apontadores: prolongue a linha entre elas por cerca de 3,5° — um pouco mais que a distância entre as duas estrelas — na mesma direção, e você chega a M79 (Bakich).

Carta de localização de M79: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de cerca de −24,5°, M79 fica praticamente na mesma latitude celeste do Rio de Janeiro (−23°) — uma coincidência rara e muito favorável. A altura máxima no meridiano é de 90° − |−23° − (−24,5°)| = 90° − 1,5° ≈ 88,5°, ou seja, o aglomerado passa a apenas um grau e meio do zênite. É a condição mais favorável possível para observação e astrofotografia: a luz atravessa o mínimo de atmosfera, com extinção e turbulência bem menores do que em objetos mais baixos no céu. A ascensão reta de cerca de 5h24m coloca a melhor época em torno de dezembro a janeiro, no verão austral, quando M79 culmina em horário conveniente à noite.

Altura de M79 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de outubro a fevereiro. O objeto chega a 88° à meia-noite em dezembro.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ12 dez · 88°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de outubro a fevereiro (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 88° em 12 de dezembro.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
03:50 · 88° S
Horas acima de 45°
3,5 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
79 / 100
Posição no céu
88
Brilho
67 mag 8,2
Enquadramento
64 ocupa 16 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M79 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 21:10 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 03:50, com 88°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO22:0023:0000:0001:0002:0003:0004:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -19° — 120°
20:00 -13° — 121°
20:30 -8° — 121°
21:00 -2° — 121°
21:30 5° ESE 115° 121°
22:00 11° ESE 112° 121°
22:30 18° ESE 110° 121°
23:00 24° ESE 108° 121°
23:30 31° ESE 106° 121°
00:00 37° ESE 104° 121°
00:30 44° ESE 103° 121°
01:00 51° E 101° 122°
01:30 58° E 100° 122°
02:00 65° E 99° 122°
02:30 71° E 99° 122°
03:00 78° E 100° 122°
03:30 85° ESE 110° 122°
04:00 87° SW 233° 122°
Altura de M79 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 03:50, com 88°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte03:50 · 88°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Invisível, com magnitude em torno de 8.
Binóculo (10×50) Um ponto fraco, mas perceptível sob céu escuro; Monks nota que dá para detectá-lo mesmo com binóculo em céu bem escuro, graças à sua magnitude relativamente favorável entre os globulares menos vistosos.
Telescópio de 150 a 200 mm Um núcleo largo e denso, ainda pouco resolvido; comece a notar granulação nas bordas em boas condições.
Telescópio de 250 mm ou mais, acima de 200x Dezenas de estrelas resolvidas nas bordas, até magnitude 13, com o núcleo continuando compacto e pouco resolvido mesmo em boa abertura (Bakich).

Expectativa honesta: M79 não é tão espetacular quanto os grandes globulares de Sagitário, mas ganha muito por estar quase no zênite do Rio: a imagem fica mais nítida e contrastada do que a de qualquer objeto mais baixo no horizonte, e vale a visita só por essa vantagem observacional rara.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com cerca de 7 a 9′ de diâmetro aparente, M79 é um alvo pequeno a moderado. Um campo de 20′ a 30′ enquadra o aglomerado com folga e ainda deixa espaço para as estrelas de fundo; com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo de cerca de 1,1° × 0,75° é mais do que suficiente.

Desafios do alvo

  • Núcleo compacto contra bordas fracas. Como em qualquer globular, equilibrar a exposição para não saturar o centro e ainda captar as estrelas fracas da periferia é o principal desafio técnico.
  • Tamanho pequeno. Pede uma focal razoavelmente longa para não perder o aglomerado como um pontinho no meio do quadro.
  • A vantagem do zênite. Ao contrário da maioria dos alvos deste porte, M79 está quase sempre bem posicionado no céu do Rio quando visível à noite — aproveite para fotografá-lo o mais perto possível do meridiano, quando a imagem sofre menos com refração e turbulência atmosférica.

Equipamento e filtros

Como se trata de um alvo estelar, filtros de banda estreita não têm papel aqui — o ganho vem de boa resolução (seeing e foco) e tempo total de exposição suficiente para separar estrelas próximas na periferia. Uma câmera colorida de um disparo funciona bem; em câmera monocromática, o canal de luminância é o mais importante para revelar estrelas fracas nas bordas. Aproveite a altura extrema de M79 no Rio de Janeiro: capturar as luminâncias e os canais coloridos com o aglomerado próximo do meridiano reduz a refração atmosférica diferencial, o que ajuda a manter estrelas pontuais bem definidas mesmo nas bordas do campo, onde a coma e outras aberrações ópticas costumam aparecer primeiro.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 40 a 60 60 a 120 s Núcleo e periferia do aglomerado
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

M79 cabe com folga no campo de qualquer smart telescope, e por estar quase no zênite do Rio, é um dos melhores alvos desse porte para esses aparelhos por aqui: menos atmosfera atravessada significa imagens mais nítidas com o mesmo tempo de empilhamento. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M79 prova que até uma constelação pequena e modesta como Lebre pode guardar um objeto digno de nota — e, para quem observa do Rio de Janeiro, guarda ainda uma coincidência de latitude rara, que coloca esse globular quase no ponto mais alto do céu. Some isso à possível origem extragaláctica do aglomerado, e M79 se torna um alvo tanto de boa imagem quanto de boa história para contar entre uma exposição e outra.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer. Objeto nº 945 (M79/NGC 1904).
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. NGC 1904 (M79), p. 44-45.
  • MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Tabela do catálogo Messier, p. 342.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de M79, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.