setembro 21, 2026

IC 2177, a Nebulosa da Gaivota: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de IC 2177 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Poucas nebulosas têm um nome tão bem-escolhido quanto a Gaivota: nas fotos de campo largo, o complexo IC 2177, em Monoceros, abre as asas em um arco enorme de nuvens, com uma pequena "cabeça" separada logo ao sul. Só que o nome é maior que o objeto para quem observa com os olhos: a Gaivota é um alvo de campo amplo, baixo brilho de superfície e, na cidade, quase nada. O lado bom, para nós, é a posição: ela cruza o meridiano a 77° de altura, perto do zênite do Rio de Janeiro. Vale a pena conhecê-la, mesmo que seja pela fotografia.

Texto em revisão. Este guia segue o novo formato de objeto. As fontes são poucas e estão listadas no final; as dúvidas, nas pendências do cabeçalho.

Imagem de referência (DSS2) de IC 2177 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Ficha técnica e designações
Designação principalIC 2177
Outras designaçõesIC IC 2177 RCW RCW 2 LBN / LDN LBN 1027
Tipo de objetoNebulosa de reflexão
ConstelaçãoMonoceros
Coordenadas (J2000)RA 07h 04m 37s | Dec −10° 28′ 16″
Distância da Terra—
Magnitude aparente—
Tamanho aparente20′
Melhor época (BR)Janeiro, Fevereiro, Março

Visão geral: um complexo de nebulosas e aglomerados

A Gaivota não é uma nebulosa só: é um grande complexo em que se misturam aglomerados abertos, nuvens de poeira, nebulosas de emissão e nebulosas de reflexão (Monks). O SIMBAD classifica a IC 2177 como nebulosa de reflexão; Bakich e Monks, mais gerais, a descrevem como uma região de nebulosidades de tipos diferentes. O nome "Gaivota" vale para o conjunto todo, mas, na prática, os amadores aplicam o nome à parte mais brilhante e mais ao sul, catalogada como IC 2177 (Monks).

Números. Bakich dá 120′ × 40′ para a nebulosa, ou seja, cerca de 2° de comprimento, quatro vezes o diâmetro da Lua cheia. Os livros não trazem a distância do complexo; para o aglomerado NGC 2343, no extremo nordeste, Monks diz 4.300 anos-luz e Kambič, 3.400, o que mostra a incerteza. O SIMBAD não traz paralaxe para a IC 2177.

Nome e partes. A "cabeça" da ave é uma parte separada, ao sul, catalogada como NGC 2327, de 19′ × 17′ (Bakich; o SIMBAD também a classifica como nebulosa de reflexão). Uma estrela de magnitude 8 e um canal escuro no centro sugerem o bico e a boca (Bakich).

Estruturas notáveis

  • A "cabeça", NGC 2327. A parte mais compacta e a que mais lembra a ave (Bakich).
  • O corpo e as asas. O arco de nebulosidade que se estende por 2° (Bakich).
  • Ced 90. Uma nebulosa de reflexão de cerca de 3′ ao sul, que brilha com a luz de uma estrela de magnitude 8; Bakich adverte para não usar filtro de nebulosa nela, porque a luz é refletida, e não emitida por gás.
  • NGC 2335 e NGC 2343. Aglomerados abertos dentro do complexo. NGC 2335 tem magnitude 7,2 e cerca de 7′; 100 mm mostra 24 estrelas e 300 mm, cerca de 50 (Bakich). NGC 2343, de magnitude 6,7 e cerca de 6′, fica no extremo nordeste e pode ser vista com binóculo, com alguma chance a olho nu em céu muito escuro (Bakich); Monks a descreve como um grupo de estrelas azuladas com uma laranja ao lado, fácil de ignorar entre as estrelas de fundo, e Kambič conta cerca de 60 estrelas, das quais só uns 15 se veem em noite perfeita.

Como localizar

O ponto de partida é a estrela Theta do Cão Maior: Bakich indica os aglomerados NGC 2335 e NGC 2343 a 3,7° a leste-nordeste dela, e Kambič usa a mesma estrela como guia para NGC 2343 e M 50. Comece por esses aglomerados e desloque-se para o sul para chegar à cabeça, NGC 2327. Como o norte fica embaixo para nós, a cabeça da gaivota, ao sul, aparece acima dos aglomerados. Use um campo largo, uma carta detalhada e um bom céu; a nebulosa tem 2° de extensão, e uma varredura lenta é o método (Bakich).

Carta de localização de IC 2177: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de cerca de −10,5°, a Gaivota culmina a cerca de 77° de altura no Rio de Janeiro (90° menos 12,5°), quase no zênite, ao norte. Monks a considera essencialmente um alvo do hemisfério sul, e para nós ela é um dos alvos mais bem posicionados do verão. A melhor época vai de janeiro a março, com a culminação à meia-noite por volta do fim de janeiro.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho dele pelo céu nesta noite, seguido da altura hora a hora.

Altura de IC 2177 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de novembro a março. O objeto chega a 78° à meia-noite em janeiro.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ6 jan · 78°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de novembro a março (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 78° em 6 de janeiro.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
04:00 · 65° ENE
Horas acima de 45°
1,7 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
66 / 100
Posição no céu
61
Brilho
50 (sem magnitude cadastrada)
Enquadramento
100 ocupa 44 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de IC 2177 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 23:20 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 04:00, com 65°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO00:0001:0002:0003:0004:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -46° — 109°
20:00 -41° — 110°
20:30 -35° — 110°
21:00 -29° — 110°
21:30 -23° — 110°
22:00 -17° — 110°
22:30 -10° — 111°
23:00 -3° — 111°
23:30 4° E 100° 111°
00:00 11° E 97° 111°
00:30 17° E 94° 111°
01:00 24° E 92° 112°
01:30 31° E 89° 112°
02:00 38° E 85° 112°
02:30 45° E 82° 112°
03:00 52° ENE 78° 112°
03:30 59° ENE 72° 113°
04:00 65° ENE 64° 113°
Altura de IC 2177 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com 65°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · 65°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Talvez o aglomerado NGC 2343, em céu muito escuro (Bakich). A nebulosa, não.
Binóculo (7×50 a 10×50) Os aglomerados NGC 2343 e NGC 2335, pequenos e discretos (Bakich; Kambič). A nebulosa é imperceptível em Bortle 7.
Telescópio de 100 a 150 mm Os aglomerados com 15 a 25 estrelas resolvidas (Bakich); a nebulosa, só em céu excelente.
Telescópio de 200 a 350 mm Bakich recomenda 200 mm, sem motor, varrendo devagar em baixo aumento; com 300 mm a borda leste aparece complexa. Monks diz que é preciso abertura grande e céu relativamente escuro; filtros de poluição luminosa ajudam pouco, e só os de banda estreita e H-beta dão algum ganho.

Expectativa honesta: a Gaivota é fraca até com abertura grande e bom céu, e em Bortle 7 ela não passa de uma sugestão. Vale como exercício de varredura e como passeio pelos aglomerados; a ave só aparece na fotografia.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

O complexo tem 2° de extensão: uma câmera com lente de 85 a 135 mm ou um refrator curto é o instrumento certo. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado a partir do sensor e da focal): só uma parte da ave cabe, o que serve para a cabeça, NGC 2327, e para um mosaico de dois ou três quadros.

Desafios do alvo

  • Brilho baixo e extensão grande. O sinal é fraco e espalhado; em Bortle 7, um filtro dual-band (H-alfa e OIII) é indispensável para a parte de emissão.
  • Reflexão e emissão juntas. As partes de reflexão (como a Ced 90) ficam esmaecidas com o filtro dual-band, que corta o azul; por isso, vale combinar quadros com filtro e sem filtro, ou usar RGB.
  • Campo estelar rico. A região está sobre a Via Láctea, o que dificulta a separação da nebulosidade.

Equipamento e filtros

Uma lente ou refrator curto, câmera colorida com filtro dual-band ou de poluição luminosa, ou câmera monocromática com H-alfa e OIII em banda estreita. Monks recomenda banda estreita e H-beta para a observação; para a fotografia, as mesmas ideias valem para o H-alfa e o OIII.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (dual-band ou RGB) 60 a 90 180 s Nebulosidade fraca e extensa; o tempo total é o que mais conta
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros.

Smart telescopes e campo de visão

O campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) enquadra bem a "cabeça" da gaivota, NGC 2327, e uma parte do corpo; para a ave inteira, seria preciso um mosaico. O brilho baixo pede muitas horas de empilhamento com o filtro dual-band do aparelho. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

A Gaivota é um alvo mais fotográfico do que visual, mas vale a visita: os aglomerados NGC 2335 e NGC 2343 são um bom passeio de binóculo, e a nebulosa é uma boa razão para investir em uma lente de campo largo. Se você quer treinar com uma vizinha mais fácil, comece pela Roseta e pelo guia da constelação de Órion para achar o caminho até o Cão Maior.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objetos nº 18 (NGC 2335), nº 20 (NGC 2343) e nº 23 (IC 2177).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Monoceros, NGC 2343, p. 348.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. NGC 2343 (Seagull Nebula), p. 48.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas e tipo de IC 2177 e NGC 2327, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.