setembro 22, 2026

Hércules, o herói ajoelhado: guia da constelação do Grande Aglomerado M 13

Carta estelar de Hércules como aparece do Brasil olhando para o norte: Rasalgethi na base, Kornephoros e Marsic no meio, o Trapézio (Zeta, Eta, Pi e Sarin) e os dois globulares M 13 e M 92 marcados em verde

Hércules não tem uma única estrela que salte aos olhos, mas ninguém que aprenda a reconhecer o "Trapézio" no meio da constelação esquece mais o desenho: quatro estrelas moderadas formando um quadrilátero torto, com o corpo do herói se espalhando em braços e pernas ao redor. É a quinta maior constelação do céu, e guarda M 13, o aglomerado globular mais bonito de todo o hemisfério norte — um dos alvos clássicos de qualquer temporada de inverno no Brasil. Neste guia você vai aprender a achar Hércules mesmo sem uma estrela guia óbvia, conhecer Rasalgethi (a "cabeça do ajoelhado", uma supergigante vermelha variável) e visitar os dois globulares da constelação, M 13 e M 92.

Um herói grande, mas discreto

Hércules (Hercules, abreviatura Her) ocupa mais de 1.200 graus quadrados do céu (Moore, Observer's Year, p. 199), o que o torna a quinta maior das 88 constelações — maior que o Escorpião inteiro, por exemplo. Fica entre a Coroa Boreal e a Lira, com a Serpente ao norte e Ofiúco ao sul. Apesar do tamanho, é uma figura discreta: a estrela mais brilhante, Kornephoros (Beta), tem só magnitude 2,8 (Kambič, p. 305), e não há nenhum ponto de luz que chame a atenção à primeira vista, como Antares no Escorpião ou Sirius no Cão Maior.

O que salva a constelação, para quem observa, é o Trapézio (ou Keystone, "pedra angular" em inglês): as quatro estrelas Zeta, Eta, Épsilon e Pi Herculis formam um quadrilátero moderadamente distorcido, fácil de reconhecer em céu razoavelmente escuro (Kambič, p. 306). É esse desenho que serve de ponto de partida para achar tudo o mais na constelação, inclusive M 13.

Na mitologia, Hércules (Héracles, para os gregos) é o mais famoso dos heróis, filho de Zeus e de uma mortal, condenado por Juno (Hera) a cumprir doze trabalhos impossíveis como penitência. Vieira liga várias outras constelações ao ciclo de Hércules: o Caranguejo (Câncer) foi enviado por Juno para atrapalhá-lo na luta contra a Hidra de Lerna; o Leão é a fera que ele estrangulou em um dos trabalhos; e a Coroa Austral talvez represente o cinturão que ele tomou da rainha das Amazonas, Hipólita (Vieira, p. 23-27). No céu, a figura de Hércules é tradicionalmente desenhada de ponta-cabeça em relação ao horizonte europeu, ajoelhado com um pé sobre a cabeça do Dragão, a constelação vizinha (Ridpath, p. 162).

Quando e como achar

Melhor época. Hércules está centrado perto de 17h20min de ascensão reta, então culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21h locais em meados de junho. A boa temporada de observação vai de abril a setembro: em abril e maio ele nasce ainda de madrugada, em junho, julho e agosto domina o começo da noite, e em setembro já se inclina para o poente.

Para onde olhar. Hércules fica ao norte do equador celeste, e do Brasil ele culmina voltado para o norte — olhando para o horizonte norte, com o zênite (o ponto mais alto do céu) um pouco atrás de você. Toda a constelação é visível de todo o Brasil, mas fica mais alta quanto mais ao norte você estiver.

Cidade Rasalgethi (cabeça) M 13 (o globular)
Boa Vista (RR) 73° 51°
Manaus (AM) 73° 50°
Recife (PE) 68° 45°
Brasília (DF) 60° 38°
Rio de Janeiro (RJ) 53° 31°
São Paulo (SP) 52° 30°
Porto Alegre (RS) 46° 24°

Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós com as declinações do catálogo do projeto e a latitude de cada cidade; valores arredondados. Hércules é visível — e bem alto — em todo o Brasil, embora mais baixo no Sul, e a "cabeça" do herói (Rasalgethi, mais ao sul da figura) sobe mais alto do que M 13 e o resto do corpo.

Carta estelar de Hércules como aparece do Brasil olhando para o norte: Rasalgethi na base, Kornephoros e Marsic no meio, o Trapézio (Zeta, Eta, Pi e Sarin) e os dois globulares M 13 e M 92 marcados em verde
Carta estelar de Hércules como aparece do Brasil ao olhar para o norte: o norte fica embaixo e o leste à direita. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial, e o contorno tracejado é o limite oficial da constelação. Em verde-claro, os objetos de céu profundo citados neste artigo. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo.

  1. Localize primeiro duas referências fáceis: Vega, a estrela mais brilhante da Lira, e Arcturus, no Boieiro — Hércules fica entre as duas, mais perto de Vega.
  2. Rasalgethi, a estrela mais ao sul da figura, fica bem perto de Ras Alhague, a estrela principal de Ofiúco (Moore, Observer's Year, p. 199-200): as duas "cabeças" quase se tocam no céu.
  3. Subindo a partir de Rasalgethi, a cadeia de estrelas passa por Kornephoros e Marsic até chegar ao Trapézio, o quadrilátero formado por Pi, Eta, Zeta e Sarin — é o "corpo" da constelação.
  4. M 13 fica dentro do lado oeste do Trapézio (entre Eta e Zeta, mais perto de Eta), cerca de um terço do caminho de uma estrela à outra (Ridpath, p. 162; Kambič, p. 308).

As estrelas de Hércules

Estrela Posição Brilho visual (mag.) Tipo espectral / cor Distância aproximada
Kornephoros (beta) a mais brilhante 2,78 gigante laranja não conferida nesta sessão
Rasalgethi (alfa) cabeça do herói 3,0 a 3,8 (variável) supergigante vermelha (M) não conferida nesta sessão
Sarin (delta) Trapézio 3,12 branco-azulada não conferida nesta sessão
Marsic (kapa) braço 5,00 gigante laranja não conferida nesta sessão
Maasym (lambda) perna 4,41 gigante laranja não conferida nesta sessão
Cujam (ômega) braço 4,57 branca não conferida nesta sessão
Zeta Her Trapézio 2,81 amarelo-branca (binária) cerca de 31 anos-luz (Moore)

Brilhos e cores (índice B-V) do catálogo do projeto. As distâncias precisas por paralaxe não foram conferidas no SIMBAD nesta sessão para a maioria das estrelas — ver pendências.

Kornephoros (Beta Herculis) é a estrela mais brilhante da constelação, ainda que discreta (magnitude 2,8). O nome vem do grego e significa algo como "o que carrega a clava", uma referência à arma do herói (Kambič, p. 305).

Rasalgethi (Alfa Herculis, também escrita Ras Algethi) é o ponto mais interessante da constelação para quem gosta de estrelas variáveis: uma supergigante vermelha que varia de brilho de forma irregular, entre magnitude 3 e 4, num ciclo que ronda 90 a 100 dias mas sem grande regularidade (Moore, Observer's Year, p. 203). A variabilidade foi descoberta por William Herschel em 1795. Rasalgethi tem uma companheira de magnitude 5,4, a cerca de 4,7 segundos de arco, que parece esverdeada por contraste com o laranja-avermelhado da estrela principal — um efeito óptico parecido com o da companheira de Antares, no Escorpião (Moore, p. 203; Kambič, p. 305-306). O período orbital estimado é de cerca de 3.600 anos, tempo demais para qualquer mudança perceptível na vida de um observador.

Zeta Herculis, uma das quatro estrelas do Trapézio, é uma binária próxima (cerca de 31 anos-luz) com período orbital de 34,5 anos e separação de cerca de 1,6 segundo de arco — apertada demais para a maioria dos telescópios amadores separarem com facilidade (Moore, Observer's Year, p. 201).

Marsic (Kapa Herculis) forma, com uma companheira de magnitude 6,2 a 27,7 segundos de arco, uma dupla fácil de binóculo, com cores amarelada e laranja (Kambič, p. 306). Delta Herculis também aparece como dupla, mas é um par óptico (as duas estrelas não estão de fato ligadas gravitacionalmente), com separação de 11,8 segundos de arco (Kambič, p. 306; Moore, p. 203-204).

A nova de 1934. Perto de Rasalgethi está DQ Herculis, uma estrela que em 1934 foi descoberta pelo astrônomo amador britânico J. P. M. Prentice como uma nova, chegando perto da 1ª magnitude antes de apagar. Hoje sabe-se que é uma binária eclipsante, um sistema de anã branca com disco de acreção que de vez em quando sofre explosões termonucleares na superfície (Moore, Observer's Year, p. 201).

M 13 e M 92: os dois globulares de Hércules

M 13, o Grande Aglomerado

O M 13 é o aglomerado globular mais famoso do hemisfério norte — só perde, no céu inteiro, para Ômega Centauri e 47 Tucanae, os dois grandes globulares do hemisfério sul (Moore, Observer's Year, p. 201-202). Fica no lado oeste do Trapézio, entre Eta e Zeta Herculis, cerca de um terço da distância de Eta para Zeta (Ridpath, p. 162; Kambič, p. 308). Tem magnitude 5,8 e cerca de 20 minutos de arco de diâmetro (mais de metade do diâmetro aparente da Lua cheia), e em céu bem escuro chega a ser visto a olho nu como um pontinho enevoado (Ridpath, p. 162).

Foi descoberto por Edmond Halley em 1714. As estimativas de distância variam: Ridpath e o catálogo do projeto falam em cerca de 25.000 anos-luz, Moore cita 22.500, e Kambič usa distância semelhante; de qualquer forma, é um aglomerado com centenas de milhares de estrelas concentradas numa esfera de dezenas de anos-luz de diâmetro (Ridpath, p. 162; Moore, p. 201-202). Um binóculo já mostra M 13 como uma "estrela enevoada" do tamanho de metade da Lua cheia; um telescópio de 15 a 20 cm começa a resolver as bordas em estrelas individuais, e instrumentos maiores revelam um padrão de faixas escuras em forma de "Y" cortando o núcleo (Ridpath, p. 162; Bakich, apud sc-p111).

M 92, sempre à sombra do irmão maior

O M 92 fica mais ao norte, fora do Trapézio, achado a partir de Pi Herculis levada para a borda sul do campo do binóculo (Kambič, p. 309-310). Com magnitude 6,4 e cerca de 14 minutos de arco, é um globular respeitável — seria uma atração e tanto em qualquer outra constelação —, mas "vive na sombra" de M 13, sempre comparado e quase sempre esquecido (Kambič, p. 309). Em binóculo, parece uma estrela desfocada; um telescópio pequeno já separa as bordas em pontos de luz.

NGC 6229 e NGC 6210: dois alvos menores

O catálogo do site também lista NGC 6229, um globular bem mais fraco e distante (magnitude 9,9, cerca de 4,8 minutos de arco), perto de Eta Herculis — um objeto de telescópio médio a grande, não de binóculo. Kambič também recomenda NGC 6210, uma nebulosa planetária de magnitude 8,8 que, em telescópios pequenos, parece apenas mais uma "estrela" no campo perto de Beta Herculis, até que o aumento revele o disco (Kambič, p. 310); ela não está no catálogo do projeto e por isso não tem carta própria, mas vale a visita para quem já tem o telescópio apontado para a região.

Mitologia: os doze trabalhos no céu

A figura de Hércules no céu é ligada a um conjunto grande de constelações que remontam aos seus doze trabalhos. Vieira reúne várias delas num só ciclo mítico: Câncer, o caranguejo que Juno (madrasta e inimiga do herói) enviou para distraí-lo durante a luta contra a Hidra de Lerna; Leão, a fera que ele estrangulou com as próprias mãos, cuja pele impenetrável ele passou a vestir; a Hidra, a serpente de várias cabeças que ele decapitou; e possivelmente a Coroa Austral, associada ao cinturão que ele tomou da rainha das Amazonas, Hipólita, em outro dos trabalhos (Vieira, p. 23-27). Para os antigos gregos, Hércules era o símbolo maior da força usada a serviço da virtude — um herói que enfrenta obstáculos praticamente impossíveis e os vence um a um, e essa é a leitura moral que os mitógrafos antigos davam à figura (Vieira, p. 27-28).

Curiosamente, apesar de tamanha fama mitológica, os gregos antigos não tinham um nome próprio para a constelação: os babilônios a viam como um ajoelhado genérico, e só depois os gregos o identificaram com Héracles (Ridpath, p. 162). A pose "de cabeça para baixo" com que a constelação é tradicionalmente desenhada — um pé sobre a cabeça do Dragão, a vizinha ao norte — reforça a ideia de um combate, talvez ecoando o momento em que Hércules vence o dragão Ladão, guardião do jardim das Hespérides, em outro dos doze trabalhos.

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu O Trapézio (Zeta, Eta, Épsilon e Pi Herculis) em céu razoavelmente escuro; Rasalgethi próxima de Ras Alhague, em Ofiúco; M 13 como um pontinho enevoado, em céu muito escuro.
Binóculo (10×50) M 13 como uma "estrela" enevoada; M 92, mais fraco; Marsic (Kapa Her) como dupla amarela e laranja.
Telescópio pequeno (70 a 100 mm) M 13 começando a resolver estrelas nas bordas; M 92 como um disco desfocado; Zeta Her e Delta Her como duplas (com calma, Zeta é apertada); a cor esverdeada da companheira de Rasalgethi, em boas condições.
Telescópio médio a grande (150 mm ou mais) M 13 quase totalmente resolvido, com as faixas escuras do núcleo; NGC 6229 como um globular fraco; NGC 6210, a planetária perto de Beta Her.

Dicas de campo:

  • Escolha uma noite sem Lua entre junho e agosto, olhando para o norte.
  • Comece pelo Trapézio: uma vez identificado, M 13 fica a um terço do caminho entre Eta e Zeta, no lado oeste (mais próximo de Eta).
  • Compare M 13 com Ômega Centauri, o globular gigante do hemisfério sul, visível em outra época do ano no Brasil — a diferença de tamanho e brilho mostra por que o Sul tem, de longe, os melhores globulares do céu.
  • Rasalgethi e Ras Alhague (Ofiúco) ficam tão perto uma da outra que servem de bom exercício de reconhecimento de campo: duas "cabeças" de personagens diferentes, quase coladas no céu.

Referências

  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars. New York: Springer, 2010. Hércules, p. 305-310.
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Noites de 2 a 7 de julho (Hércules, Rasalgethi, Zeta Her, M 13, M 92, nova DQ Herculis), p. 199-204.
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Hércules, M 13 e M 92, p. 162.
  • VIEIRA, Fernando. Identificação do céu. Ciclo mítico de Hércules (Câncer, Leão, Hidra, Coroa Austral), p. 21-28.
  • ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. London: Springer, 2006. M 13 e NGC 6229 (globulares de Hércules), p. 162-165 (impressa 154-157), citado via nota de pesquisa interna do projeto.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos e cores (índice B-V) via catálogo HYG v4.1 do projeto; distâncias por paralaxe não conferidas diretamente nesta sessão (ver pendências).
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.