setembro 22, 2026

Girafa: guia da constelação moderna sem uma única estrela brilhante

Carta estelar da Girafa como aparece do Brasil, olhando para o norte: um campo de estrelas fracas sem desenho reconhecível, entre Capela, Mirfak e Polaris, com o aglomerado NGC 1502 e as galáxias IC 342 e NGC 2403 marcados em verde

A Girafa não tem uma única estrela de nome próprio, nenhum mito, e nem sequer um desenho reconhecível — abra qualquer carta celeste e será difícil convencer alguém de que aquele emaranhado de pontos fracos lembra um animal de pescoço comprido. E, ainda assim, ela ocupa um espaço enorme do céu: com cerca de 757 graus quadrados, é a 18ª maior das 88 constelações, encravada entre a Ursa Maior, o Cocheiro, Perseu, Cassiopeia e o Cefeu, na região quase vazia que sobra entre essas figuras mais famosas do inverno do hemisfério norte. Este guia trata a Girafa com a mesma honestidade que os livros de referência usam: ela é pouco notável a olho nu, mas guarda um aglomerado aberto e duas galáxias que valem a visita de quem tem telescópio e céu escuro — no hemisfério norte, porque do Brasil ela é, na prática, quase inacessível.

Uma constelação sem mitologia, desenhada num mapa

A Girafa (Camelopardalis, abreviatura Cam) é uma constelação moderna, sem nenhuma origem na mitologia clássica: foi criada para preencher um vazio entre figuras antigas, não para contar uma história. A autoria é atribuída ao cartógrafo holandês Petrus Plancius, por volta de 1613, e a constelação ganhou uso mais amplo depois que o astrônomo alemão Jakob Bartsch a incluiu em seu atlas de 1624 — o mesmo período em que várias outras constelações "de preenchimento" foram propostas para as áreas fracas do céu (fontes gerais de história da cartografia celeste; ver pendências). O nome vem do grego kamelopardalis, uma combinação de "camelo" e "leopardo", a forma como os antigos descreviam um animal com pescoço de camelo e pelagem manchada — a girafa, então desconhecida na Europa por esse nome.

Não é por acaso que os livros de referência tratam a Girafa rapidamente: ela não tem nenhuma estrela acima da 4ª magnitude, e a mais brilhante, Beta Camelopardalis, já é discreta em qualquer céu com um mínimo de poluição luminosa. É uma constelação para se conhecer pela posição — o vazio entre a Ursa Maior, Cassiopeia e Perseu — e não pelo desenho.

Quando e como achar

Melhor época. O centro da Girafa fica perto de 6 h de ascensão reta, o que a coloca no céu de fim de ano e verão do hemisfério norte: ela culmina (chega ao ponto mais alto) por volta das 21 h locais em meados de janeiro, e fica bem posicionada de novembro a março para quem observa de latitudes mais ao norte.

Para onde olhar do Brasil. A Girafa fica muito ao norte do equador celeste (a maioria das estrelas tem declinação entre +55° e +85°), e a carta abaixo mostra o céu olhando para o norte, com o norte para baixo e o leste para a direita.

Cidade Beta Cam (mag. 4,0) Alfa Cam (mag. 4,3) Gama Cam (mag. 4,6)
Boa Vista (RR) 32° 26° 21°
Manaus (AM) 26° 21° 16°
Recife (PE) 22° 16° 11°
Brasília (DF) 14° 8° 3°
Rio de Janeiro (RJ) 7° 1° não sobe
São Paulo (SP) 6° não sobe não sobe
Porto Alegre (RS) não sobe não sobe não sobe

Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós a partir das declinações do catálogo do site (SIMBAD) e da latitude de cada cidade (altura = 90° menos a diferença entre latitude e declinação); valores arredondados. Mesmo onde a altura é "positiva", ela é baixa demais para observação real na maior parte do país: a extinção atmosférica perto do horizonte apaga estrelas fracas como as da Girafa muito antes de a altura chegar a zero. Na prática, a constelação só é observável com alguma folga a partir do extremo norte (Roraima, Amazonas), e mesmo lá é um alvo difícil por causa do brilho fraco das estrelas.

Carta estelar da Girafa como aparece do Brasil, olhando para o norte: um campo de estrelas fracas sem desenho reconhecível, entre Capela, Mirfak e Polaris, com o aglomerado NGC 1502 e as galáxias IC 342 e NGC 2403 marcados em verde
Carta estelar da Girafa como ela aparece do Brasil ao olhar para o norte: o norte fica embaixo e o leste à direita. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial. O contorno tracejado dourado é o limite oficial da constelação. Em branco, fora do limite, três estrelas-guia de constelações vizinhas (Capela, no Cocheiro; Mirfak, em Perseu; Polaris, na Ursa Menor). Em verde-claro, os objetos de céu profundo citados neste artigo. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo. Como nenhuma estrela da Girafa chama atenção sozinha, o caminho é por exclusão: ela ocupa o espaço vazio entre Capela (no Cocheiro, a oeste), Cassiopeia e Perseu (a sul-sudoeste, na carta) e Polaris (ao sul, na carta, do lado do polo). Quem consegue formar mentalmente esse triângulo maior encontrou a região certa; dentro dela, um binóculo revela um campo de estrelas fracas e espalhadas, sem padrão evidente.

As estrelas da Girafa

Estrela Designação Brilho visual (mag.) Tipo espectral Distância aproximada
Beta Camelopardalis β Cam 4,03 G1 Ib (supergigante amarela) cerca de 840 anos-luz
Alfa Camelopardalis α Cam 4,29 O9 Ia (supergigante azul) cerca de 5.500 anos-luz
Gama Camelopardalis γ Cam 4,59 A0 (branca) não calculado (sem paralaxe consultada)

Brilhos, tipos espectrais e paralaxes consultados no catálogo de estrelas do site (base HYG v4.1) e conferidos no SIMBAD (CDS, Estrasburgo) para Beta e Alfa. Distâncias calculadas por nós a partir da paralaxe (3.261,56 dividido pela paralaxe em milissegundos de arco).

Nenhuma estrela da Girafa tem nome próprio consagrado: a lista oficial de nomes de estrelas da IAU não inclui nenhuma delas, e é por isso que a carta e a tabela usam só as designações de Bayer. Beta Camelopardalis é a mais brilhante da constelação, uma supergigante amarela que, apesar do brilho relativamente modesto no céu (magnitude 4,0), é intrinsecamente muito luminosa — só parece fraca porque está a centenas de anos-luz de distância. Alfa Camelopardalis é ainda mais extrema: uma supergigante azul quente, do tipo O9, a cerca de 5.500 anos-luz, uma das estrelas mais distantes visíveis a olho nu no céu — sua luminosidade real está entre as maiores de qualquer estrela facilmente observável, mas a distância imensa reduz seu brilho aparente a uma modesta 4ª magnitude. É o tipo de curiosidade que só faz sentido explicar: duas estrelas de brilho aparente parecido, uma a algumas centenas e outra a milhares de anos-luz, lado a lado no céu por pura coincidência de perspectiva.

Objetos de céu profundo

O catálogo do site lista 11 objetos de céu profundo dentro dos limites da Girafa, quase todos galáxias fracas de magnitude 10 ou mais fraca — nada para binóculo, e a maioria nem para telescópios pequenos em céu com alguma poluição luminosa. Três se destacam:

NGC 1502, um aglomerado aberto de magnitude 6,9 e cerca de 10 minutos de arco, é o alvo mais fácil da constelação: em céu escuro, um binóculo já mostra um grupo compacto de estrelas, e um telescópio pequeno revela dezenas delas, incluindo a dupla central Struve 485. Fica perto do canto sul do limite oficial da constelação, na direção de Cassiopeia.

NGC 2403, também catalogada como Caldwell 7, é uma grande galáxia espiral vista quase de frente, uma das maiores e mais brilhantes que Messier deixou de fora do seu catálogo. Tem magnitude 8,4 e cerca de 10′ × 6′ de disco brilhante (o halo fotográfico, em exposições longas, chega a mais do dobro disso). Fica a cerca de 12 milhões de anos-luz, no mesmo grupo de galáxias de M81 e M82. Ela tem guia completo publicado no site, com ficha técnica, o que esperar em cada instrumento e dicas de astrofotografia.

IC 342, o Caldwell 5, é outra espiral vista de frente, quase do tamanho da própria Via Láctea e a cerca de 10 milhões de anos-luz — uma das galáxias mais próximas fora do Grupo Local. O problema é a posição: ela fica muito perto do plano da Via Láctea, e a poeira da nossa própria Galáxia apaga boa parte do seu brilho, reduzindo o que poderia ser um espetáculo a um alvo discreto de baixo brilho de superfície. Também tem guia completo publicado no site.

As duas galáxias, com declinações de +65,6° e +68,1°, ficam ainda mais ao norte do que as estrelas mais brilhantes da constelação — na prática, inacessíveis do Brasil (a tabela de altura, acima, mostra a mesma dificuldade para as estrelas vizinhas). Os dois guias linkados foram escritos do ponto de vista de quem observa do hemisfério norte, e explicam isso com o mesmo cuidado.

Mitologia e história: uma constelação sem mito

Ao contrário de quase todas as constelações tratadas nesta série, a Girafa não carrega nenhuma lenda. É uma criação cartográfica do início do século XVII, pensada para ocupar um espaço vazio do céu boreal entre figuras muito mais antigas — o mesmo movimento que, na mesma época e nos séculos seguintes, deu origem a constelações modernas como Cão de Caça, Lince e Escudo, muitas delas batizadas por instrumentos, animais exóticos ou dedicatórias, não por mitos gregos ou romanos. Não há, nos livros de referência consultados para esta série, nenhuma menção a uma origem mitológica para a Girafa — e não seria de esperar, já que ela nasceu como mapa, não como história.

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu Nada de específico: a constelação não tem nenhuma estrela que se destaque isoladamente em céu com alguma poluição luminosa.
Binóculo (10×50) O aglomerado NGC 1502 como um grupo compacto de estrelinhas, em céu escuro; o campo fraco e espalhado da constelação como um todo.
Telescópio pequeno (70 a 100 mm) NGC 1502 resolvido em dezenas de estrelas com a dupla central separada; NGC 2403 como um oval nebuloso, em céu bem escuro e alta no horizonte (hemisfério norte).
Telescópio médio a grande, céu muito escuro Início da estrutura espiral de NGC 2403; IC 342 como um núcleo brilhante cercado por um halo difuso, exigindo paciência por causa do baixo brilho de superfície.

Dicas de campo:

  • Este é um guia mais útil para quem observa do hemisfério norte: do Brasil, mesmo do extremo norte, a Girafa é um alvo de baixíssima altura e brilho fraco.
  • Para quem estiver em latitudes norte (Europa, América do Norte), comece por Capela ou por Cassiopeia e "ande" para a região vazia entre elas e Polaris.
  • Céu realmente escuro é obrigatório: todos os alvos da constelação têm brilho de superfície baixo.

Referências

  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Sem verbete próprio localizado para Camelopardalis nos trechos consultados para esta série.
  • KIER, Ronald. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2010. NGC 2403, IC 342 e o grupo de galáxias da Girafa e de Camelopardalis (usado no guia individual de cada objeto).
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 5 (IC 342) e Caldwell 7 (NGC 2403).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars. New York: Springer, 2010. NGC 2403 e IC 342.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos, tipos espectrais e paralaxes de Beta e Alfa Camelopardalis, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.