setembro 21, 2026

IC 342 (Caldwell 5), a Galáxia Escondida de Camelopardalis: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de IC 342 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Poucas galáxias ilustram tão bem a diferença entre "brilhante no papel" e "brilhante no céu" quanto a IC 342. Ela é grande, próxima como galáxias vão, vista quase de frente e cheia de braços espirais — os ingredientes de um objeto espetacular. Só que ela está quase em cima do plano da Via Láctea, e a poeira da nossa própria Galáxia apaga boa parte da sua luz antes que ela chegue até nós. O resultado é uma galáxia de magnitude total relativamente alta, mas de um brilho de superfície tão baixo que exige céu muito escuro e olhos treinados — ou uma câmera muito paciente — para revelar os braços. Este guia é escrito para quem observa do hemisfério norte, onde a IC 342 fica bem alta e às vezes quase no zênite; para o Rio de Janeiro, explica com honestidade por que ela nunca aparece.

Texto em revisão. Este guia segue o novo formato de artigo de objeto do site. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de IC 342 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: uma galáxia espiral vista de frente, escondida pela poeira

A IC 342 é uma galáxia espiral vista quase perfeitamente de frente (face-on), o que normalmente é uma sorte para o observador — dá para ver a estrutura dos braços em vez de um disco fino de perfil. O problema é a localização: ela fica a apenas cerca de 10° do plano da Via Láctea (Kier), na direção da constelação de Camelopardalis, a Girafa. Nessa direção, o gás e a poeira do próprio disco da nossa Galáxia formam um véu que absorve e espalha a luz de tudo que está atrás — um fenômeno chamado extinção interestelar. A luz da IC 342 chega até nós reduzida em mais de duas magnitudes (Bakich), o suficiente para transformar o que seria uma das galáxias mais espetaculares do céu em um alvo discreto, quase escondido.

Uma galáxia do tamanho da nossa. Com um diâmetro físico estimado em cerca de 50.000 anos-luz (Mobberley), a IC 342 é comparável em tamanho à nossa própria Via Láctea. A uma distância de cerca de 10 milhões de anos-luz — os livros variam entre 10 e 14 milhões —, ela é uma das galáxias espirais mais próximas de nós fora do Grupo Local, parte de um pequeno grupo conhecido como Grupo IC 342/Maffei.

Uma descoberta tardia. Apesar do tamanho e da proximidade, a IC 342 só foi registrada em 1892 (ou no início dos anos 1890, conforme a fonte) pelo observador britânico W. F. Denning (Mobberley). Charles Messier nunca a incluiu em seu catálogo, provavelmente porque ela fica perto demais do polo norte celeste para os campos de busca de cometas que ele costumava varrer, e porque o Sol, no inverno do hemisfério norte, já ocupa declinações negativas — bem longe da região onde ela está (Mobberley).

Braços fantasmagóricos. Mobberley observa que, visualmente, o Caldwell 5 "parece menos impressionante do que se esperaria de uma galáxia de 8ª magnitude", porque os braços espirais são muito fracos em comparação com o núcleo brilhante e concentrado. Kier confirma: os braços têm regiões de hidrogênio ionizado (H II) espalhadas, mas só aparecem bem em exposições longas e profundas, sob céu muito escuro.

Estruturas notáveis

  • O núcleo brilhante. Uma região central concentrada e relativamente fácil de identificar mesmo em telescópios pequenos, muito mais destacada que o resto da galáxia.
  • Os braços espirais fracos. Envolvem o núcleo, mas de brilho de superfície baixíssimo — o principal desafio tanto visual quanto fotográfico.
  • As regiões HII nos braços. Bolsões de formação estelar espalhados pela estrutura espiral, detectáveis apenas em imagens profundas (Kier).
  • O véu de poeira da Via Láctea em primeiro plano. Tecnicamente não faz parte da galáxia, mas é o fator que mais afeta como a vemos — estrelas de campo densas e extinção acentuada.

Como localizar

A rota clássica parte de Segin (ε Cassiopeiae, magnitude 3,4): ande cerca de 4½° para o norte e cerca de 12° para oeste (Mobberley). Outra referência é a estrela γ Camelopardalis (magnitude 4,6): a IC 342 fica cerca de 3,2° ao sul dela. Um terceiro ponto de apoio é o aglomerado aberto NGC 1502, cerca de 6° ao sul da galáxia (Mobberley). Como o campo tem poucas estrelas guia brilhantes, vale a pena usar um buscador de campo amplo ou apontamento GoTo/eletrônico antes de tentar encontrá-la visualmente.

Carta de localização de IC 342: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

A IC 342 fica a uma declinação de cerca de +68°, o que a torna circumpolar para quem observa de latitudes acima de 22° N — ou seja, ela nunca se põe para praticamente toda a Europa, o Canadá e boa parte dos Estados Unidos. Nos meses de inverno do hemisfério norte, ela passa perto do zênite em horários convenientes, a melhor posição possível para tentar captar um alvo de brilho de superfície tão baixo.

O primeiro gráfico abaixo mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório configurado no site; o segundo, o caminho da galáxia pelo céu nesta noite. Se você está lendo do hemisfério norte, ajuste a localização do site para a sua cidade para ver a janela real de observação.

Altura de IC 342 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. O objeto não passa de 30° à meia-noite em nenhuma época do ano.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZhoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Neste local o objeto não passa de 30° de altura no meio da noite em nenhuma época do ano.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -1°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
02:20 · -1° N
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
43 mag 9,7
Enquadramento
100 ocupa 44 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -26° — 132°
20:00 -23° — 133°
20:30 -20° — 133°
21:00 -17° — 133°
21:30 -15° — 133°
22:00 -12° — 133°
22:30 -10° — 133°
23:00 -8° — 133°
23:30 -6° — 133°
00:00 -4° — 133°
00:30 -3° — 133°
01:00 -2° — 134°
01:30 -2° — 134°
02:00 -1° — 134°
02:30 -1° — 134°
03:00 -2° — 134°
03:30 -2° — 134°
04:00 -3° — 134°
Altura de IC 342 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 02:20, com -1°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte02:20 · -1°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

E do Rio de Janeiro?

A altura máxima de um objeto ao cruzar o meridiano é 90° menos a diferença entre a latitude do observador e a declinação do objeto. No Rio de Janeiro (latitude −23°), isso dá 90° − |−23° − 68,1°| ≈ 90° − 91,1° ≈ −1°. Ou seja, a IC 342 nunca sobe acima do horizonte no Rio de Janeiro: a conta já fecha negativa, e mesmo o resultado exato de zero grau seria inútil na prática, mergulhado na névoa do horizonte. Este guia descreve a observação de latitudes onde ela é de fato acessível — do hemisfério norte, de preferência acima de 30-35° N —, não daqui.

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Invisível.
Binóculo Invisível ou, no máximo, uma leve sugestão de mancha em céu excepcional e binóculo grande.
Telescópio de 100 a 150 mm Mobberley cita 10 cm como abertura mínima recomendada; em céu com poluição luminosa, um filtro de céu profundo (deep-sky) ajuda um pouco a destacar o núcleo contra o fundo. Espere ver principalmente o núcleo, sem estrutura de braços.
Telescópio de 300 mm ou mais Em noite de transparência excelente, com o objeto quase no zênite, Mobberley descreve uma "bela visão" mesmo em uma abertura de 16 cm em baixo aumento; instrumentos maiores, sob céu muito escuro, começam a sugerir os braços.

Expectativa honesta: mesmo para quem tem acesso ao objeto, esta não é uma galáxia "fácil" apesar da magnitude relativamente alta — o segredo é sempre céu muito escuro e transparente, porque o brilho está espalhado por uma área grande.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com cerca de 20′ a 22′ de diâmetro, Kier recomenda um campo de pelo menos 25′, e até 40′ para um enquadramento mais confortável, incluindo um pouco de céu ao redor. Um telescópio de 800 a 1.200 mm de focal com um sensor APS-C cobre bem a galáxia com espaço de sobra.

Desafios do alvo

  • Brilho de superfície baixo. É o obstáculo central: a magnitude total soa generosa, mas a luz está espalhada por uma área grande, o que exige tempo de exposição longo e céu muito escuro.
  • Extinção e cor "enlameada". Kier avisa que a cor da imagem final costuma parecer "lamacenta": a poeira da Via Láctea, em primeiro plano, espalha mais a luz azul e apaga o vermelho, distorcendo a paleta natural da galáxia.
  • Necessidade de luminância profunda e não filtrada. Mobberley insiste que só uma imagem de luminância sem filtro consegue puxar os braços espirais "para fora da bruma" — a técnica LRGB (luminância + cor) é praticamente obrigatória aqui.

Equipamento e filtros

Kier recomenda uma sessão de luminância generosa — no exemplo dele, 21 exposições de 5 minutos com um telescópio de 12 polegadas f/7 — complementada por quadros de cor obtidos com um refrator menor. Em céu de subúrbio, um filtro de redução de poluição luminosa (como os filtros de banda ampla tipo IDAS) ajuda, mas não substitui um céu realmente escuro. No processamento, afiar o núcleo brilhante e suavizar os braços externos, mais ruidosos, ajuda a equilibrar a imagem (Kier).

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Luminância (sem filtro) 30 a 40 300 s Puxar os braços espirais fracos
RGB 10 a 15 por canal 180 a 300 s Cor da galáxia (corrigir depois a extinção)
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros: como referência, Kier usou 21 exposições de 5 minutos de luminância com um telescópio de 12 polegadas.

Smart telescopes e campo de visão

O campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) cobre a IC 342 com folga, mas o brilho de superfície baixo pede muitas horas de empilhamento acumuladas ao longo de mais de uma sessão, sempre sob o céu mais escuro possível. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

A IC 342 é uma lição visual sobre o que "brilho de superfície" realmente significa: uma galáxia do tamanho da Via Láctea, relativamente próxima, escondida não pela distância, mas pela poeira da nossa própria Galáxia no caminho. Para quem observa de latitudes médias e altas do hemisfério norte, com o objeto quase circumpolar, ela é um alvo de inverno gratificante para quem já tem prática com galáxias de baixo contraste; para o observador brasileiro, o interesse fica por conta da comparação: entre as galáxias de baixo brilho superficial acessíveis do Rio de Janeiro estão a Galáxia de Camelopardalis (NGC 2403), vizinha da IC 342 no céu do hemisfério norte, e outras espirais e anãs do Grupo Local observáveis daqui, com o mesmo desafio de contraste, só que com um horizonte mais favorável.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 917 (IC 342).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Galáxias fracas, NGC 2403, IC 342 e M 51, p. 213-225.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. IC 342, p. 4-6.
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 5, p. 22-23.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas e dimensões de IC 342 (sem paralaxe disponível), em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.