setembro 22, 2026
Flecha, a terceira menor constelação: um risquinho de estrelas e o globular M71

A Flecha é a terceira menor das 88 constelações — só o Cruzeiro do Sul e o Cavalo Menor são menores — e ainda assim consegue desenhar, com meia dúzia de estrelas fracas, uma seta perfeitamente reconhecível apontando para o leste. Não tem estrela de nome famoso, não tem mitologia rica documentada, mas guarda um dos globulares mais discutidos da astronomia amadora: o M71, que os catálogos hesitaram por décadas em chamar de "aberto" ou "globular". Este guia mostra como achar essa pequena seta entre a Águia e o Cisne e o que vale a pena observar nela.
Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.
A terceira menor constelação do céu
A Flecha (Sagitta, abreviatura Sge) ocupa apenas cerca de 80 graus quadrados do céu — só o Cruzeiro do Sul é menor entre as constelações do zodíaco de estrelas visíveis, e mundialmente só ela e o Cavalo Menor ficam abaixo dela em área (Mourão, verbete Sagitta, p. 740; Moore, Observer's Year, p. 259). Apesar do tamanho minúsculo, sua forma é inconfundível: quatro estrelas fracas, entre a 3ª e a 4ª magnitude, alinhadas numa seta esguia, sem nenhuma estrela batizada com nome próprio famoso além de Sham, a mais brilhante.
A tradição liga a Flecha a mais de um mito, sem consenso entre os autores: seria a flecha de Apolo usada para matar os Ciclopes, a de Hércules contra a águia que devorava o fígado de Prometeu, ou a de Eros/Cupido (RID, p. 182; Mourão, p. 740). Essa incerteza mesmo é reveladora: constelações pequenas e antigas, sem estrelas de destaque, muitas vezes carregam histórias emprestadas ou reaproveitadas de outras figuras vizinhas, e os catálogos divergem sobre qual delas prevalece.
Quando e como achar
Melhor época. A Flecha culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21h locais no fim de agosto, praticamente junto com a Águia e o Cisne, suas vizinhas na Via Láctea de inverno; a boa temporada de observação vai de junho a outubro.
Para onde olhar. Por ficar perto da Águia, a Flecha passa relativamente alta em todo o Brasil, um pouco mais alta nas regiões mais próximas do equador.
| Cidade | Altura máxima |
|---|---|
| Boa Vista (RR) | 74° |
| Manaus (AM) | 68° |
| Recife (PE) | 63° |
| Brasília (DF) | 55° |
| Rio de Janeiro (RJ) | 48° |
| São Paulo (SP) | 48° |
| Porto Alegre (RS) | 41° |
Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós a partir da declinação central da constelação (SIMBAD) e da latitude de cada cidade (altura = 90° menos a diferença entre latitude e declinação); valores arredondados.

Passo a passo.
- Localize primeiro a Águia, pelo trio de estrelas em linha com Altair no meio (veja o guia da Águia).
- A partir de Tarazed e Alshain (as escoltas de Altair), suba na direção do Cisne: a Flecha fica nesse meio-caminho, um pequeno grupo de estrelas fracas que forma uma seta esguia — mais fácil de reconhecer pela forma do que por qualquer estrela isolada.
- Sham, a mais brilhante do grupo, marca a "cauda" da seta; as demais estrelas, mais fracas, desenham a haste e a ponta.
As estrelas da Flecha
| Estrela | Posição | Brilho visual (mag.) | Tipo espectral | Distância aproximada |
|---|---|---|---|---|
| Sham (alfa) | base da seta | 4,39 | G0 III (gigante amarela) | cerca de 470 anos-luz |
| Beta Sge | ao lado de Sham | 4,39 | G8 III (gigante amarela) | cerca de 420 anos-luz |
| Delta Sge | meio da haste | 3,68 (dupla) | M2 II + companheira | cerca de 550 anos-luz |
| Gama Sge | ponta da seta | 3,51 | K5 III (gigante laranja) | cerca de 260 anos-luz |
Brilhos, tipos espectrais e paralaxes consultados no SIMBAD (CDS, Estrasburgo).
Nenhuma das estrelas da Flecha carrega um nome próprio de peso na tradição árabe ou grega além de Sham, cujo significado documentado nas fontes consultadas é incerto. A estrela mais brilhante da constelação é, na verdade, Gama Sagittae, na ponta da seta, de magnitude 3,51 — mas sem nome próprio consagrado, ela costuma aparecer só pela designação de Bayer mesmo nos livros de divulgação.
Delta Sge, no meio da haste, é uma dupla: uma gigante vermelha e uma companheira mais quente, cuja natureza exata (física ou apenas alinhamento aparente) não está resolvida nas fontes consultadas para este guia.
M71, o globular que confundiu os catálogos
O M71 fica bem no meio da Flecha, entre as estrelas gama e delta, e por muito tempo dividiu opiniões entre os astrônomos: seria um aglomerado globular muito frouxo, ou um aglomerado aberto muito denso e antigo? Mollise resume o impasse — a classe de concentração de M71 (classe XI, a mais solta da escala de Shapley-Sawyer) o deixa na fronteira entre as duas categorias (p. 158). Hoje o consenso é tratá-lo como globular, ainda que atípico: pobre em metais pesados de forma menos extrema que os globulares clássicos, e relativamente jovem para o padrão desse tipo de aglomerado.
Tem magnitude 8,3, cerca de 6 minutos de arco de diâmetro (bem menor que a Lua cheia) e fica a aproximadamente 13.000 anos-luz, com um diâmetro real de cerca de 25 anos-luz (Mollise, p. 158). Em binóculo grande já aparece como uma mancha nebulosa contra o fundo denso da Via Láctea; um telescópio de 15 a 20 cm começa a resolver as estrelas mais brilhantes da borda. É um bom alvo de comparação para quem já observou globulares mais clássicos, como M13 ou M22, e quer notar como M71 foge do padrão — mais solto, sem o núcleo denso e brilhante típico da classe.
Perto de M71, um pequeno aglomerado catalogado como H20 também aparece no levantamento de objetos da constelação, embora seja um alvo mais discreto e menos documentado nas fontes consultadas.
Mitologia: uma flecha sem dono certo
Como já mencionado, os livros de apoio não concordam sobre a origem exata do mito. Ridpath cita a flecha de Apolo contra os Ciclopes; outras fontes preferem ligá-la a Hércules, disparada contra a águia que atormentava Prometeu — o que criaria um vínculo bonito com a vizinha Águia, ambas convivendo lado a lado no céu (RID, p. 182). Mourão não resolve a disputa, e nós preferimos reportar a incerteza a inventar uma resposta única.
Roteiro de observação
| Instrumento | O que ver |
|---|---|
| A olho nu | A forma da pequena seta, em céu razoavelmente escuro. |
| Binóculo (10×50) | O desenho completo da constelação e M71 como uma mancha nebulosa. |
| Telescópio pequeno (70 a 100 mm) | M71 começando a mostrar textura granulada nas bordas. |
| Telescópio de 150 a 200 mm | M71 parcialmente resolvido em estrelas individuais. |
Dicas de campo:
- Use a Águia como ponto de partida: a Flecha fica entre ela e o Cisne, no meio da Via Láctea de inverno.
- M71 rende mais em céu escuro, longe de poluição luminosa, já que sua concentração frouxa o torna menos contrastado que outros globulares.
- Aproveite a mesma sessão de observação para visitar a Águia e o Cisne, vizinhas imediatas na mesma faixa da Via Láctea.
Referências
- MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide. New York: Springer, 2006. M71, p. 158.
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Noites de 4 a 9 de setembro (pequenas constelações do Triângulo de Verão, p. 256-260).
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Sagitta", p. 740.
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Escudo, Flecha e Águia, p. 182-183.
- TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. M71 e ε Sge, p. 226-227.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos, tipos espectrais e paralaxes, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.