setembro 21, 2026

M 71, o globular de Flecha: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M71 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

A pequena constelação da Flecha (Sagitta), uma das menores do céu, guarda um globular que intrigou astrônomos por décadas: M 71 é tão frouxo, tão pouco concentrado no centro, que por muito tempo não ficou claro se era um aglomerado globular ou um aglomerado aberto atipicamente denso. Hoje sabemos que é um globular — só que um dos mais "atípicos" do catálogo de Messier. Ele fica bem posicionado no céu de verão do hemisfério norte e, apesar de não ser um alvo de zênite para quem observa do Rio de Janeiro, sobe o bastante para valer a pena.

Imagem de referência (DSS2) de M71 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o globular que parece aberto

M 71 é um aglomerado globular, uma esfera de estrelas antigas presas pela própria gravidade, mas com uma particularidade: sua concentração central é tão baixa que, por muitos anos, astrônomos hesitaram em classificá-lo como globular. A escala de concentração de Shapley-Sawyer, que vai de I (extremamente concentrado) a XII (muito solto), coloca M 71 na classe XI segundo Allison — quase no limite mais frouxo possível da escala, o que explica a confusão histórica com os aglomerados abertos, tipicamente mais soltos e mais jovens que os globulares.

M 71 em números. A paralaxe do SIMBAD (0,251 ± 0,011 milissegundos de arco) corresponde a uma distância de cerca de 13.000 anos-luz — valor que bate bem com o citado por Allison, uma rara concordância entre livro e medição moderna neste lote de objetos. É também um dos globulares Messier mais próximos da Terra. O tamanho aparente, do SIMBAD, é de 7,2′.

A "ponta de flecha". Allison descreve a forma do aglomerado, em telescópios amadores, como lembrando a ponta de uma flecha — um trocadilho apropriado, já que M 71 fica exatamente na constelação da Flecha.

Descoberta. M 71 foi descoberto no século XVIII (atribuído a Philippe Loys de Chéseaux) e catalogado por Messier como o 71º objeto de sua lista.

Estruturas notáveis

  • A baixa concentração central. A característica que define M 71: ao contrário de globulares como M 13 ou M 15, não há um núcleo brilhante e bem definido — as estrelas se espalham de forma relativamente uniforme (Allison).
  • O núcleo nebuloso em baixo aumento. Bakich descreve que, em 100 mm e baixa ampliação, o centro aparece como uma neblina de estrelas quase resolvidas, sem se separar completamente.
  • A resolução progressiva. A 200 aumentos, as estrelas mais brilhantes já se destacam; em 300 mm, mais de 50 estrelas ficam visíveis (Bakich) — um bom alvo para testar o poder de resolução de um telescópio.
  • Os vizinhos guia. M 71 fica entre Gamma e Delta Sagittae, as duas estrelas mais brilhantes da Flecha, cerca de 1,5° de cada uma (Bakich) — raro ter guias tão próximas e simétricas.

Como localizar

A Flecha é pequena, mas fácil de reconhecer: um losango alongado de quatro estrelas de magnitude 3,5 a 4,4, ao sul do Cisne e a leste da Águia. M 71 fica quase exatamente no meio do caminho entre Gamma Sagittae (a estrela na ponta leste da flecha, magnitude 3,5) e Delta Sagittae (mais central, magnitude 3,8), a cerca de 1,5° de cada uma (Bakich; Machholz).

Como o aglomerado é relativamente compacto e sem um núcleo muito brilhante, use um binóculo ou buscador de campo largo para confirmar a posição antes de aumentar a ampliação.

Carta de localização de M71: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

M 71 é um alvo do céu de verão do hemisfério norte, na mesma região das constelações do Cisne, da Águia e da Lira, visível a noite toda nos meses centrais do ano em latitudes médias e altas do norte.

Os gráficos abaixo usam a localização do observatório do site (Rio de Janeiro, por padrão, ou a posição aproximada de quem está lendo). O primeiro mostra a altura de M 71 ao longo do ano; o segundo, o caminho do objeto pelo céu nesta noite.

Altura de M71 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de junho a setembro. O objeto chega a 48° à meia-noite em julho.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ20 jul · 48°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de junho a setembro (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 48° em 20 de julho.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
19:20 · 46° NNW
Horas acima de 45°
0,3 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
58 / 100
Posição no céu
43
Brilho
98 mag 6,1
Enquadramento
61 ocupa 15 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M71 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 18:20 e 23:40 durante a noite; o ponto mais alto é às 19:20, com 46°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO19:0020:0021:0022:0023:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 45° NNW 337° 85°
20:00 42° NNW 328° 85°
20:30 38° NW 321° 84°
21:00 33° NW 314° 84°
21:30 28° NW 308° 84°
22:00 22° WNW 304° 84°
22:30 16° WNW 299° 84°
23:00 10° WNW 296° 84°
23:30 4° WNW 292° 83°
00:00 -3° — 83°
00:30 -9° — 83°
01:00 -16° — 83°
01:30 -23° — 83°
02:00 -30° — 82°
02:30 -36° — 82°
03:00 -43° — 82°
03:30 -50° — 82°
04:00 -57° — 82°
Altura de M71 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 19:20, com 46°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

E do Rio de Janeiro?

A declinação de M 71 é de cerca de +18,8°. Pela fórmula da altura máxima para a latitude do observatório (90° − |latitude − declinação|), a altura máxima do objeto no Rio de Janeiro (latitude −23°) é de cerca de 48° acima do horizonte norte, na culminação. É uma altura bem razoável — mais da metade do caminho até o zênite —, melhor até que a de M 56, na Lira. Dá para observar M 71 com boa qualidade do Rio, desde que a época e o horário escolhidos coincidam com a culminação, mostrada no gráfico anual acima.

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Invisível em qualquer condição de céu.
Binóculo (10×50) Uma manchinha fraca e alongada, sem estrutura definida, sob céu escuro.
Telescópio de 100 mm Em baixa ampliação, um núcleo com neblina de estrelas quase resolvidas (Bakich).
Telescópio de 200 mm A 200 aumentos, as estrelas mais brilhantes do aglomerado já se destacam individualmente (Bakich).
Telescópio de 300 mm Mais de 50 estrelas ficam visíveis, revelando a forma alongada, quase de "ponta de flecha" (Bakich; Allison).

Um bom exercício: observe M 71 e depois M 56 (Lira) ou M 13 (Hércules) na mesma noite. A diferença de concentração central entre eles ajuda a visualizar, na prática, a escala de Shapley-Sawyer e por que os astrônomos hesitaram tanto tempo sobre como classificar M 71.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com cerca de 7′ de diâmetro, M 71 tem porte semelhante ao de M 56. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°), o aglomerado cabe com espaço de sobra para incluir o campo estelar da Via Láctea ao redor.

Desafios do alvo

  • Baixa concentração central. Por ser um globular frouxo, M 71 não tem um núcleo brilhante para "ancorar" a exposição; o processamento deve equilibrar todo o campo de estrelas de forma mais homogênea do que em globulares densos.
  • Do Rio de Janeiro, altura moderada. A cerca de 48° de altura máxima, a extinção atmosférica é maior que perto do zênite, mas ainda é uma altura administrável; prefira capturar perto da culminação.
  • Distinguir do campo estelar. Como M 71 se mistura mais ao fundo do que um globular denso, um bom controle de fundo de céu ajuda a destacar o contorno do aglomerado no processamento.

Equipamento e filtros

Sem gás para realçar, o objetivo aqui é resolução e contraste tonal entre as estrelas. Uma câmera colorida de um disparo funciona bem; câmeras monocromáticas com filtros LRGB entregam mais detalhe fino, especialmente úteis para mostrar a forma alongada do aglomerado.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 40 a 60 60 a 120 s Resolver as estrelas sem saturar as mais brilhantes
Dark 20 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 20 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 30 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, à sua focal e ao céu da noite. Do Rio de Janeiro, priorize sessões perto do horário de culminação.

Smart telescopes e campo de visão

M 71 cabe bem no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), junto com boa parte do campo estelar da Flecha e arredores. Do hemisfério norte, é um alvo fácil de verão; do Rio de Janeiro, funciona bem perto da culminação, quando alcança cerca de 48° de altura. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 71 é uma boa lição prática sobre os limites das classificações astronômicas: um objeto que, ao vivo, parece contradizer a distinção comum entre "globular" e "aberto", e que só se resolve com boa ampliação e abertura. É um alvo relativamente fácil e bem posicionado, tanto no céu de verão do hemisfério norte quanto — com altura moderada, mas viável — do Rio de Janeiro. Se você gostou, considere também explorar os vizinhos do Cisne e da Águia nesta mesma região do céu.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 611 (M 71/NGC 6838).
  • ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. New York: Springer, 2006. Globulares do norte: M 92, M 56 e M 71, p. 174-176 (conferir página impressa exata).
  • MACHHOLZ, Don. The Observing Guide to the Messier Marathon: A Handbook and Atlas. New York: Springer, 2002. Tabela de localização de M 71/NGC 6838, p. 41, 159 (conferir página impressa).
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de M 71, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.