setembro 22, 2026

Boieiro, o Guardião da Ursa: guia da constelação de Arcturus

Carta estelar de Boieiro como aparece do Brasil olhando para o norte: Arcturus em laranja no alto, Izar e Muphrid ao lado, e Seginus, Nekkar, Alkalurops e Xuange formando o corpo alongado da figura em direção à Coroa Boreal

Se você já usou a Ursa Maior para achar o norte, é bem provável que também já tenha, sem saber, apontado para Boieiro: basta seguir a curva do cabo da Ursa (as três estrelas da "alça da panela") para fora, na mesma curvatura, até esbarrar numa estrela alaranjada e muito brilhante. Essa é Arcturus, a mais luminosa de todo o hemisfério celeste norte, e o motivo pelo qual Boieiro, apesar de não ter quase nenhum objeto de céu profundo digno de nota, continua sendo uma das constelações mais fáceis de reconhecer no céu de outono e inverno do Brasil. Neste guia você vai aprender o truque do "arco até Arcturus", conhecer Izar (uma das duplas mais bonitas do céu para telescópio) e entender por que a figura é tradicionalmente desenhada como um pastor segurando os cães de caça pela coleira, no encalço da Ursa.

O pastor que guarda a Ursa

Boieiro (Boötes, abreviatura Boo) é uma constelação grande e alongada, com cerca de 907 graus quadrados, que se estende de aproximadamente 13h33min a 15h47min de ascensão reta e de +7,6° a +55,2° de declinação (Mourão, verbete Bootes, p. 151). Faz fronteira com Virgem ao sul, Serpente e Coroa Boreal e Hércules a leste, o Dragão e a Ursa Maior ao norte, e os Cães de Caça e a Cabeleira de Berenice a oeste (Mourão, p. 151).

O desenho tradicional é o de um pastor ou boieiro segurando um cajado numa mão e, na outra, as coleiras dos Cães de Caça (Canes Venatici), a constelação vizinha — como se ele estivesse pastoreando ou perseguindo os bois representados pela Ursa Maior logo ao lado (Mourão, p. 151). Daí vêm boa parte dos nomes populares da constelação ao longo da história: Boieiro, Boiadeiro, Caçador, Caçador da Ursa, Guia da Ursa (Mourão, p. 151). Os romanos, por sua vez, associavam a figura a Ícaro, filho do lendário Dédalo com a escrava Naucrata, e o tinham como o inventor dos trabalhos com bois (Mourão, p. 151).

Apesar do tamanho generoso, Boieiro é uma constelação pobre em objetos de céu profundo — não há aqui nada parecido com os aglomerados de Hércules ou do Escorpião. O que a torna memorável é justamente sua estrela principal.

Quando e como achar

Melhor época. Boieiro está centrado perto de 14h37min de ascensão reta, então culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21h locais em meados de junho — praticamente junto com Hércules e a Coroa Boreal, suas vizinhas a leste. A boa temporada de observação vai de abril a agosto: em abril e maio ele já aparece bem no início da noite, em junho e julho fica bem posicionado, e em agosto começa a se inclinar para o poente.

Para onde olhar. Boieiro fica majoritariamente ao norte do equador celeste, e do Brasil culmina voltado para o norte. Arcturus é fácil de achar em qualquer parte do país: mesmo em Porto Alegre, a cidade mais ao sul da nossa tabela, ela sobe acima de 40° de altura.

Cidade Arcturus Izar
Boa Vista (RR) 68° 60°
Manaus (AM) 68° 60°
Recife (PE) 63° 55°
Brasília (DF) 55° 47°
Rio de Janeiro (RJ) 48° 40°
São Paulo (SP) 47° 39°
Porto Alegre (RS) 41° 33°

Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós com as declinações do catálogo do projeto e a latitude de cada cidade; valores arredondados. Boieiro é visível — e alto — em todo o Brasil.

Carta estelar de Boieiro como aparece do Brasil olhando para o norte: Arcturus em laranja no alto, Izar e Muphrid ao lado, e Seginus, Nekkar, Alkalurops e Xuange formando o corpo alongado da figura em direção à Coroa Boreal
Carta estelar de Boieiro como aparece do Brasil ao olhar para o norte: o norte fica embaixo e o leste à direita. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial, e o contorno tracejado é o limite oficial da constelação. Em verde-claro, o objeto de céu profundo citado neste artigo. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo — o "arco até Arcturus".

  1. Ache a Ursa Maior e localize a "alça da panela" (o cabo do Carro, três estrelas curvas na ponta da constelação).
  2. Siga a curva dessas três estrelas para fora, mantendo o mesmo arco — é a técnica clássica conhecida em inglês como "arc to Arcturus" (Moore, Observer's Year, p. 176-177).
  3. A primeira estrela brilhante e claramente alaranjada que você encontrar nessa direção é Arcturus. Não tem como confundir: é a mais brilhante de toda essa região do céu.
  4. A partir de Arcturus, o corpo da constelação se estende para o lado da Coroa Boreal (a "pipa" alongada de Boieiro): Izar e Muphrid ficam mais perto de Arcturus, e Seginus, Nekkar e Alkalurops completam a figura na direção de Hércules.

As estrelas de Boieiro

Estrela Posição Brilho visual (mag.) Tipo espectral / cor Distância aproximada
Arcturus (alfa) a mais brilhante -0,05 K1,5 III (gigante laranja) cerca de 37 anos-luz
Izar (épsilon) dupla colorida 2,35 gigante laranja + companheira não conferida nesta sessão
Muphrid (eta) perto de Arcturus 2,68 amarelo-branca não conferida nesta sessão
Seginus (gama) corpo da figura 3,04 branco-amarelada não conferida nesta sessão
Nekkar (beta) ombro 3,49 amarela não conferida nesta sessão
Xuange (lambda) perna 4,18 branca não conferida nesta sessão
Alkalurops (mi¹) cajado 4,31 amarelada não conferida nesta sessão

Brilhos e cores (índice B-V) do catálogo do projeto. As distâncias precisas por paralaxe não foram conferidas no SIMBAD nesta sessão para a maioria das estrelas, exceto Arcturus (valor de referência amplamente citado) — ver pendências.

Arcturus é a quarta estrela mais brilhante do céu noturno inteiro (atrás só de Sirius, Canopus e Rigil Kentaurus/Alfa Centauri) e a mais brilhante de todo o hemisfério celeste norte — visível de praticamente qualquer lugar habitado da Terra (Moore, Observer's Year, p. 176-177). É uma gigante laranja com diâmetro estimado em cerca de 20 milhões de milhas (Moore, p. 177-178), já citada por autores da Antiguidade, como Hipócrates (por volta de 460 a.C.) e Plínio, o Velho. Arcturus tem um movimento próprio relativamente rápido e está se aproximando do Sistema Solar; Moore observa que, em cerca de meio milhão de anos, ela deixará de ser visível a olho nu, tamanha a velocidade com que se desloca pelo céu (Observer's Year, p. 177-178).

Izar (Épsilon Boötis) é uma das duplas mais admiradas do céu para pequenos telescópios: uma componente laranja e uma companheira que parece esverdeada por contraste, separadas por cerca de 2,8 segundos de arco, com a secundária de magnitude 4,9 (Moore, Observer's Year, p. 181). É um desafio elegante — a separação é pequena o bastante para exigir boa ótica e noite estável, mas o contraste de cores compensa o esforço.

Muphrid (Eta Boötis), fica bem perto de Arcturus no céu, formando com ela um par de referência fácil de identificar.

A estrela de 1860. Perto de Arcturus, o observador britânico Joseph Baxendell relatou, em 1860, uma estrela que teria variado de magnitude 9,7 a 12,8 antes de desaparecer — um mistério catalogado depois como T Boötis. O relato é antigo e curioso, mas não foi possível confirmar aqui a identificação moderna do objeto (Moore, Observer's Year, p. 180-181).

Um alvo de telescópio maior: NGC 5466

O catálogo do site lista um único objeto de céu profundo em Boieiro: NGC 5466, um aglomerado globular fraco, de magnitude 9,7 e cerca de 6,6 minutos de arco, perto da borda oeste da constelação, na direção da Cabeleira de Berenice. É um alvo modesto — comparado a M 13 (em Hércules) ou aos grandes globulares do céu do sul, como Ômega Centauri, ele é pequeno e disperso, e exige um telescópio de porte médio e céu escuro para ser apreciado. Não é um objeto de binóculo.

Fora esse globular, Boieiro simplesmente não tem nebulosas, aglomerados abertos ou galáxias brilhantes o bastante para entrar no roteiro padrão de observação — é uma constelação que vale pela estrela principal e pelas duplas, não pelo céu profundo.

Duplas para telescópio pequeno

Além de Izar, Boieiro tem outras duplas interessantes para quem gosta desse tipo de alvo: Xi Boötis, um par de magnitudes 4,7 e 6,8 com separação de cerca de 6,6 segundos de arco, e Mu Boötis, mais aberta, com separação de cerca de 171 segundos de arco — fácil até em binóculo (Moore, Observer's Year, p. 181).

Mitologia e história

A ligação de Boieiro com a Ursa Maior é o núcleo de quase todas as leituras mitológicas da constelação: ele é o pastor, caçador ou guardião que persegue ou cuida dos "bois" representados pela Ursa, segurando os Cães de Caça pela coleira como se fossem farejar o animal (Mourão, verbete Bootes, p. 151). É uma das muitas constelações cuja "história" é, na prática, mais sobre a posição no céu — sempre em perseguição da Ursa, girando ao redor do polo norte celeste junto com ela — do que sobre um mito narrativo fechado, como o de Órion ou o de Perseu.

Vale registrar também Quadrans Muralis, uma constelação hoje extinta que ocupava parte do que é hoje o canto norte de Boieiro, perto do Dragão. Ela não sobreviveu à revisão de constelações oficiais da União Astronômica Internacional em 1930, mas deixou uma marca duradoura: dá nome à chuva de meteoros das Quadrântidas, uma das mais intensas do ano, cujo radiante ainda fica nessa região do céu (Moore, Observer's Year, p. 181-182).

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu Arcturus, encontrada pelo arco do cabo da Ursa Maior; a cor alaranjada nítida da estrela; o formato alongado de "pipa" da constelação.
Binóculo (10×50) Mu Boötis como dupla aberta; o campo em volta de Arcturus; NGC 5466 como uma mancha muito fraca, em céu bem escuro.
Telescópio pequeno (70 a 100 mm) Izar separada em suas duas componentes, laranja e esverdeada; Xi Boötis, outra dupla de cores contrastantes.
Telescópio médio (150 mm ou mais) NGC 5466 começando a mostrar textura granulada nas bordas.

Dicas de campo:

  • Pratique o "arco até Arcturus" a partir da Ursa Maior — é uma das técnicas de orientação mais úteis do céu, e depois de aprendida nunca mais se esquece.
  • Compare a cor de Arcturus com a de outras estrelas alaranjadas do céu, como Antares (Escorpião) ou Aldebaran (Touro).
  • Aponte para Izar com calma, em noite de ar estável (pouca turbulência atmosférica): a separação é pequena, e vale a pena usar um aumento maior do que o habitual.
  • De Boieiro, é fácil "pular" para as constelações vizinhas: a Coroa Boreal fica logo a leste, e Hércules um pouco mais além.

Referências

  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Noites de 6, 7, 10, 11, 12 e 13 de junho (Arcturus, T Boo, Izar, Xi Boo, Mu Boo, Quadrans Muralis), p. 176-182.
  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Bootes", p. 151.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos e cores (índice B-V) via catálogo HYG v4.1 do projeto; distâncias por paralaxe não conferidas diretamente nesta sessão para a maioria das estrelas (ver pendências).
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.