setembro 22, 2026
Coroa Austral: guia do pequeno arco de estrelas aos pés do Sagitário

A Coroa Austral é um arco pequeno e discreto de estrelas de brilho moderado, curvado como uma grinalda, bem aos pés de Sagitário. Não tem nenhuma estrela de destaque nem mitologia bem documentada nas fontes deste guia — ao contrário de sua "prima" do hemisfério norte, a Coroa Boreal, ligada ao mito de Ariadne —, mas compensa isso pela localização: fica mergulhada num dos trechos mais ricos da Via Láctea, perto do centro da Galáxia, com uma pequena nebulosa de reflexão em forma de cometa e um aglomerado globular pouco fotografado. Este guia mostra como achar a Coroa Austral a partir do "bule" de Sagitário e leva você aos dois objetos de céu profundo já catalogados nela pelo site.
Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.
Um arco discreto na borda da Via Láctea
A Coroa Austral (Corona Australis, também Corona Austrina, abreviatura CrA) ocupa cerca de 128 graus quadrados do céu, uma das menores constelações — Mourão a descreve como ficando "no bordo da Via Láctea, atrás do dardo do Escorpião" (Mourão, verbete Corona Australis, p. 241), numa referência à posição da constelação em relação à cauda do Escorpião, logo a oeste. Suas vizinhas são Sagitário ao norte, o Escorpião a noroeste, o Altar (Ara) a oeste e ao sul, e o Telescópio ao sul e a leste.
Ao contrário de quase toda constelação com "coroa" no nome, a Coroa Austral não carrega uma história mitológica bem documentada nas fontes consultadas para este guia. A Coroa Boreal, no hemisfério norte, tem o mito bem contado de Ariadne e a grinalda que Dioniso (Baco) lançou ao céu; já para a Coroa Austral, as fontes disponíveis não trazem um relato equivalente — é provável que, na Antiguidade, ela fosse vista apenas como uma grinalda ou coroa genérica, sem uma narrativa própria que tivesse sobrevivido com clareza até os livros de referência usados aqui. Preferimos registrar essa lacuna a inventar uma história.
O que a Coroa Austral tem de sobra é vizinhança rica: ela fica bem perto do centro da Via Láctea, na mesma região de Sagitário e Escorpião, um dos trechos mais densos de estrelas, gás e poeira do céu.
Quando e como achar
Melhor época. A Coroa Austral está centrada perto de 18h 40min de ascensão reta, então culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21h locais em meados de setembro. A boa temporada acompanha a de Sagitário, indo de junho a outubro.
Para onde olhar. Do Rio de Janeiro, Meridiana passa a cerca de 75° de altura, quase no zênite — uma das posições mais favoráveis de todo este guia. A carta abaixo mostra o céu olhando para o sul, com o norte para cima e o leste à esquerda.
| Cidade | Altura máxima de Meridiana |
|---|---|
| Boa Vista (RR) | 49° |
| Manaus (AM) | 55° |
| Recife (PE) | 60° |
| Brasília (DF) | 68° |
| Rio de Janeiro (RJ) | 75° |
| São Paulo (SP) | 76° |
| Porto Alegre (RS) | 82° |
Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós com a declinação de Meridiana (SIMBAD/HYG, −37,9°) e a latitude de cada cidade; valores arredondados. A Coroa Austral é bem visível do Brasil inteiro, passando muito perto do zênite no Sul e no Sudeste.

Passo a passo.
- Ache Sagitário e localize Kaus Australis, a estrela da base do "bule" da constelação.
- A Coroa Austral fica logo ao sul dali, um arco curvo e discreto de estrelas de 4ª a 5ª magnitude — nenhuma delas é fácil de ver em céu com poluição luminosa, mas o formato em arco ajuda a reconhecer a constelação quando ela aparece.
- Meridiana, a mais brilhante, fica na ponta noroeste do arco, perto da fronteira com Sagitário.
- A pequena nebulosa NGC 6729 fica bem perto de Meridiana, na mesma ponta do arco; o globular NGC 6541 fica mais a oeste, já perto da fronteira com o Altar e o Telescópio.
As estrelas da Coroa Austral
| Estrela | Brilho visual (mag.) | Tipo espectral |
|---|---|---|
| Meridiana (alfa) | 4,11 | A-tipo (branca) |
| Beta CrA | 4,10 | K-tipo (gigante alaranjada) |
| Gama CrA | 4,23 | F-tipo (branco-amarelada) |
| Delta CrA | 4,57 | K-tipo (gigante alaranjada) |
| Teta CrA | 4,62 | K-tipo (gigante alaranjada) |
| Zeta CrA | 4,74 | B-tipo (branco-azulada) |
Brilhos e tipos espectrais consultados no HYG/catálogo do site (essencialmente dados de paralaxe Hipparcos/Gaia via SIMBAD).
Meridiana, a alfa da Coroa Austral, é a única estrela da constelação com nome próprio registrado nas fontes consultadas — e mesmo assim, um nome moderno, ligado ao uso da estrela em navegação e não a uma tradição mitológica antiga. Com magnitude 4,11, é apenas ligeiramente mais brilhante que Beta CrA (4,10): as duas estão, na prática, empatadas, o que é coerente com o aspecto do arco, quase uniforme em brilho ao longo de toda a sua extensão. Nenhuma das outras estrelas do arco (Beta, Gama, Delta, Teta, Zeta) tem nome próprio registrado nas fontes consultadas para este guia.
Objetos de céu profundo: uma nebulosa-cometa e um globular pouco fotografado
Ao preparar este guia, encontramos um problema de catalogação interno do projeto: a ferramenta que lista automaticamente os objetos de uma constelação não encontrou nenhum dentro da Coroa Austral, porque o catálogo de objetos do site grava a constelação como "Corona Australis", enquanto o catálogo de nomes de constelações usa "Corona Austrina" — duas formas latinas alternativas da mesma constelação, mas que não coincidem letra por letra na comparação automática. Na prática, existem pelo menos dois objetos do catálogo do site dentro da Coroa Austral, que inserimos manualmente na carta e no texto a partir dos dados corretos.
NGC 6729, a nebulosa-cometa de R Coronae Australis
A NGC 6729 (Caldwell 68) é uma pequena nebulosa de reflexão, com pouco mais de 1′ de comprimento, que se estende como uma cauda de cometa a partir da estrela variável e jovem R Coronae Australis. Sozinha, é um objeto discreto — Mobberley chega a chamá-la de "meio sem graça" —, mas ela faz parte de um campo bem mais rico: ao lado ficam outras duas nebulosas de reflexão (NGC 6726 e NGC 6727), uma nuvem escura enorme (Bernes 157) que bloqueia boa parte das estrelas de fundo, e o globular NGC 6723 (já do lado da fronteira com Sagitário). Fica a cerca de 410 anos-luz, pela paralaxe da estrela que a ilumina.
NGC 6541, o globular esquecido pelos fotógrafos
O NGC 6541 (Caldwell 78) é um aglomerado globular de magnitude entre 6 e 7 (as fontes divergem), a cerca de 22.500 anos-luz de distância, com um núcleo bem compacto e um halo externo com bordas irregulares. Mobberley o descreve como "de certa forma negligenciado pelos fotógrafos" — talvez por ficar um pouco isolado do restante das atrações mais famosas de Sagitário e do Escorpião. Ainda assim, é um bom alvo de telescópio pequeno a médio, e um bonito globular do hemisfério sul.
Roteiro de observação
| Instrumento | O que ver |
|---|---|
| A olho nu | O arco discreto da Coroa Austral, logo ao sul do "bule" de Sagitário; difícil em céu urbano, mas satisfatório em céu escuro. |
| Binóculo (10×50) | O globular NGC 6723, na fronteira com Sagitário, como uma manchinha redonda; o campo de nebulosas em torno de R CrA é mais discreto. |
| Telescópio pequeno (100 a 150 mm) | A névoa em torno da estrela de NGC 6726/6727 e, com céu bom, um traço da nebulosa-cometa NGC 6729; o globular NGC 6541 como um brilho circular. |
| Telescópio de 250 mm ou mais | NGC 6541 começa a resolver estrelas individuais; o "cone" de NGC 6729 fica mais nítido, com uma estrela fraca na ponta. |
Dicas de campo:
- Escolha uma noite sem Lua entre junho e outubro; a Coroa Austral passa perto do zênite no Sul e no Sudeste do Brasil, uma posição ótima para minimizar a turbulência atmosférica.
- Use Kaus Australis, em Sagitário, como ponto de partida — é bem mais fácil de achar do que qualquer estrela da própria Coroa Austral.
- Reserve tempo extra para o campo de nebulosas em torno de R CrA: é uma região para "passear" devagar com baixo aumento, não para procurar um único alvo isolado.
Referências
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 68 (NGC 6729), p. 144-145; Caldwell 78 (NGC 6541), p. 164-165.
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Coroa Austral e NGC 6541, p. 215.
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Corona Australis", p. 241.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos, tipos espectrais e paralaxes, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.