setembro 22, 2026

Compasso: guia da pequena constelação que Lacaille desenhou perto do polo sul

Carta estelar do Compasso como aparece do Brasil, olhando para o sul: uma constelação pequena e discreta encravada entre o Triângulo Austral e o Centauro, sem estrelas de nome próprio, e o aglomerado NGC 5823 marcado em verde na fronteira com o Esquadro

O Compasso é uma das constelações mais modestas do céu: pequena, fraca, sem nenhuma estrela de nome próprio e quase sem menção nos livros de referência em português. E, ainda assim, ela cumpre um papel simples e honesto — junto com outras 13 constelações que o abade francês Nicolas-Louis de Lacaille desenhou no século 18, ela preenche um pedaço do céu austral que os antigos gregos nunca chegaram a ver. Neste guia você vai aprender a achar o Compasso no céu do Brasil, entender por que ele quase não tem história para contar, e conhecer o único objeto de céu profundo do catálogo do site dentro de seus limites.

Uma constelação pequena, perto do polo sul celeste

O Compasso (Circinus, abreviatura Cir) é uma das menores constelações do céu, com apenas 93 graus quadrados, situada bem perto do polo sul celeste (Mourão, verbete Circinus, p. 171). Fica encravada dentro dos limites do Centauro e do Triângulo Austral: ao sul faz fronteira com a Ave do Paraíso, a oeste com a Mosca e o Centauro, ao norte com o Lobo e a leste com o Esquadro e o Triângulo Austral (Mourão, p. 171). Por ficar tão perto do polo, ela é circumpolar para praticamente todo o Brasil — nunca se põe, embora também nunca suba muito alto.

Mourão registra que a constelação foi criada pelo abade Nicolas-Louis de Lacaille em 1752, durante sua expedição ao Cabo da Boa Esperança, onde catalogou milhares de estrelas do céu austral e batizou 14 novas constelações com nomes de instrumentos científicos e técnicos da época (Mourão, p. 171). O Compasso representa justamente um compasso de desenho técnico — o instrumento usado para traçar círculos e medir distâncias em um papel —, e fica de propósito ao lado do Esquadro (Norma) e do Triângulo Austral, formando junto com eles um pequeno "kit de desenho" no céu.

Sem mitologia antiga. Diferente de constelações como o Centauro ou o Lobo, herdadas da Antiguidade grega e cheias de lendas, o Compasso não carrega nenhuma história mitológica: é uma criação moderna, de finalidade puramente catalográfica, batizada em homenagem à ciência e à técnica de seu tempo. Não há herói, animal ou monstro para contar — só um instrumento de desenho, colocado no céu por um astrônomo que precisava de nomes para as estrelas que via e que ninguém no hemisfério norte tinha catalogado antes.

Quando e como achar

Melhor época. O centro do Compasso culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21 horas locais em meados de junho, no coração do inverno austral — mesma época boa para observar o Lobo e o Triângulo Austral, que ficam ao lado. Como é uma constelação circumpolar para o Brasil, ela tecnicamente pode ser observada em qualquer época do ano, mas fica melhor posicionada (mais alta e mais tempo visível à noite) no inverno.

Para onde olhar. O Compasso fica bem perto do polo sul celeste: do Brasil, ele culmina voltado para o sul, e a carta abaixo mostra o céu nessa direção, com o norte para cima e o leste para a esquerda.

Cidade Alfa Circini NGC 5823
Boa Vista (RR) 22° 32°
Manaus (AM) 28° 38°
Recife (PE) 33° 42°
Brasília (DF) 41° 50°
Rio de Janeiro (RJ) 48° 57°
São Paulo (SP) 49° 58°
Porto Alegre (RS) 55° 64°

Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós com as declinações do SIMBAD e a latitude de cada cidade; valores arredondados. O Compasso é visível de todo o Brasil, embora nunca suba muito alto.

Carta estelar do Compasso como aparece do Brasil, olhando para o sul: uma constelação pequena e discreta encravada entre o Triângulo Austral e o Centauro, sem estrelas de nome próprio, e o aglomerado NGC 5823 marcado em verde na fronteira com o Esquadro
Carta estelar do Compasso como ele aparece do Brasil ao olhar para o sul: o norte fica em cima e o leste à esquerda. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial. A linha tracejada dourada larga é o limite oficial da constelação. Em verde-claro, o objeto de céu profundo citado neste artigo. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo.

  1. Localize primeiro o Triângulo Austral, um pequeno triângulo bem definido de três estrelas de brilho médio, e Alfa e Beta Centauri, os Ponteiros do Cruzeiro do Sul.
  2. O Compasso fica espremido entre os dois, uma faixa estreita e comprida de estrelas fracas — não espere um desenho fácil de reconhecer.
  3. Alfa Circini, a estrela mais brilhante da constelação (magnitude 3,2), é o melhor ponto de partida: fica na Via Láctea, ao lado dos Ponteiros do Centauro.
  4. NGC 5823 fica no canto norte da constelação, perto da fronteira com o Esquadro e o Lobo.

As estrelas do Compasso

Estrela Brilho visual (mag.) Tipo espectral Distância aproximada
Alfa Circini 3,18 A7 Vp (variável) cerca de 54 anos-luz
Beta Circini 4,07 A3 Va cerca de 100 anos-luz
Gama Circini 4,48 dupla cerca de 500 anos-luz
Epsilon Circini 4,85 K2 III (gigante laranja) cerca de 400 anos-luz

Brilhos, tipos espectrais e paralaxes consultados no SIMBAD (CDS, Estrasburgo). Nenhuma estrela do Compasso tem nome próprio reconhecido pela IAU; todas são identificadas só pela letra grega.

Nenhuma estrela do Compasso tem nome próprio — assim como no Lobo, é uma constelação sem nomenclatura tradicional, o que é esperado numa figura moderna sem herança mitológica antiga. Mourão registra que Alfa Circini, a mais brilhante, de magnitude 3,4 (valor próximo aos 3,18 do SIMBAD), fica em plena Via Láctea (Mourão, p. 171) — o que a coloca num campo estelar relativamente rico para binóculo, apesar do brilho modesto da própria estrela. Beta e Gama Circini, mais fracas, formam o resto do desenho que dá nome à constelação: as "duas pontas do compasso", nas palavras de Mourão (p. 171).

Um objeto de céu profundo: NGC 5823

O único DSO do catálogo do site dentro dos limites do Compasso é o NGC 5823 — aglomerado do Compasso, um aglomerado aberto discreto, de magnitude 7,9, perto da fronteira com o Lobo. Não é um objeto espetacular — o guia dedicado a ele já nota que o vizinho NGC 5822, do outro lado da fronteira em Lupus, é bem mais rico —, mas é um alvo razoável de telescópio pequeno em céu escuro, e vale a visita para quem já está na região observando o Triângulo Austral e o Centauro.

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu O campo estelar da Via Láctea ao redor de Alfa Circini; a constelação em si não forma um desenho fácil de reconhecer.
Binóculo (10×50) Alfa Circini e o campo rico de estrelas da Via Láctea ao seu redor.
Telescópio pequeno (70 a 100 mm) NGC 5823 como uma mancha de estrelas fracas, melhor em céu bem escuro.

Dicas de campo:

  • Escolha uma noite sem Lua entre maio e agosto, em céu escuro e com boa visão do horizonte sul.
  • Use o Triângulo Austral e os Ponteiros do Centauro como referências para achar a região.
  • Não espere um objeto de destaque: o Compasso é uma constelação de "preencher o mapa", útil para quem quer catalogar as 88 constelações, não um alvo de observação prioritário.

Referências

  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Circinus", p. 171.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos, tipos espectrais e paralaxes, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.