setembro 22, 2026

Camaleão: guia da pequena constelação escondida perto do polo sul celeste

Carta estelar do Camaleão como aparece do Brasil, olhando para o sul: um losango fraco de estrelas de 4ª magnitude, quase sem rótulos porque nenhuma delas tem nome próprio, e a nebulosa planetária NGC 3195 marcada em verde perto do centro

O Camaleão é um daqueles nomes que prometem mais do que o céu entrega: não há réptil nenhum ali, só um punhado de estrelas fracas, nenhuma acima da 4ª magnitude, formando um losango alongado e discreto a poucos graus do polo sul celeste. É uma das doze constelações batizadas pelos navegadores holandeses Pieter Dirkszoon Keyser e Frederick de Houtman no fim do século XVI, parte de um "bestiário" de animais exóticos vistos em viagens pelo Índico e pelo Pacífico — ao lado de vizinhas como Tucano, Dourado, Peixe-Voador, Ave-do-Paraíso e a própria Mosca, que fica colada a ela no céu.

Não é uma constelação para impressionar a olho nu. Ocupa cerca de 132 graus quadrados (Mourão, verbete Chamaeleon, p. 201), o que a deixa entre as menores do céu, e sua estrela mais brilhante, alfa Chamaeleontis, tem magnitude 4,05 — visível em céu escuro, mas nada que chame atenção de longe. O que a torna interessante para quem já está lá, no fundo do céu austral, é justamente a vizinhança: fica espremida entre a Via Láctea rica de Carina, o Cruzeiro do Sul (via a pequena Mosca) e o polo sul celeste, cercada por outras criações fracas dos mesmos cartógrafos holandeses.

Vizinhas do Camaleão, pelos limites oficiais da IAU: Carina (Carena) ao norte, Mosca a leste, Ave-do-Paraíso e Oitante ao sul, e Mesa e Peixe-Voador a oeste. É, portanto, uma constelação cercada de constelações igualmente obscuras — um bom lembrete de que nem todo canto do céu tem uma "estrela famosa" para ancorar a vista.

Quando e como achar

Melhor época. O Camaleão está centrado perto de 10h 30min de ascensão reta, então culmina (chega ao ponto mais alto) por volta das 21h locais em meados de março, mas — como é uma constelação austral profunda, perto do polo sul celeste — na prática ela fica no céu (embora baixa) em praticamente qualquer noite do ano, de qualquer ponto do Brasil ao sul do Equador, mudando apenas de posição ao redor do polo.

Para onde olhar. Do Brasil, o Camaleão nunca sobe muito alto: mesmo do extremo sul do país, ele fica sempre relativamente baixo no horizonte sul. A carta abaixo mostra o céu olhando para o sul, com o norte para cima e o leste à esquerda.

Cidade Altura de alfa Cha (mag. 4,05) Altura de NGC 3195
Boa Vista (RR) 10° 6°
Manaus (AM) 16° 12°
Recife (PE) 21° 17°
Brasília (DF) 29° 25°
Rio de Janeiro (RJ) 36° 32°
São Paulo (SP) 37° 33°
Porto Alegre (RS) 43° 39°

Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós com a declinação de alfa Cha e do centro da constelação (SIMBAD) e a latitude de cada cidade; valores arredondados. O Camaleão é visível de todo o Brasil, mas sempre baixo — mais alto quanto mais ao sul, o oposto do padrão das constelações do zodíaco.

Carta estelar do Camaleão como aparece do Brasil, olhando para o sul: um losango fraco de estrelas de 4ª magnitude, quase sem rótulos porque nenhuma delas tem nome próprio, e a nebulosa planetária NGC 3195 marcada em verde perto do centro
Carta estelar do Camaleão como ele aparece do Brasil ao olhar para o sul: o norte fica em cima e o leste à esquerda. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial. O contorno tracejado é o limite oficial da constelação. Em verde-claro, o objeto de céu profundo citado neste artigo. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo.

  1. Comece pelo Cruzeiro do Sul e pelos Ponteiros (Alpha e Beta do Centauro); logo depois deles, para o lado do polo (mais ao sul), fica a pequena Mosca.
  2. Continue na mesma direção, afastando-se ainda mais do Cruzeiro: o Camaleão é o próximo losango fraco de estrelas, entre a Mosca e o polo sul celeste.
  3. Sem uma estrela guia forte dentro da própria constelação, o caminho mais confiável é "descer" a partir de Carina — a extremidade sul da Via Láctea rica dessa constelação aponta quase direto para o Camaleão.
  4. Em céu urbano, o losango das quatro estrelas principais pode não ser visível a olho nu; um binóculo ajuda a fechar a figura.

As estrelas do Camaleão

Estrela Brilho visual (mag.) Tipo espectral Distância aproximada
Alfa Chamaeleontis 4,05 F5 V (subgigante branco-amarelada) cerca de 64 anos-luz
Gama Chamaeleontis 4,11 K4 III (gigante alaranjada) cerca de 440 anos-luz
Beta Chamaeleontis 4,23 B4 V (branco-azulada) cerca de 305 anos-luz
Teta Chamaeleontis 4,34 K2 III (gigante alaranjada) cerca de 150 anos-luz
Delta 2 Chamaeleontis 4,45 B3 V (branco-azulada) cerca de 375 anos-luz
Épsilon Chamaeleontis 4,88 B9 V (branco-azulada) cerca de 360 anos-luz

Brilhos, tipos espectrais e paralaxes consultados no SIMBAD (CDS, Estrasburgo) nesta sessão; distâncias calculadas a partir da paralaxe. Nenhuma das seis estrelas principais do Camaleão tem nome próprio reconhecido pela IAU — por isso a carta acima não traz rótulos de estrela, só a designação de Bayer usada aqui no texto.

Nenhuma estrela do Camaleão passa da 4ª magnitude, e é por isso que a constelação não aparece em nenhuma lista de "estrelas famosas" — mas o pequeno grupo tem uma mistura interessante de tipos. Alfa é a mais próxima e a mais parecida com o Sol em temperatura, uma subgigante branco-amarelada a pouco mais de 60 anos-luz. Gama e teta, ao contrário, são gigantes alaranjadas bem mais distantes e mais luminosas — o tipo de estrela que já esgotou o hidrogênio do núcleo e inchou. Beta, delta 2 e épsilon são estrelas jovens, quentes e azuladas, típicas de uma constelação sem nenhum vínculo físico entre suas estrelas: como em quase todas as figuras do céu, o desenho é um efeito de perspectiva, não um agrupamento real.

Perto da estrela delta 1 Chamaeleontis, fora da lista acima por ser mais fraca (magnitude 5,5), fica o Aglomerado Eta Chamaeleontis, um agrupamento jovem — com idade estimada em 8 a 10 milhões de anos e distância de cerca de 316 anos-luz — descoberto só em 1999 por observações de raios X. Não tem entrada própria no catálogo de objetos do site e não está marcado na carta deste guia, mas é um dos poucos "clusters" de formação estelar recente conhecidos tão perto do Sol, e vale menção como curiosidade de quem estuda a região.

Objeto de céu profundo: a planetária do fim do catálogo

O único objeto do catálogo do site dentro dos limites do Camaleão é a nebulosa planetária NGC 3195 (Caldwell 109), a última entrada da lista Caldwell de Patrick Moore — organizada por declinação decrescente, e NGC 3195 é o item mais austral de todos, a apenas 9° do polo sul celeste. É pequena (cerca de 40″) e fraca (magnitude 11,6), um alvo para telescópio médio a grande, mas com brilho superficial relativamente alto para o tamanho. O guia completo dela, linkado acima, traz o passo a passo de localização a partir de delta Chamaeleontis e o roteiro de observação por instrumento.

Mitologia e história: um bestiário sem mito

O Camaleão não carrega mitologia clássica — é uma constelação moderna, sem herói grego nem monstro babilônico por trás. Keyser e de Houtman a criaram, junto com outras dez figuras austrais, a partir de observações feitas em viagens comerciais holandesas ao Oriente pelo fim do século XVI; o desenho apareceu publicado por Johann Bayer em seu atlas Uranometria, em 1603. A escolha do nome segue o padrão do grupo: um animal exótico, real ou lendário, que os navegadores associavam às terras que exploravam — nesse caso, o réptil capaz de mudar de cor, sem relação alguma com a fauna do hemisfério norte, de onde vinham os observadores anteriores.

Mourão registra o Camaleão como um desenho simples — quatro estrelas formando um losango alongado — e sem tradição de histórias associadas. É, em outras palavras, uma constelação de mapa, não de fogueira: existe para preencher uma lacuna no céu que os catálogos antigos, feitos no hemisfério norte, deixavam em branco, mais do que para contar uma história.

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu Em céu bem escuro e sem Lua, o losango fraco das quatro estrelas principais; um desafio de percepção mais do que um espetáculo.
Binóculo (10×50) O losango completo, incluindo delta 1 e delta 2, e o campo de estrelas da Via Láctea próxima, do lado de Carina.
Telescópio pequeno a médio (150 a 250 mm) NGC 3195 como um pequeno disco esverdeado; com mais abertura, um leve alongamento na forma.
Câmera de campo largo O Camaleão junto com a Mosca e a extremidade sul da Via Láctea de Carina, para mostrar o contexto da região perto do polo.

Dicas de campo:

  • Escolha uma noite sem Lua e um horizonte sul bem limpo — o Camaleão nunca sobe muito alto, mesmo no Sul do Brasil.
  • Use o Cruzeiro do Sul e a Mosca como ponto de partida; sem eles, é fácil se perder entre as constelações fracas dessa região do céu.
  • Não espere formas nítidas a olho nu: é um exercício de reconhecimento de padrão em céu escuro, não uma figura chamativa.

Referências

  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Chamaeleon", p. 201.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos, tipos espectrais e paralaxes das estrelas alfa, beta, gama, delta 2, épsilon e teta Chamaeleontis, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.