setembro 22, 2026

Voos tripulados: de Gagarin à Mir

Entre abril de 1961 e o fim dos anos 1980, a humanidade passou de "nunca ter saído da Terra" a manter, de forma quase contínua, seres humanos vivendo em órbita. Nesse intervalo de menos de trinta anos, coube a apenas um punhado de pessoas — a maioria delas homens, soviéticos ou americanos, nos primeiros anos — abrir cada uma das portas seguintes: a primeira órbita, a primeira caminhada no vácuo, o primeiro encontro entre duas naves, o primeiro pouso lunar, a primeira mulher, o primeiro estrangeiro, a primeira longa temporada em uma estação espacial. Este artigo percorre essa sequência de "primeiras vezes", da Vostok 1 à Mir.

Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.

Vostok e Mercury: quem chega primeiro?

A corrida para colocar um ser humano em órbita opôs, de novo, a União Soviética e os Estados Unidos, cada um com seu próprio programa de cápsulas. Do lado soviético, a Vostok era uma esfera simples que reentrava na atmosfera com o cosmonauta ejetando-se e descendo de paraquedas separadamente da cápsula (um detalhe que a União Soviética escondeu por anos, para que o voo pudesse ser homologado pela Federação Aeronáutica Internacional como um pouso "dentro" da nave). Do lado americano, o programa Mercury usava uma cápsula cônica menor, pousada no oceano com o astronauta ainda dentro.

Em 12 de abril de 1961, Yuri Gagarin, um piloto de caça de 27 anos, tornou-se o primeiro ser humano a orbitar a Terra a bordo da Vostok 1, completando uma volta ao planeta em 1 hora e 48 minutos. O voo, mantido em sigilo quase até o lançamento, foi anunciado ao mundo horas depois pela agência soviética TASS, causando um choque comparável ao do Sputnik, quatro anos antes. Gagarin se tornou um herói mundial instantâneo — e, tragicamente, morreria sete anos depois, em 1968, num acidente de treinamento com um caça a jato, enquanto se preparava para voltar ao espaço.

Menos de um mês depois, em 5 de maio de 1961, o americano Alan Shepard fez um voo suborbital de cerca de 15 minutos a bordo da cápsula Freedom 7 — não chegou a completar uma órbita, mas foi o primeiro americano no espaço. Virgil "Gus" Grissom repetiu o feito em julho do mesmo ano. Só em 20 de fevereiro de 1962 os Estados Unidos colocariam um astronauta em órbita completa: John Glenn, a bordo da Friendship 7, deu três voltas à Terra em cerca de 4 horas e 55 minutos.

Sergei Korolev, o "chefe-projetista" por trás do programa soviético, permaneceu praticamente anônimo para o público até depois de sua morte, em 1966 — uma decisão de segurança do Estado soviético que privou, em vida, o engenheiro do reconhecimento internacional dado a Wernher von Braun, seu equivalente do lado americano.

Gemini: as técnicas que tornariam a Lua possível

Depois da euforia inicial, ficou claro que pousar na Lua exigiria dominar técnicas que nem soviéticos nem americanos ainda tinham: caminhar no vácuo, encontrar e acoplar duas naves em órbita, e sustentar uma tripulação por semanas seguidas. A resposta soviética veio com a Voskhod, uma versão adaptada da Vostok; a americana, com o programa Gemini, feito sob medida para dois tripulantes.

Em 18 de março de 1965, o cosmonauta Alexei Leonov saiu da Voskhod 2 e se tornou a primeira pessoa a "caminhar" no espaço, preso à nave por um cabo umbilical, por cerca de 12 minutos — um feito perigoso: seu traje se inflou tanto no vácuo que ele quase não conseguiu voltar para dentro da cápsula pela escotilha, um detalhe que só veio a público muito depois do voo. Menos de três meses depois, em 3 de junho de 1965, o americano Edward White repetiu a proeza a bordo da Gemini 4, por cerca de 20 minutos, tornando-se o primeiro americano a sair de uma espaçonave em órbita.

O programa Gemini também resolveu o problema do encontro orbital: em dezembro de 1965, as cápsulas Gemini 6 e 7 se aproximaram a poucos metros uma da outra em órbita — a primeira vez que duas naves tripuladas se encontravam no espaço —, com a Gemini 7 permanecendo em órbita por quase 14 dias (330 horas e 35 minutos), um recorde de resistência que testou os limites do corpo humano em microgravidade e foi decisivo para planejar as futuras missões Apollo.

Apollo: da órbita lunar ao primeiro passo

Em maio de 1961, pouco depois do voo de Gagarin e do de Shepard, o presidente americano John F. Kennedy anunciou o compromisso de levar um homem à Lua "antes do fim desta década" — uma meta ousada, dado que os Estados Unidos ainda não tinham colocado sequer um astronauta em órbita completa. O programa Apollo nasceu dessa promessa.

Depois de uma série de testes não tripulados e do trágico incêndio da Apollo 1, que matou os três astronautas ainda em solo durante um treino em 1967, a Apollo 8 deu, em 21 de dezembro de 1968, o primeiro voo tripulado a orbitar a Lua — sem pousar, mas provando que a viagem era segura. Sete meses depois, em 16 de julho de 1969, a Apollo 11 decolou rumo à Lua, e em 21 de julho, às 2h56min (Tempo Universal), Neil Armstrong tornou-se o primeiro ser humano a pisar em outro corpo celeste, seguido, minutos depois, por Buzz Aldrin, enquanto Michael Collins permanecia em órbita lunar no módulo de comando, sozinho, por quase 60 horas. Armstrong caminhou pela superfície por cerca de 2 horas e 14 minutos, Aldrin por um pouco menos — números que parecem curtos hoje, mas que, à época, representavam o limite do que os trajes e os sistemas de suporte de vida permitiam com segurança.

A Apollo 13, em 1970, ficou famosa não pelo sucesso, mas pela sobrevivência da tripulação após uma explosão no módulo de serviço, que forçou o cancelamento do pouso lunar e transformou o resgate dos três astronautas em uma das operações mais tensas da história da NASA. As missões seguintes — Apollo 14 a 17 — levaram cada vez mais tempo na superfície e mais equipamento científico, incluindo o veículo elétrico lunar usado a partir da Apollo 15; a Apollo 17, em dezembro de 1972, foi a última missão tripulada à Lua do século XX, com a maior permanência na superfície entre todas as seis descidas.

Do lado soviético, o programa lunar tripulado nunca decolou: o foguete gigante N1, equivalente russo do Saturno V, falhou em todos os quatro lançamentos de teste, e o programa foi oficialmente cancelado (e mantido em sigilo por décadas) depois que os americanos já haviam vencido a corrida.

As mulheres e os primeiros estrangeiros no espaço

Enquanto os Estados Unidos deixavam mulheres de fora do corpo de astronautas por décadas — apesar de testes que sugeriam boa aptidão física de candidatas mulheres nos anos 1960 —, a União Soviética colocou uma mulher em órbita já em 16 de junho de 1963: Valentina Tereshkova, ex-operária têxtil e paraquedista amadora, voou sozinha a bordo da Vostok 6 por quase 71 horas. Vinte anos se passariam até a segunda mulher no espaço, a soviética Svetlana Savitskaya, em 1982; em 1984, numa nova missão, Savitskaya também se tornou a primeira mulher a realizar uma caminhada espacial.

Do lado americano, a primeira mulher no espaço só voaria em 18 de junho de 1983: Sally Ride, a bordo do ônibus espacial Challenger, numa missão que também usou pela primeira vez um braço robótico para soltar e recuperar um satélite. Pouco depois, em agosto do mesmo ano, Guion Bluford se tornou o primeiro astronauta negro americano no espaço, também a bordo do Challenger, na primeira missão noturna do ônibus espacial.

A União Soviética também levou ao espaço os primeiros astronautas de países aliados, num programa batizado de "Intercosmos": entre 1978 e 1985, voaram cidadãos da Tchecoslováquia, da Polônia, da Alemanha Oriental, da Hungria, do Vietnã, de Cuba, da Romênia e, depois, da Índia (Rakesh Sharma, em 1984). Do lado ocidental, o Canadá (Marc Garneau, 1984), o México (Rodolfo Neri Vela, 1985) e a Arábia Saudita (o príncipe Sultan bin Salman Al Saud, 1985) mandaram seus primeiros astronautas a bordo do ônibus espacial americano — este último numa missão que também carregava o astronauta francês Patrick Baudry, evidenciando como, nos anos 1980, voar ao espaço já não era mais exclusividade das duas superpotências.

Tragédias e recordes

Nem tudo foram conquistas. Em 24 de abril de 1967, o cosmonauta Vladimir Komarov morreu quando o paraquedas da sua Soyuz 1 falhou na reentrada — a primeira morte durante um voo espacial. Em 1971, os três tripulantes da Soyuz 11 morreram por despressurização da cápsula durante a reentrada, depois de uma bem-sucedida estada de três semanas na estação Salyut 1, história contada com mais detalhe no artigo sobre as estações espaciais. E em 28 de janeiro de 1986, o desastre do ônibus espacial Challenger, que explodiu 73 segundos após o lançamento matando os sete tripulantes, marcou o fim de uma era de otimismo sobre a rotina dos voos espaciais americanos.

Do lado dos recordes, a corrida por permanência prolongada no espaço se tornou, a partir dos anos 1970, tão importante quanto a corrida por "primeiras vezes": a tripulação da Skylab 4, em 1973-74, passou 84 dias em órbita; a soviética Soyuz 29, em 1978, alcançou quase 140 dias na Salyut 6; e a corrida continuaria, já nos anos 1980 e 1990, a bordo da estação Mir — tema do próximo artigo desta série.

O que veio depois

O programa Apollo terminou em 1972, e por décadas nenhum ser humano voltou além da órbita baixa da Terra. Hoje sabemos que esse cenário está mudando: o programa Artemis, da NASA, tem como meta devolver astronautas à superfície lunar nos próximos anos, dessa vez com planos de permanência prolongada e participação internacional, incluindo a primeira mulher e a primeira pessoa não branca a pisar na Lua. Do lado chinês, o programa espacial tripulado — que nem existia quando os livros usados como fonte deste artigo foram escritos — colocou seu primeiro taikonauta em órbita em 2003 e hoje mantém tripulações permanentes na estação Tiangong. Já o Brasil teve seu primeiro (e até agora único) astronauta em 2006: o tenente-coronel Marcos Pontes, que passou cerca de dez dias na Estação Espacial Internacional numa missão batizada de "Missão Centenário", em homenagem ao centenário do voo do 14-Bis.

Considerações finais

Em menos de trinta anos, a humanidade passou de nunca ter deixado a atmosfera a pousar na Lua, caminhar no espaço, encontrar naves em órbita e manter tripulações por meses seguidos a bordo de estações. Essa sequência de conquistas — e de tragédias — está diretamente ligada à história das estações espaciais, contada no próximo artigo desta série, e ao início de tudo, com o lançamento do Sputnik 1, tema do primeiro artigo desta coleção sobre exploração espacial.

Referências

  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Linha do tempo de voos tripulados 1961-1987 e verbete "vôo espacial tripulado", p. 890-898; verbetes de Leonov, Komarov e Laika, p. 505, 481 e 492.
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). Rio de Janeiro: Zahar, 4ª ed. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges; revisão técnica de Alexandre Cherman. Gagarin e a corrida à Lua, p. 28.