setembro 21, 2026

Sh2-155 (Caldwell 9), a Nebulosa da Caverna: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de Sh2-155 — Nebulosa da Caverna — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Existe um pequeno grupo de objetos do catálogo Caldwell que os observadores visuais tratam com respeito e um certo temor: a Sh2-155, a Nebulosa da Caverna, é provavelmente o mais difícil de todos. Não é um objeto fraco por acaso: é uma nuvem de gás ionizado enorme e extremamente diluída, espalhada por quase o tamanho de duas Luas cheias, e o brilho de cada ponto dela é baixíssimo mesmo em céus excelentes. Poucos observadores dizem tê-la visto de verdade ao telescópio; a maioria só a conhece pelas fotografias de longa exposição, que revelam uma cavidade escura em forma de boca de caverna cortando o gás avermelhado. Este guia é escrito para quem observa do hemisfério norte, onde a Caverna passa perto do zênite; para quem lê do Rio de Janeiro, ele também explica, com honestidade, por que este não é um alvo alcançável por aqui.

Texto em revisão. Este guia segue o novo formato de artigo de objeto do site. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de Sh2-155 — Nebulosa da Caverna — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: uma região HII na borda de uma nuvem molecular gigante

A Sh2-155 é uma região HII: uma nuvem de hidrogênio ionizado pela radiação ultravioleta de estrelas jovens e quentes nascidas ali perto. Ela faz parte de uma estrutura muito maior, a nuvem molecular Cepheus B, um dos berçários estelares mais estudados da nossa vizinhança galáctica (Mobberley). As estrelas recém-formadas na região iluminam o gás e o fazem brilhar em vermelho, na linha H-alfa do hidrogênio — a mesma cor que domina praticamente todas as fotografias de nebulosas de emissão.

A "boca da caverna". O nome popular vem da forma que a nebulosa assume nas imagens de longa exposição: uma faixa de gás brilhante encurva-se como um arco, deixando uma reentrância mais escura no meio que lembra a entrada de uma caverna (Mobberley). É essa indentação escura — não uma "caverna" real, apenas uma região com menos gás emissor no caminho — que dá o apelido ao objeto.

Números. Mobberley lista a Sh2-155 com magnitude de cerca de 8 e tamanho aparente de aproximadamente 45′ × 50′, quase do tamanho de duas Luas cheias lado a lado. Mas essa magnitude "8" é enganosa: como o brilho está espalhado por uma área enorme, o brilho de superfície fica entre 24 e 25 magnitudes por segundo de arco quadrado, um dos mais baixos do catálogo Caldwell — daí a fama de objeto quase invisível ao olho. A distância citada por Mobberley é de cerca de 3.000 anos-luz, o que dá um tamanho físico real de cerca de 40 anos-luz.

Uma confusão de nomes. Segundo Mobberley (citando o observador Stephen J. O'Meara), a lista original de Patrick Moore no Sky & Telescope de dezembro de 1995 batizou o Caldwell 9 como "Cave Nebula" a partir da Sh2-155, mas um objeto totalmente diferente em Cefeu já havia recebido esse mesmo apelido antes. Na prática, hoje é a Sh2-155 que ficou conhecida como a Nebulosa da Caverna.

Vizinhos no céu. A cerca de 5° de distância fica outro objeto Caldwell mais famoso e também difícil, a Nebulosa da Bolha (NGC 7635, Caldwell 11), e o aglomerado aberto M 52 também está perto, útil como referência para localizar o campo (Mobberley).

Estruturas notáveis

  • O arco principal de emissão. A faixa de gás mais brilhante, que dá a forma geral do objeto — ainda assim, um brilho muito baixo para qualquer padrão.
  • A "boca" escura. A reentrância central, mais pobre em gás emissor, que corta o arco e dá o nome popular ao objeto; só aparece de forma clara em fotografias.
  • A nuvem molecular Cepheus B. A estrutura de gás e poeira fria que envolve a região e onde novas estrelas continuam a se formar (Mobberley).
  • O campo estelar denso. Como a nebulosa fica perto do plano da Via Láctea, o fundo tem muitas estrelas, o que ajuda a compor a imagem mas dificulta ainda mais ver o gás fraco contra o céu.

Como localizar

A rota mais direta parte de Caph (β Cassiopeiae, magnitude 2,3): ande cerca de 3½° para o norte e cerca de 72 minutos de ascensão reta (cerca de 9°) para oeste (Mobberley). Uma alternativa mais fácil de reconhecer é usar o aglomerado aberto M 52, também em Cassiopeia: a Caverna fica cerca de 3½° a oeste e 1° ao norte dele. Como a nebulosa é extremamente tênue e sem um núcleo definido, vale a pena primeiro confirmar o campo com um atlas detalhado e um buscador de baixa ampliação antes de tentar distinguir qualquer estrutura.

Carta de localização de Sh2-155: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

A Sh2-155 fica em Cefeu, a uma declinação de cerca de +62° 35′, o que a torna circumpolar (nunca se põe) para quem observa de latitudes acima de 28° N — ou seja, para praticamente toda a Europa, o Canadá e a maior parte dos Estados Unidos ela está sempre acima do horizonte, e nas noites de final de verão e outono do hemisfério norte ela passa a menos de 10° do zênite (Mobberley), a melhor posição possível para um objeto tão fraco.

O primeiro gráfico abaixo mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório configurado no site; o segundo, o caminho da nebulosa pelo céu nesta noite. Se você está lendo do hemisfério norte, ajuste a localização do site para a sua cidade para ver a janela real de observação. Para quem está no hemisfério sul, os dois gráficos vão mostrar a nebulosa sempre baixa ou fora do alcance — veja a explicação abaixo.

Altura de Nebulosa da Caverna ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. O objeto não passa de 30° à meia-noite em nenhuma época do ano.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZhoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Neste local o objeto não passa de 30° de altura no meio da noite em nenhuma época do ano.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 4°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
21:20 · 4° N
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
50 (sem magnitude cadastrada)
Enquadramento
85 ocupa 111 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de Sh2-155 — Nebulosa da Caverna pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 19:10 e 23:30 durante a noite; o ponto mais alto é às 21:20, com 4°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO20:0021:0023:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 2° NNE 12° 121°
20:00 3° N 9° 121°
20:30 4° N 6° 120°
21:00 4° N 2° 120°
21:30 4° N 359° 120°
22:00 4° N 356° 120°
22:30 3° N 352° 120°
23:00 2° N 349° 120°
23:30 1° NNW 346° 120°
00:00 -1° — 120°
00:30 -4° — 120°
01:00 -6° — 120°
01:30 -9° — 120°
02:00 -12° — 120°
02:30 -15° — 120°
03:00 -18° — 119°
03:30 -21° — 119°
04:00 -25° — 119°
Altura de Sh2-155 — Nebulosa da Caverna ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 21:20, com 4°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte21:20 · 4°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

E do Rio de Janeiro?

A conta é simples: a altura máxima que um objeto atinge no céu, ao cruzar o meridiano, é 90° menos a diferença entre a latitude do observador e a declinação do objeto. No Rio de Janeiro (latitude −23°), isso dá 90° − |−23° − 62,6°| ≈ 90° − 85,6° ≈ 4° de altura máxima. Na prática, a Nebulosa da Caverna nunca sobe de forma observável no Rio: mesmo no instante de maior altura, ela está mergulhada na camada mais espessa da atmosfera, na poeira e na luminosidade do horizonte, exatamente onde um objeto de brilho de superfície baixíssimo se torna impossível de perceber. Este guia descreve a observação de latitudes onde ela é um alvo real — 35° a 50° N, por exemplo — e não de aqui.

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Invisível.
Binóculo Praticamente invisível; em céu excepcional, talvez uma sugestão de névoa, sem forma definida.
Telescópio de 100 a 200 mm Com filtro UHC e céu muito escuro, talvez uma leve nebulosidade sem contorno nítido; a maioria dos observadores não vê nada de conclusivo (Mobberley).
Telescópio de 400 mm ou mais Mobberley recomenda esta abertura, ou maior, como o mínimo realista para tentar perceber a estrutura, ainda com filtro UHC e sob céu escuro e transparente. Mesmo assim, o resultado não é garantido.

Expectativa honesta: Mobberley chama a Sh2-155 de "talvez o objeto Caldwell visualmente mais difícil" e é direto: você pode simplesmente não ver nada. Este é, antes de tudo, um alvo de câmera.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com cerca de 45′ a 50′ de diâmetro, a nebulosa pede um campo moderado a amplo — algo entre 1° e 1,5° para deixar espaço ao redor do arco e da "boca" escura. Um telescópio de 400 a 600 mm de focal com uma câmera de sensor APS-C ou four-thirds cobre bem o objeto inteiro; focais maiores exigem mosaico.

Desafios do alvo

  • Brilho de superfície extremo. Com 24-25 magnitudes por segundo de arco quadrado, este é um dos alvos mais fracos que se pode tentar fotografar; é preciso tempo total de exposição muito longo.
  • Contraste baixo com o fundo. Sob um céu urbano como o do Rio de Janeiro (Bortle 7), a nebulosa se perderia completamente no brilho de fundo — mais um motivo, além da altura, para tratá-la como um alvo de outra latitude.
  • Estrelas de campo densas. Por estar perto do plano galáctico, o campo tem muitas estrelas, o que ajuda a composição mas exige cuidado no processamento para não afogar o gás fraco sob elas.

Equipamento e filtros

Mobberley recomenda uma luminância muito profunda combinada com quadros R, G e B "binados" (agrupamento de pixels) em 2×2 ou 3×3 para reduzir o ruído, e, para o contraste mais alto possível, um filtro H-alfa em exposições longas e autoguiadas como luminância. Uma câmera colorida de um disparo com filtro dual-band (H-alfa e OIII) também pode funcionar, mas exigirá muitas horas de integração.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light H-alfa (luminância) 40 a 60 300 a 600 s Estrutura de gás e o contraste da "boca" escura
Light RGB ou dual-band 40 a 60 180 a 300 s Cor e contexto estelar
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: dado o brilho de superfície extremamente baixo deste alvo, prepare-se para sessões de várias noites.

Smart telescopes e campo de visão

Um smart telescope de campo amplo, como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), cobre a Sh2-155 inteira com folga, e o empilhamento automático ao longo de várias horas ajuda bastante com um alvo deste brilho — mas mesmo assim, sem um céu escuro e sem várias sessões de imageamento, é difícil extrair um resultado satisfatório. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

A Nebulosa da Caverna é um lembrete de que nem todo objeto Caldwell é acessível ao olho, mesmo com um telescópio grande e um céu excelente: ela existe, sobretudo, para a câmera, e mesmo assim exige paciência e muitas horas de exposição. Para quem observa do hemisfério norte em latitudes médias e altas, é um desafio de fim de temporada, ao lado da vizinha Nebulosa da Bolha. Para quem lê do Rio de Janeiro, o valor deste guia está em entender por que ela é difícil em qualquer lugar — e em saber, com clareza, que aqui ela simplesmente não sobe.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 717 (Sh2-155).
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 9, p. 30-31.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta por "Sh 2-155": sem registro com dimensões ou paralaxe utilizáveis para este objeto extenso, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.