setembro 22, 2026
Retículo: guia da pequena constelação ao lado da Grande Nuvem de Magalhães

O Retículo é um dos exemplos mais claros de como o céu do hemisfério sul é cheio de constelações pequenas, modernas e sem nenhuma estrela famosa. Ele fica bem perto da Grande Nuvem de Magalhães, tem sete estrelas visíveis a olho nu em céu escuro e nenhuma delas tem nome próprio. E, ainda assim, uma delas — Zeta Reticuli — ficou conhecida do grande público por causa de uma história de abdução alienígena que não tem nada a ver com o que a estrela realmente é. Este guia mostra como achar o Retículo, o que existe (e o que não existe) nele, e separa a lenda da ciência.
Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.
Uma constelação pequena, criada com um instrumento em mente
O Retículo (Reticulum, abreviatura Ret) ocupa cerca de 114 graus quadrados do céu, entre o Dourado, ao norte e a oeste, o Relógio, ao norte e leste, e a Hidra Macho, ao sul (Mourão, verbete Reticulum, p. 684-685). É uma das 14 constelações que o abade francês Nicolas-Louis de Lacaille criou durante sua expedição ao Cabo da Boa Esperança, entre 1750 e 1754, quando catalogou o céu austral que os europeus ainda não tinham mapeado (Moore, The Observer's Year, p. 98 e 132).
O nome não homenageia um mito nem um animal: Lacaille batizou a constelação em alusão ao retículo, a marcação de fios cruzados no plano focal de instrumentos ópticos — telescópios, microscópios, teodolitos — que serve de referência para medir a posição de um astro no campo de visão (Mourão, verbete retículo, p. 724). As sete estrelas mais brilhantes formam mesmo um pequeno losango torto, parecido com o retículo em forma de diamante usado nos instrumentos de Lacaille (Mourão, verbete Reticulum, p. 685). Antes dele, a região já tinha recebido o nome de Rhombus por outro astrônomo, e o próprio Mourão registra o nome alternativo Reticulum Rhomboidalis (losango reticulado) na origem da constelação.
Não há mitologia nenhuma aqui, e nenhum livro de referência que consultamos finge que há. O Retículo é filho direto da cartografia celeste do século XVIII, um instrumento de trabalho que virou constelação.
Quando e como achar
Melhor época. O Retículo está centrado perto de 3h50min de ascensão reta, então culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21h locais em meados de janeiro. A boa temporada de observação vai de novembro a fevereiro, no verão brasileiro.
Para onde olhar. O Retículo fica bem ao sul, perto do polo celeste sul, e do Brasil ele aparece baixo no horizonte sul, tanto mais alto quanto mais ao sul você estiver. A carta abaixo mostra o céu olhando para o sul, com o norte para cima e o leste para a esquerda.
| Cidade | Altura máxima (alfa Reticuli) |
|---|---|
| Boa Vista (RR) | 25° |
| Manaus (AM) | 31° |
| Recife (PE) | 36° |
| Brasília (DF) | 43° |
| Rio de Janeiro (RJ) | 50° |
| São Paulo (SP) | 51° |
| Porto Alegre (RS) | 58° |
Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós a partir da declinação de alfa Reticuli (catálogo do site, base Hipparcos) e da latitude de cada cidade; valores arredondados. O Retículo é visível do Brasil inteiro, mas fica sempre baixo no norte do país e ganha altura conforme se desce ao sul.

Passo a passo.
- Comece pela Grande Nuvem de Magalhães, no Dourado: ela é impossível de confundir em céu escuro. O Retículo fica ao lado dela, à esquerda na carta (olhando para o sul), um pouco mais para o horizonte.
- Nenhuma estrela do Retículo é brilhante — a mais forte, alfa, tem só magnitude 3,3 — então o melhor caminho é procurar o padrão: um losango pequeno e alongado, torto, formado por quatro a sete pontinhos.
- Como a constelação fica baixo no céu para quem observa do norte e do centro do Brasil, escolha uma noite bem transparente e sem obstáculos no horizonte sul.
As estrelas do Retículo
| Estrela | Brilho visual (mag.) | Tipo espectral | Distância aproximada |
|---|---|---|---|
| Alfa (α) | 3,33 | classe G/K (gigante-alaranjada) | não verificada nesta pesquisa |
| Beta (β) | 3,84 | classe K | não verificada nesta pesquisa |
| Épsilon (ε) | 4,44 | K2 III-IV (subgigante laranja) | cerca de 60 anos-luz |
| Gama (γ) | 4,48 | classe M (gigante vermelha) | não verificada nesta pesquisa |
| Delta (δ) | 4,56 | classe K | não verificada nesta pesquisa |
| Capa (κ) | 4,71 | classe F | não verificada nesta pesquisa |
| Zeta-1 e Zeta-2 (ζ¹, ζ²) | cerca de 5,5 e 5,2 | G-K (anãs amarelas, parecidas com o Sol) | cerca de 39 anos-luz |
Brilhos e tipos espectrais consultados no catálogo de estrelas do site (base Hipparcos/HYG). Nenhuma estrela do Retículo tem nome próprio aprovado pela IAU; usamos só a designação de Bayer, como faz o Ridpath para constelações modernas sem nomes tradicionais.
Nenhuma estrela brilhante. O Retículo não tem nenhuma estrela de primeira ou segunda magnitude — a mais forte, alfa, já é uma estrela discreta de magnitude 3,3, visível a olho nu só em céu razoavelmente escuro. É típico das constelações que Lacaille criou: ele estava documentando o céu austral estrela por estrela, sem se preocupar em desenhar figuras chamativas.
Épsilon Reticuli e seu planeta. A estrela mais estudada da constelação não é uma das mais brilhantes, mas sim épsilon Reticuli, uma subgigante laranja de tipo K2, cerca de 20% mais massiva que o Sol, a uns 60 anos-luz de distância. Em 2000, astrônomos anunciaram um planeta gigante em órbita dela, a cerca de 11 unidades astronômicas da estrela (mais ou menos a distância de Saturno ao Sol), com um período orbital de 418 dias e órbita pouco alongada (Moore & Rees, Data Book of Astronomy, p. 488). Épsilon Reticuli também tem uma companheira distante, uma anã branca de magnitude 12,5, a cerca de 240 unidades astronômicas da estrela principal.
Zeta Reticuli, a estrela mais famosa por engano. Zeta Reticuli não é uma estrela só, mas um par largo de anãs amarelas parecidas com o Sol, zeta-1 e zeta-2, separadas por cerca de 9.000 unidades astronômicas — tão afastadas uma da outra que levam mais de mil anos para completar uma órbita mútua (Moore & Rees, p. 488). São estrelas comuns, gêmeas químicas do Sol, e nada nelas é fisicamente extraordinário. O que as tornou famosas foi um episódio de 1961: o casal americano Betty e Barney Hill relatou ter sido abduzido por seres alienígenas, e anos depois, sob hipnose, Betty Hill desenhou um "mapa estelar" que ufólogos interpretaram como mostrando zeta-2 Reticuli como o sistema de origem dos supostos sequestradores. Moore & Rees contam o episódio com ceticismo bem-humorado: não há nenhuma base científica para a associação, e o "mapa" é hoje entendido como um produto da sugestão sob hipnose, não um registro confiável (Moore & Rees, p. 488). Vale conhecer a história como curiosidade cultural — mas ela não muda em nada o que zeta-1 e zeta-2 Reticuli realmente são: duas estrelas discretas, do tipo mais comum da Via Láctea.
Céu profundo: uma constelação quase vazia
O catálogo de objetos do site não tem, com segurança, nenhuma galáxia ou nebulosa claramente dentro dos limites oficiais do Retículo — as poucas galáxias que aparecem perto da constelação nas buscas automáticas ficam à beira da fronteira com o Dourado e a Hidra Macho, e preferimos não afirmar a pertença sem confirmar os limites exatos da IAU. Isso não é incomum entre as constelações menores de Lacaille: ele desenhou a região em torno de estrelas de campo, não de nebulosas visíveis a olho nu ou binóculo, e a maior parte do interesse "profundo" da vizinhança pertence à Grande Nuvem de Magalhães, logo ali no Dourado.
Roteiro de observação
| Instrumento | O que ver |
|---|---|
| A olho nu | O losango torto das estrelas mais brilhantes (alfa a capa), em céu razoavelmente escuro; um bom ponto de partida a partir da Grande Nuvem de Magalhães. |
| Binóculo (10×50) | O par zeta-1 e zeta-2 Reticuli, separado o bastante para diferenciar como duas estrelas próximas; o conjunto do losango completo. |
| Telescópio pequeno | Nada de muito notável além de resolver melhor as componentes de zeta Reticuli; a constelação é mais um exercício de reconhecimento de padrão do que um alvo de observação profunda. |
Dicas de campo:
- Escolha uma noite sem Lua entre novembro e fevereiro, com o horizonte sul bem aberto.
- Use a Grande Nuvem de Magalhães como referência: o Retículo fica bem próximo dela, do lado do Dourado que aponta para longe do Cruzeiro do Sul.
- Não espere brilho: é um exercício de reconhecer um padrão discreto, não de "uau" visual.
Referências
- MOORE, Patrick (ed.). Astronomy Encyclopedia. Londres: Philip's. Verbete "Reticulum".
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. p. 488 (Zeta Reticuli, Épsilon Reticuli e o caso Hill).
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. Lacaille e as constelações do Cabo, p. 98, 132-133.
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbetes "Reticulum" (p. 684-685) e "retículo" (p. 724).
- Catálogo de estrelas do site (base Hipparcos/HYG Database v4.1, David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0), consultado via
constellation_chart.py info Ret, em 21 set. 2026; limites de constelação da IAU.