setembro 22, 2026
Peixe Voador, o peixe que impressionou os navegadores: guia da constelação de Volans

Peixe Voador é uma das constelações mais esquecidas do céu — o que é uma pena, porque o peixe que lhe deu o nome intrigou de verdade os primeiros europeus que cruzaram o oceano rumo às Índias Orientais. É pequena, fraca e, segundo os próprios livros de referência, pobre em objetos de céu profundo, apesar de estar bem em cima da faixa da Via Láctea. Ainda assim, guarda uma surpresa: uma galáxia espiral barrada de aparência incomum, a NGC 2442.
Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.
Um peixe de verdade, batizado por marinheiros
Peixe Voador (Volans, abreviatura Vol; nome completo antigo Piscis Volans) ocupa cerca de 141 graus quadrados do céu, encravada entre Carena, Dourado, Mensa, Camaleão e Peixe Austral, perto do polo sul celeste (Mourão, verbete Volans, p. 886). Ao contrário da maioria das constelações antigas, batizadas com base em mitos gregos ou babilônios, Peixe Voador tem uma origem prosaica e recente: foi criada no fim do século XVI pelos navegadores holandeses Pieter Dirkszoon Keyser e Frederick de Houtman, que catalogaram doze novas constelações austrais a partir de observações feitas durante viagens comerciais às Índias Orientais, e cujos dados foram publicados por Johann Bayer no atlas Uranometria, de 1603 (Ridpath, Guia Zahar, p. 224; Mourão, p. 886).
O peixe-voador é um animal de verdade, comum em mares tropicais, capaz de planar por dezenas de metros acima da superfície da água batendo as nadadeiras peitorais alargadas como asas — um espetáculo que impressionou os tripulantes das primeiras expedições europeias ao Índico e ao Pacífico o bastante para virar constelação (Ridpath, p. 224). Ironicamente, apesar de estar bem em cima da faixa da Via Láctea, Ridpath observa que Volans é pobre em objetos de céu profundo interessantes (p. 224) — o mesmo tipo de "vazio" que caracteriza várias das constelações modernas do sul.
Quando e como achar
Melhor época. O centro de Volans culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21 horas locais em meados de fevereiro, na mesma faixa de datas em que Carena, sua vizinha ao norte, está bem posicionada.
Para onde olhar. Volans fica muito perto do polo sul celeste (declinação entre cerca de -64° e -73°) e, do Brasil, culmina voltada para o sul, sempre baixa no horizonte para quem observa do Norte e do Nordeste.
| Cidade | Alfa Volantis | Gama² Volantis |
|---|---|---|
| Boa Vista (RR) | 21° | 17° |
| Manaus (AM) | 27° | 23° |
| Recife (PE) | 32° | 28° |
| Brasília (DF) | 39° | 35° |
| Rio de Janeiro (RJ) | 47° | 42° |
| São Paulo (SP) | 47° | 43° |
| Porto Alegre (RS) | 54° | 50° |
Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós a partir das declinações do catálogo HYG e da latitude de cada cidade; valores arredondados. Volans sobe em todo o Brasil, mas fica baixa no horizonte sul no Norte e no Nordeste — quanto mais ao sul do país, mais alta e mais fácil de observar.

Passo a passo.
- Ache Miaplacidus, a segunda estrela mais brilhante de Carena, na constelação vizinha ao norte. Peixe Voador fica logo ao sul dela (abaixo, na carta).
- As seis estrelas principais de Volans formam um quadrilátero alongado e fraco, sem nenhuma acima da magnitude 3,7 — um céu bem escuro ajuda bastante.
- A galáxia NGC 2442 fica perto do centro da constelação, entre duas das estrelas do quadrilátero; é um alvo só para telescópio, não para olho nu ou binóculo comum.
As estrelas de Peixe Voador
| Estrela | Brilho visual (mag.) | Tipo espectral |
|---|---|---|
| Beta Volantis | 3,77 | gigante laranja |
| Gama² Volantis | 3,78 | gigante laranja (par duplo com Gama¹) |
| Zeta Volantis | 3,93 | gigante laranja |
| Delta Volantis | 3,97 | estrela amarelo-alaranjada |
| Alfa Volantis | 4,00 | tipo A (branca) |
| Épsilon Volantis | 4,35 | estrela azulada quente |
Brilhos e tipos espectrais consultados no catálogo HYG v4.1, usado na carta; distâncias não conferidas nesta sessão (ver pendências).
Nenhuma estrela de Volans tem nome próprio tradicional — todas são conhecidas só pela letra grega de Bayer, sinal de como a constelação sempre foi tratada como secundária, mesmo entre as doze criadas por Keyser e de Houtman. A mais interessante para observação é Gama² Volantis, membro de um par duplo (Gama¹ e Gama²) citado por Philip's como um bom alvo de telescópio pequeno, embora o livro não traga a separação nem as magnitudes individuais dos dois componentes (Philip's, verbete Volans, p. 442).
NGC 2442, a galáxia da borda da Via Láctea
O catálogo de céu profundo do site lista um único objeto dentro dos limites de Volans: a NGC 2442, uma galáxia espiral barrada de magnitude 10,6 e cerca de 4,7 minutos de arco de diâmetro, próxima ao centro da constelação. É um alvo exclusivo de telescópio, fora do alcance de olho nu ou binóculo. Nenhum dos livros de apoio consultados nesta série descreve o objeto — nem mesmo o catálogo Caldwell de Patrick Moore o inclui —, o que reforça o comentário de Ridpath de que Volans é uma constelação pobre em céu profundo, apesar de estar sobre a faixa da Via Láctea (p. 224). Fotografias de longa exposição mostram um braço espiral bastante distorcido, resultado provável de interação gravitacional com uma galáxia vizinha menor; esse braço deformado rendeu à NGC 2442 o apelido informal de "galáxia Anzol de Carne" na literatura amadora internacional, embora essa informação não tenha sido conferida em nenhum dos livros de apoio desta série.
Mitologia e história: sem mito, só um peixe de verdade
Peixe Voador não carrega nenhuma lenda: é uma das doze constelações "do bestiário austral" criadas por Keyser e de Houtman para preencher o céu do sul com animais exóticos observados durante suas viagens, ao lado de outras como Tucano, Fênix, Dourado, Camaleão e Ave do Paraíso (Ridpath, p. 219-226). O peixe-voador de verdade — um peixe tropical capaz de planar sobre a água — era uma novidade e tanto para marinheiros europeus do fim do século XVI, e diferente de boa parte das outras constelações do grupo, que representam animais mais exóticos ainda (tucanos, camaleões, aves-do-paraíso), este pelo menos poderia ser visto pelos próprios navegadores durante a travessia.
Roteiro de observação
| Instrumento | O que ver |
|---|---|
| A olho nu | O quadrilátero fraco das seis estrelas principais, em céu bem escuro; usar Miaplacidus, em Carena, como ponto de partida. |
| Binóculo (10×50) | O campo de estrelas da constelação; nenhum objeto de céu profundo é alcançável neste instrumento. |
| Telescópio pequeno a médio (100 a 200 mm) | NGC 2442 como uma mancha alongada, com boa transparência de céu. |
| Astrofotografia | NGC 2442 em exposição longa, mostrando o braço espiral distorcido. |
Dicas de campo:
- Escolha uma noite sem Lua entre dezembro e abril, com o horizonte sul bem limpo — a constelação fica baixa, principalmente no Norte e no Nordeste do país.
- Comece por Miaplacidus, em Carena, e desça até o quadrilátero de Volans.
- Não espere muito do céu profundo aqui: é uma boa parada rápida a caminho de vizinhas mais ricas, como Carena e Dourado.
Referências
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Volans", p. 886.
- MOORE, Patrick (ed.). Philip's Astronomy Encyclopedia. London: Philip's, 2002. Verbete "Volans" (Gama Volantis dupla), p. 442.
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Peixe Voador e as constelações de Keyser e de Houtman, p. 219-226 (Peixe Voador especificamente, p. 224).
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.