setembro 22, 2026
O Brasil no espaço: Alcântara, Barreira do Inferno, foguetes Sonda e Brasilsat
O Brasil não tem um programa espacial do porte dos Estados Unidos, da Rússia, da China ou mesmo de vizinhos como a Argentina em certas áreas, mas sua história espacial começou cedo — ainda nos anos 1960 — e inclui uma base de lançamento privilegiada, uma família própria de foguetes, satélites de telecomunicações pioneiros e, mais recentemente, um astronauta na Estação Espacial Internacional. Este artigo reúne essa trajetória, da radioastronomia em Atibaia às bases do Nordeste equatorial.
Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.
Por que o litoral do Nordeste é um bom lugar para lançar foguetes
Antes de falar das bases brasileiras, vale explicar por que elas existem exatamente onde existem. Um foguete lançado para o leste, perto da linha do equador, ganha de graça um empurrão extra da própria rotação da Terra — na linha do equador, a superfície do planeta já se move a cerca de 1.670 km/h por causa da rotação, uma velocidade que se soma à do foguete e reduz o combustível necessário para alcançar a órbita. É por isso que as grandes potências espaciais buscam, sempre que podem, lançar de latitudes baixas: a Guiana Francesa (Kourou, a apenas 5° do equador) é a base da Agência Espacial Europeia; o Centro Espacial Kennedy, nos Estados Unidos, fica na Flórida justamente para aproveitar uma latitude relativamente baixa para o padrão americano; e o litoral do Nordeste brasileiro, próximo da linha do equador e voltado para o oceano Atlântico (o que garante uma rota de lançamento segura, sem sobrevoar áreas povoadas), tornou-se, por essas mesmas razões, um ponto de interesse estratégico para o país e, mais tarde, para outras nações.
Barreira do Inferno: a primeira base brasileira
O Centro de Lançamento da Barreira do Inferno, próximo a Natal, no Rio Grande do Norte, foi criado em outubro de 1965 — tornando o Brasil um dos primeiros países do mundo, fora as duas superpotências da Guerra Fria, a ter um centro de lançamento de foguetes em operação. Projetado, construído e operado pelo Grupo Executivo de Trabalhos de Pesquisas e Estudos Espaciais (GETEPE), vinculado à Força Aérea Brasileira, o centro contava com rampas de lançamento, casamatas de controle, uma central meteorológica, uma usina de produção de hidrogênio (usada para inflar balões de sondagem atmosférica) e radares e câmeras para acompanhar o voo de satélites — uma infraestrutura relativamente sofisticada para a época e para um país ainda sem tradição espacial própria.
O nome curioso, "Barreira do Inferno", é anterior ao centro espacial: vem de uma antiga barreira de arrecifes e dunas da região, batizada assim por pescadores locais pelo perigo que representava para embarcações. A base foi, e continua sendo, voltada sobretudo a foguetes de sondagem — menores, suborbitais, usados para pesquisa científica da atmosfera — e não a lançamentos de satélites em órbita, papel que caberia, décadas depois, ao centro de Alcântara.
Alcântara: a base equatorial
O Centro de Lançamento de Alcântara, no litoral do Maranhão, foi concebido justamente para aproveitar ao máximo a vantagem da proximidade com o equador — a apenas cerca de 2,3° de latitude sul, uma das posições mais privilegiadas do mundo para lançamentos orbitais, superior inclusive à de Kourou. A construção do centro começou nos anos 1980, com o objetivo de sediar o programa brasileiro de veículo lançador de satélites, então em desenvolvimento.
O caminho até um lançamento orbital bem-sucedido a partir de Alcântara, porém, foi difícil: o Veículo Lançador de Satélites (VLS-1), o foguete nacional projetado para colocar cargas em órbita a partir da base, sofreu falhas em seus primeiros voos de teste, nos anos 1990 e 2000, e um acidente em 2003, durante a preparação para um lançamento, causou a morte de mais de vinte pessoas — uma tragédia que marcou profundamente o programa espacial brasileiro e atrasou por anos os planos de lançamento nacional autônomo. Apesar disso, Alcântara segue como um ativo estratégico do país: nos anos mais recentes, o Brasil assinou acordos internacionais, entre eles com os Estados Unidos, para viabilizar o uso comercial da base por foguetes e empresas estrangeiras, na esperança de transformar sua localização privilegiada numa fonte de receita e de know-how tecnológico.
Os foguetes Sonda: a escada tecnológica brasileira
Paralelamente às bases, o Brasil desenvolveu, a partir dos anos 1960 e 1970, sua própria família de foguetes de sondagem, batizada de "Sonda". Cada modelo representou um degrau na escada tecnológica rumo a foguetes cada vez maiores e mais capazes:
- Sonda I, o mais simples, tinha dois estágios e alcançava cerca de 70 km de altitude, carregando uma pequena carga de 5 kg — suficiente para experimentos básicos de alta atmosfera.
- Sonda II, monoestágio e sólido, desenvolvido pelo Instituto de Atividades Espaciais, chegava a 120 km de altitude com 20 kg de carga em sua versão básica, numa estrutura de cerca de 360 kg no total.
- Sonda III, já com dois estágios sólidos, alcançava cerca de 600 km de altitude com uma carga de 60 kg — o motor do seu primeiro estágio seria reaproveitado, mais tarde, como segundo estágio do Sonda IV.
- Sonda IV, o mais avançado da família, era capaz de levar cerca de 500 kg a aproximadamente 730 km de altitude, tendo seu primeiro lançamento bem-sucedido em 1985. O Sonda IV foi concebido, desde o início, como base tecnológica para o desenvolvimento do Veículo Lançador de Satélites (VLS), o foguete orbital brasileiro mencionado acima.
Essa linhagem de foguetes, hoje ampliada por famílias mais recentes como a VSB-30 (usada inclusive em parcerias internacionais, lançando experimentos de agências como a alemã DLR a partir de bases no Brasil e na Suécia), mostra uma continuidade pouco conhecida do programa espacial brasileiro: apesar de nunca ter colocado, sozinho, um satélite em órbita, o país manteve, ao longo de seis décadas, um programa ativo de foguetes de sondagem.
Brasilsat: o Brasil nas telecomunicações via satélite
Se o Brasil não conseguiu, até hoje, colocar seu próprio satélite em órbita com um foguete nacional, o país foi, ainda assim, pioneiro na América Latina em operar satélites de telecomunicações próprios — mesmo que lançados por foguetes estrangeiros. O Brasilsat 1, construído pela empresa canadense Spar Aerospace, foi lançado em 8 de fevereiro de 1985 por um foguete europeu Ariane 3, a partir do Centro Espacial de Kourou, na Guiana Francesa, na mesma missão que também lançou o satélite Arabsat. Posicionado em órbita geoestacionária — a cerca de 36 mil km de altitude, onde um satélite acompanha exatamente a rotação da Terra e parece "parado" no céu — o Brasilsat 1 ficou estacionado sobre a região de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, oferecendo 24 canais de telecomunicações para um país até então dependente de sistemas estrangeiros para telefonia e transmissão de televisão a longa distância.
O programa Brasilsat, somando o primeiro satélite, seu sucessor e os respectivos custos de lançamento, representou um investimento da ordem de 210 milhões de dólares ao longo de 14 anos — um valor expressivo para a época, mas que se pagou rapidamente pela integração de comunicações num país de dimensões continentais, com áreas remotas mal servidas por infraestrutura terrestre.
Radioastronomia e o nome do Brasil no céu
A presença brasileira na astronomia e na astronáutica não se limita a bases de lançamento e satélites. Em Atibaia, no interior de São Paulo, opera desde 1973 um radiotelescópio de 13,7 metros dedicado a observações em ondas milimétricas — à época de sua inauguração, o maior instrumento do gênero no Brasil e um dos poucos do mundo dedicados a essa faixa específica do espectro de rádio, hoje associado ao Rádio Observatório do Itapetinga.
O nome do Brasil também aparece, de forma literal, no céu: o asteroide 293 Brasília, descoberto em 20 de maio de 1890 pelo astrônomo francês Auguste Charlois, no Observatório de Nice, foi batizado em homenagem ao país, numa referência a Dom Pedro II — o imperador brasileiro deposto em 1889 e exilado na França, onde era conhecido e respeitado como entusiasta e patrono da astronomia, tendo inclusive financiado observatórios e mantido correspondência com astrônomos europeus. E no interior de Minas Gerais, na Serra dos Dias, próximo a Brasópolis, o Observatório do Pico dos Dias abriga, desde as décadas de 1970 e 1980, um telescópio refletor de 1,60 metro de abertura — que já foi, e possivelmente ainda é, um dos maiores instrumentos ópticos do país, hoje operado pelo Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA).
Marcos Pontes e a presença brasileira na ISS
Nenhum dos livros usados como fonte para este artigo — todos anteriores a 2006 — menciona o fato mais conhecido da presença brasileira no espaço até hoje: em 2006, o tenente-coronel da Força Aérea Marcos Pontes se tornou o primeiro (e, até agora, único) astronauta brasileiro a viajar ao espaço, numa missão à Estação Espacial Internacional batizada de "Missão Centenário", em referência ao centenário do voo do 14-Bis, de Santos Dumont. Pontes passou cerca de dez dias em órbita, realizando experimentos científicos brasileiros a bordo da ISS, num acordo de cooperação com a Rússia — o país não integra formalmente o consórcio das dezesseis nações parceiras da estação, mas participou do projeto por meio de acordos bilaterais de fornecimento de equipamento.
Considerações finais
Entre as rampas de Barreira do Inferno, a posição privilegiada de Alcântara, a escada tecnológica dos foguetes Sonda, o pioneirismo do Brasilsat e o voo de Marcos Pontes, o Brasil construiu, ao longo de sessenta anos, uma presença modesta mas contínua no espaço — sustentada mais pela geografia favorável do país, perto do equador, do que por grandes investimentos contínuos. Essa história se cruza com a das estações espaciais internacionais, contada no artigo sobre Salyut, Skylab, Mir e ISS, e com a sequência de voos tripulados que abriu caminho, décadas antes, para que um brasileiro pudesse, finalmente, ir ao espaço.
Referências
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Atibaia e Barreira do Inferno, p. 110, 118, 128-129; centros de lançamento (Kourou, Alcântara, Barreira do Inferno e outros), p. 197-198; foguetes Sonda, p. 789-790; o Brasil no catálogo de asteroides, satélites e observatórios (293 Brasília, Brasilsat, Brasópolis), p. 158.