setembro 21, 2026
NGC 7635 (Caldwell 11), a Nebulosa da Bolha: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
A Nebulosa da Bolha é um dos exemplos mais didáticos do céu de como uma única estrela pode esculpir o gás ao seu redor. Uma estrela muito mais massiva que o Sol sopra um vento de partículas a milhões de quilômetros por hora, e esse vento empurra o gás interestelar para os lados, criando uma casca quase esférica e brilhante que hoje batiza o objeto inteiro. A "bolha" de verdade é pequena — só uma fração da nebulosa de emissão maior que a envolve —, e é justamente essa combinação de um detalhe fino dentro de um campo maior que faz da NGC 7635 um dos alvos mais fotografados de Cassiopeia. Este guia é escrito para quem observa do hemisfério norte, onde ela fica alta e circumpolar; para o Rio de Janeiro, explica com honestidade por que ela nunca é alcançável por aqui.
Texto em revisão. Este guia segue o novo formato de artigo de objeto do site. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: uma bolha soprada por uma estrela
A NGC 7635 é uma nebulosa de emissão, uma nuvem de hidrogênio ionizado que brilha por causa da radiação de uma estrela quente próxima. O que a torna especial é a "bolha" dentro dela: uma casca esférica de gás, de cerca de 3′ de diâmetro aparente, formada pelo vento estelar de uma única estrela muito massiva — a BD+60 2522, de magnitude 8,7, com massa estimada entre 15 e 40 vezes a do Sol conforme a fonte (Mobberley; Bakich). O vento dessa estrela sopra partículas a uma velocidade estimada em cerca de 7 milhões de km/h (Bakich), empurrando o gás ao redor e formando a frente de choque que vemos como a borda luminosa da bolha.
Uma bolha descentralizada. A estrela não fica exatamente no centro geométrico da bolha: como há mais matéria interestelar do lado nordeste, o vento encontra mais resistência ali e a bolha cresce de forma assimétrica, deslocando o centro aparente para longe da estrela (Bakich).
Bolha x nebulosa inteira. É comum confundir o nome popular "Nebulosa da Bolha" com o objeto catalogado como NGC 7635. Mobberley explica que a bolha propriamente dita — o anel de cerca de 3′ que contém a estrela BD+60 2522 — é só uma parte pequena de uma nebulosa de emissão bem maior, de cerca de 15′ × 8′ nos livros (9′ segundo o SIMBAD), que quase toca o aglomerado aberto M 52 em imagens de campo amplo. Os dois objetos não estão fisicamente associados: M 52 fica cerca de 2.000 anos-luz mais perto de nós do que a nebulosa (Mobberley).
Números. A uma distância de cerca de 7.000 anos-luz (Mobberley), a bolha propriamente dita tem um diâmetro físico de cerca de 6 anos-luz, e sua idade é estimada em cerca de 300.000 anos — jovem, em termos astronômicos.
Descoberta. William Herschel descobriu o objeto em 1787, descrevendo-o como uma "estrela de 9ª magnitude com nebulosidade muito fraca" (Bakich) — uma descrição modesta para o que hoje é um dos alvos mais populares da astrofotografia de nebulosas.
Estruturas notáveis
- A bolha central. O anel quase esférico de cerca de 3′ que contém a estrela BD+60 2522 — a estrutura que dá nome ao objeto e o principal alvo de fotografias de foco longo.
- A faixa escura ao norte. Uma região mais brilhante da nebulosa maior, logo ao norte da bolha, separada dela por uma faixa mais escura; Mobberley avisa que observadores menos experientes podem confundi-la com a própria bolha.
- A nebulosa de emissão externa. O envelope maior de gás ao redor da bolha, de brilho mais baixo, que se estende até quase tocar o aglomerado M 52 em imagens de campo amplo.
- A estrela BD+60 2522. A fonte de todo o fenômeno: uma estrela muito massiva e quente, cujo vento estelar segue esculpindo a bolha.
Como localizar
O caminho mais simples é a partir do aglomerado aberto M 52: a parte mais brilhante da Nebulosa da Bolha fica a apenas meio grau a sudoeste dele (Mobberley). Para chegar a M 52 a partir de uma estrela guia, use Caph (β Cassiopeiae, magnitude 2,3): ande cerca de 2° para o norte e cerca de 6° para oeste. A Bolha e a Caverna (Sh2-155) ficam na mesma região do céu, a poucos graus de distância — se você tem um dos dois no campo, o outro está por perto.

Quando e como observar
A NGC 7635 fica a uma declinação de cerca de +61°, o que a torna circumpolar para quem observa de latitudes acima de 29° N — ou seja, ela nunca se põe para praticamente toda a Europa, o Canadá e boa parte dos Estados Unidos. A melhor época no hemisfério norte vai de agosto a dezembro (Mobberley).
O primeiro gráfico abaixo mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório configurado no site; o segundo, o caminho da nebulosa pelo céu nesta noite. Se você está lendo do hemisfério norte, ajuste a localização do site para a sua cidade para ver a janela real de observação.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 6°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 21:50 · 6° N
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 23 mag 11,0
- Enquadramento
- 100 ocupa 33 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 1° | NNE 16° | 127° |
| 20:00 | 3° | NNE 13° | 127° |
| 20:30 | 4° | N 9° | 127° |
| 21:00 | 5° | N 6° | 127° |
| 21:30 | 6° | N 2° | 126° |
| 22:00 | 6° | N 359° | 126° |
| 22:30 | 5° | N 355° | 126° |
| 23:00 | 5° | N 352° | 126° |
| 23:30 | 3° | NNW 348° | 126° |
| 00:00 | 2° | NNW 345° | 126° |
| 00:30 | 0° | — | 126° |
| 01:00 | -3° | — | 126° |
| 01:30 | -5° | — | 126° |
| 02:00 | -8° | — | 126° |
| 02:30 | -11° | — | 126° |
| 03:00 | -15° | — | 126° |
| 03:30 | -18° | — | 126° |
| 04:00 | -22° | — | 126° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
E do Rio de Janeiro?
A altura máxima de um objeto ao cruzar o meridiano é 90° menos a diferença entre a latitude do observador e a declinação do objeto. No Rio de Janeiro (latitude −23°), isso dá 90° − |−23° − 61,2°| ≈ 90° − 84,2° ≈ 5,8° de altura máxima. Na prática, a Nebulosa da Bolha nunca sobe de forma observável no Rio: mesmo no instante teórico de maior altura, ela estaria afundada na névoa e na luz do horizonte, onde um objeto de brilho de superfície tão baixo simplesmente não aparece. Este guia descreve a observação de latitudes onde ela é de fato acessível — do hemisfério norte, sobretudo acima de 35-40° N —, não daqui.
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Invisível. |
| Binóculo | Invisível. |
| Telescópio de 200 mm | Sob céu escuro, apenas um arco fraco de cerca de 30″ × 10″ da bolha, sem revelar o anel completo (Bakich). |
| Telescópio de 400 mm ou mais | Mobberley recomenda esta abertura, ou maior, com filtro OIII ou UHC, para ver a bolha inteira e a névoa mais fraca ao norte, separada dela por uma faixa escura (Bakich). A própria estrela central de magnitude 8,7, dentro da bolha, atrapalha um pouco a visão do contraste (Mobberley). |
Expectativa honesta: Mobberley é claro: este é "um objeto para telescópios amadores grandes" — Dobsonianos de 40 a 50 cm têm sucesso, instrumentos menores costumam falhar, mesmo com filtro. É, sobretudo, um alvo de câmera.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
A bolha propriamente dita tem cerca de 3′ de diâmetro — um tamanho conveniente mesmo para sensores pequenos, grande o bastante para tolerar problemas de seeing e fácil de posicionar no quadro (Mobberley). Para incluir também a nebulosa maior ao redor e dar contexto, um campo de 15′ a 20′ funciona bem; para um close mais dramático só da bolha, um telescópio de foco longo (mais de 1.500 mm) e uma câmera de pixel pequeno aproveitam melhor os detalhes finos.
Desafios do alvo
- A estrela central ofusca o contraste. A magnitude 8,7 da BD+60 2522, bem no meio da bolha, compete com o gás fraco ao redor e pode saturar em exposições longas.
- Campo confuso sem preparo. Como a nebulosa maior tem uma parte brilhante logo ao norte da bolha, é fácil confundir as duas estruturas ao enquadrar — vale conferir um mapa antes de definir a composição final (Mobberley).
- DSLRs sem modificação sofrem no vermelho. Câmeras DSLR não modificadas, com sensibilidade reduzida ao vermelho profundo (H-alfa), têm dificuldade em captar o gás mais fraco (Mobberley).
Equipamento e filtros
Mobberley recomenda uma imagem de luminância profunda com um filtro H-alfa de céu profundo para realçar o contraste nas composições LRGB. A técnica de banda estreita (SHO, com filtros de enxofre, hidrogênio e oxigênio), popular em câmeras monocromáticas, também rende resultados espetaculares neste alvo, ao custo de mais horas de captura.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light H-alfa (luminância) | 30 a 40 | 300 a 600 s | Contraste da bolha e da nebulosa ao redor |
| Light RGB ou dual-band | 30 a 40 | 180 a 300 s | Cor e contexto do campo |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.
Smart telescopes e campo de visão
O campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) cobre a Nebulosa da Bolha inteira e ainda inclui boa parte do aglomerado M 52 no mesmo quadro, um enquadramento clássico deste alvo. O filtro dual-band do próprio aparelho ajuda a realçar o gás contra o fundo. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
A Nebulosa da Bolha combina, num único campo, uma física simples e visualmente clara — uma estrela soprando um vento que esculpe o gás ao redor — com um resultado fotográfico muito gratificante, mesmo sendo um alvo difícil ao olho. Para quem observa do hemisfério norte em telescópios grandes ou com uma câmera, é um dos clássicos de Cassiopeia, ao lado do aglomerado M 52 logo ali perto e da vizinha, mais difícil ainda, Nebulosa da Caverna. Para o observador do Rio de Janeiro, fica o interesse pela física do fenômeno — e a certeza de que este é um alvo para se ver em fotos de quem observa de outras latitudes.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 730 (NGC 7635).
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 11, p. 34-35.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas e dimensões de NGC 7635 (sem paralaxe disponível), em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.