setembro 21, 2026

NGC 559 (Caldwell 8), o Cálice do Fantasma de Cassiopeia: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 559 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Cassiopeia é uma das constelações mais generosas em aglomerados abertos do céu, e a maioria dos observadores conhece apenas os dois ou três mais brilhantes, como M 52 e M 103. O NGC 559 é um dos vizinhos discretos dessa vizinhança cheia de estrelas jovens: um aglomerado pequeno, de magnitude modesta, mas fácil de localizar por estar bem posicionado dentro do "W" que dá forma à constelação. Não é um objeto espetacular, mas é um bom exercício de reconhecimento de campo — e um lembrete de que Cassiopeia tem aglomerados de sobra para quem gosta de "caçar" pontinhos de luz. Este guia é escrito para quem observa do hemisfério norte, onde a constelação é circumpolar; para o Rio de Janeiro, explica com honestidade por que ele nunca é alcançável por aqui.

Texto em revisão. Este guia segue o novo formato de artigo de objeto do site. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 559 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é um aglomerado aberto

Um aglomerado aberto é um grupo de estrelas nascidas juntas, a partir da mesma nuvem de gás, e ainda ligadas frouxamente pela gravidade. Ao contrário dos aglomerados globulares, densos e esféricos, os abertos têm formas irregulares e poucas centenas a poucos milhares de estrelas. Existem cerca de 1.600 aglomerados abertos confirmados na Via Láctea, de um total estimado entre 50 e 100 mil (Allison). Com o tempo — em geral algumas centenas de milhões de anos —, as forças de maré da Galáxia dispersam essas estrelas, e elas seguem caminhos independentes; o próprio Sol provavelmente nasceu em um aglomerado desse tipo, hoje completamente disperso (Allison).

O NGC 559 em números. Mobberley lista o aglomerado com magnitude 9,5 e tamanho aparente de cerca de 7′, a uma distância de 3.700 anos-luz — o que dá um diâmetro físico de cerca de 8 anos-luz — e uma idade estimada em cerca de 2 bilhões de anos, o que o torna relativamente velho para um aglomerado aberto (a idade média desses objetos é de cerca de 350 milhões de anos, segundo Allison). A parte visualmente mais densa do aglomerado tem menos de 5′ de diâmetro, com a maioria das estrelas mais brilhantes formando um arco em crescente ao longo da borda leste (Mobberley).

Estrelas modestas. As quatro estrelas mais brilhantes ficam entre as magnitudes 11 e 12, e a dúzia seguinte, entre 13 e 14 (Mobberley) — nada muito vistoso, mas suficiente para um pequeno telescópio revelar a forma do grupo.

Um vizinho de peso. Mobberley menciona que, segundo alguns estudos, o remanescente de supernova catalogado como G127.1+0.5 fica na mesma linha de visada, atrás do aglomerado — ou seja, não é fisicamente associado ao NGC 559, apenas aparece na mesma direção do céu.

Bairro cheio de vizinhos. Cassiopeia tem tantos aglomerados abertos que Mobberley brinca dizendo que a constelação está "lotada até estourar" deles. Perto do NGC 559 ficam os aglomerados NGC 609, NGC 637 e NGC 654, além do Caldwell 10 (NGC 663) e do famoso Duplo Aglomerado de Perseu (Caldwell 14), a pouca distância.

Estruturas notáveis

  • O arco em crescente de estrelas. A concentração mais densa de estrelas brilhantes, ao longo da borda leste do aglomerado — o que mais se destaca ao telescópio (Mobberley).
  • O "vapor de fantasma". Em aberturas pequenas, as estrelas mais fracas do fundo, individualmente indistinguíveis, se fundem numa névoa esbranquiçada que lembra um vapor saindo de um cálice — daí o apelido de Mobberley (Ghost's Goblet, o Cálice do Fantasma).
  • O remanescente de supernova em segundo plano. G127.1+0.5, não associado fisicamente ao aglomerado, mas na mesma linha de visada (Mobberley) — um alvo de rádio ou imagem profunda muito mais avançado, fora do alcance de observação visual comum.

Como localizar

O ponto de partida é Ruchbah (δ Cassiopeiae, magnitude 2,7), uma das cinco estrelas do "W" de Cassiopeia: ande cerca de 3° para o norte e meio grau para leste (Mobberley). Outra forma de chegar lá é montar um triângulo mental entre o próprio NGC 559 e as duas estrelas mais a oeste do "W", Ruchbah e Segin — o aglomerado fica no vértice noroeste desse triângulo. Cuidado para não confundir com o NGC 637, mais brilhante, ou com o NGC 609, mais fraco, ambos na mesma vizinhança: o NGC 559 fica bem mais a oeste de Segin do que os outros dois (Mobberley).

Carta de localização de NGC 559: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

O NGC 559 fica a uma declinação de cerca de +63°, o que o torna circumpolar para quem observa de latitudes acima de 27° N — ou seja, ele nunca se põe para praticamente toda a Europa, o Canadá e boa parte dos Estados Unidos. A melhor época no hemisfério norte vai de setembro a janeiro (Mobberley).

O primeiro gráfico abaixo mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório configurado no site; o segundo, o caminho do aglomerado pelo céu nesta noite. Se você está lendo do hemisfério norte, ajuste a localização do site para a sua cidade para ver a janela real de observação.

Altura de NGC 559 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. O objeto não passa de 30° à meia-noite em nenhuma época do ano.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZhoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Neste local o objeto não passa de 30° de altura no meio da noite em nenhuma época do ano.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 4°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
23:50 · 4° N
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
46 mag 9,5
Enquadramento
80 ocupa 20 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de NGC 559 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 21:50 e 02:00 durante a noite; o ponto mais alto é às 23:50, com 4°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO22:0023:0001:0002:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -10° — 136°
20:00 -8° — 136°
20:30 -5° — 136°
21:00 -3° — 136°
21:30 -1° — 136°
22:00 1° NNE 12° 136°
22:30 2° N 9° 136°
23:00 3° N 6° 136°
23:30 4° N 3° 136°
00:00 4° N 359° 136°
00:30 3° N 356° 136°
01:00 3° N 353° 135°
01:30 2° N 349° 135°
02:00 0° NNW 346° 135°
02:30 -2° — 135°
03:00 -4° — 135°
03:30 -6° — 135°
04:00 -9° — 135°
Altura de NGC 559 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 23:50, com 4°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte23:50 · 4°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

E do Rio de Janeiro?

A altura máxima de um objeto ao cruzar o meridiano é 90° menos a diferença entre a latitude do observador e a declinação do objeto. No Rio de Janeiro (latitude −23°), isso dá 90° − |−23° − 63,3°| ≈ 90° − 86,3° ≈ 3,7° de altura máxima. Na prática, o NGC 559 nunca sobe de forma observável no Rio: mesmo no instante teórico de maior altura, ele estaria mergulhado na névoa e na iluminação do horizonte, onde nenhum telescópio consegue trabalhar bem. Este guia descreve a observação de latitudes onde ele é de fato acessível — do hemisfério norte, sobretudo entre 40° e 55° N, onde a constelação fica alta e circumpolar —, não daqui.

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Invisível.
Binóculo Possivelmente uma manchinha muito fraca, sem estrelas resolvidas, em céu escuro.
Telescópio de 100 mm Mobberley recomenda esta abertura como mínima: em céu escuro, mostra cerca de três dúzias de estrelas de magnitude próxima a 12 num núcleo de forma triangular (Bakich). Não é preciso filtro.
Telescópio de 300 mm ou mais O número de estrelas resolvidas praticamente dobra em relação a um instrumento de 100 mm (Bakich); com visão desviada, as estrelas mais fracas do "vapor" ficam mais firmes (Mobberley).

Expectativa honesta: este não é um aglomerado que impressiona à primeira vista — é discreto mesmo em bons telescópios —, mas é um exercício interessante de reconhecimento de campo em meio a tantos vizinhos parecidos.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com cerca de 7′ de diâmetro na parte mais densa, um campo de 20′ a 30′ enquadra bem o aglomerado com espaço ao redor para incluir as estrelas de contexto e, se possível, algum dos vizinhos próximos (NGC 609 ou NGC 637) no mesmo quadro, dependendo da focal.

Desafios do alvo

  • Estrelas fracas e próximas. A maioria das estrelas do aglomerado fica entre a magnitude 11 e 14, exigindo boa resolução e foco preciso para separá-las.
  • Pouco contraste com o campo. Por ficar imerso na Via Láctea, em uma região rica em estrelas de fundo, o aglomerado não se destaca tanto quanto outros mais isolados.
  • Alvo modesto para imagem de longa exposição. Mobberley observa que, para quem fotografa, "mesmo a exposição mais curta já registra o que se vê" — não é um alvo que ganhe muito com dezenas de horas de integração, ao contrário de nebulosas fracas.

Equipamento e filtros

Não é necessário filtro de nebulosa ou banda estreita: o NGC 559 é um alvo de estrelas, então o trabalho principal é resolução (foco e guiagem precisos) e um pouco de tempo de exposição para trazer à tona as estrelas mais fracas do fundo, sem saturar as mais brilhantes.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 30 a 40 60 a 120 s Resolver as estrelas fracas do aglomerado sem saturar as mais brilhantes
Dark 20 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 20 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 30 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: para um aglomerado de estrelas relativamente brilhantes, uma sessão curta já costuma ser suficiente.

Smart telescopes e campo de visão

O campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) cobre o NGC 559 com folga e ainda deixa espaço para incluir vizinhos próximos, como o NGC 637, no mesmo enquadramento — uma boa forma de comparar aglomerados parecidos lado a lado. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

O NGC 559 não é um destino por si só, mas é um bom ponto de parada para quem está explorando a rica família de aglomerados abertos de Cassiopeia: fácil de achar por triangulação, modesto ao telescópio, mas com uma boa história por trás — da idade avançada para um aglomerado aberto ao remanescente de supernova que aparece por trás dele na mesma linha de visada. Para quem observa do hemisfério norte, é um bom "aquecimento" antes de partir para os vizinhos mais famosos, como M 52, M 103 e o Duplo Aglomerado de Perseu.

Referências

  • ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. New York: Springer, 2006. Aglomerados abertos: formação, idade e dispersão, p. 13-20.
  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 793 (NGC 559).
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 8, p. 28-29.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de NGC 559, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.