setembro 21, 2026

NGC 4236 (Caldwell 3), a galáxia fantasma de Draco: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 4236 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Existe um tipo de objeto que ensina uma lição importante sobre como ler um catálogo: a magnitude sozinha não diz nada sobre a dificuldade real de observar algo. NGC 4236 é o exemplo perfeito. Com magnitude por volta de 9,6 a 10, ela deveria ser um alvo fácil de telescópio pequeno — mas é, na prática, um dos objetos Caldwell mais difíceis de ver, porque toda essa luz está espalhada por uma área enorme do céu, quase do tamanho da Lua cheia. É uma galáxia espiral barrada, quase de perfil, no meio do Dragão, e faz parte do grupo de galáxias liderado por M81. Este guia explica por que ela é tão discreta, como encontrá-la e por que, do Rio de Janeiro, ela nunca sobe.

Texto em revisão. Este é um dos guias do lote de objetos Caldwell do hemisfério norte, que nunca sobem no horizonte do Rio de Janeiro. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 4236 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: brilho total x brilho superficial

Uma galáxia espiral é um disco de estrelas, gás e poeira em rotação, com uma barra central de estrelas mais velhas em muitos casos, como no de NGC 4236. O que faz dela um objeto peculiar não é a estrutura, mas a distribuição da luz: ela é grande e relativamente brilhante no total, mas essa luz está tão diluída pela área grande do disco que o brilho superficial — o brilho por unidade de área — é baixíssimo. É a mesma lógica que torna a Nebulosa da Hélice, em Aquário, mais difícil do que sua magnitude sugere, só que aplicada a uma galáxia.

A galáxia em números. O SIMBAD lista a magnitude V em 10,08 e o tamanho em 12,47′ × 3,02′ — o disco brilhante e bem definido. Os livros trazem números maiores: Bakich fala em 21′ × 7,5′ e magnitude 9,6; Mobberley, em 20′ × 8′. A diferença provavelmente reflete o que cada fonte está medindo: o SIMBAD tende a listar o disco fotométrico principal, enquanto os livros incluem a extensão fotográfica total, captada só em exposições longas sob céu muito escuro — nesse caso, seis vezes mais comprida que larga (Bakich).

Distância. O SIMBAD não retorna paralaxe para galáxias, uma técnica que só funciona para objetos relativamente próximos dentro da nossa própria Galáxia. Os livros trazem cerca de 7 milhões de anos-luz (Bakich; Mobberley), o que coloca NGC 4236 no grupo de galáxias liderado por M81 e M82, um dos aglomerados de galáxias mais próximos do nosso Grupo Local. Com o tamanho do SIMBAD e essa distância, o diâmetro linear do disco brilhante fica em torno de 25.000 anos-luz; com a extensão fotográfica total dos livros, sobe para cerca de 40.000 anos-luz.

Brilho superficial em números. Mobberley cita um brilho superficial de cerca de 24 magnitudes por segundo de arco quadrado — contra um céu rural típico de cerca de 20 a 21 mag/arcsec². É essa diferença de quatro magnitudes, quase um fator de 40 em brilho, que faz a galáxia desaparecer em céu urbano e ser difícil mesmo em céu escuro: Mobberley a considera desafiadora em 25 cm de abertura, e só a partir de 35 cm ela vira um "fiapo" evidente.

Regiões de formação estelar. Segundo Bakich, telescópios grandes revelam nós de luz dentro do disco — regiões de formação de estrelas semelhantes à Nebulosa de Órion, com a mais brilhante, no lado sul do fuso da galáxia, visível a partir de cerca de 355 mm de abertura.

Estruturas notáveis

  • O fuso alongado. A forma dominante ao telescópio: uma névoa fina e alongada, com a barra central um pouco mais brilhante que as pontas (Bakich).
  • Os nós de formação estelar. Concentrações de luz dentro do disco, análogas a berçários estelares, visíveis só em telescópios grandes (355 mm ou mais) e céu muito escuro (Bakich).
  • A região sul mais brilhante. O nó de formação estelar mais fácil de ver fica no lado sul do fuso da galáxia (Bakich).
  • Variáveis vizinhas. Mobberley cita VV Draconis e SW Draconis como estrelas variáveis nas proximidades, embora sem relação física com a galáxia.

Como localizar

NGC 4236 fica cerca de 1,5° a oeste de Kappa Draconis, uma estrela de magnitude 3,9 na "cabeça" do Dragão (Bakich). Como a galáxia é grande, mas de brilho superficial muito baixo, ela pode passar despercebida mesmo dentro do campo correto de um buscador — vale usar um aumento baixo e varrer devagar a região ao redor de Kappa Draconis, dando tempo para o olho se adaptar ao escuro.

Carta de localização de NGC 4236: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de cerca de +69,5°, NGC 4236 é circumpolar — nunca se põe — para qualquer observador ao norte de aproximadamente 20,5° N, o que cobre praticamente toda a Europa, os Estados Unidos continentais, o Canadá e boa parte da Ásia. A altura máxima acima do horizonte é 90° menos a diferença entre a latitude do observador e a declinação do objeto: cerca de 61° a 40° N e 71° a 50° N — em ambos os casos, favorável a uma boa observação em qualquer época do ano.

E do Rio de Janeiro?

NGC 4236 nunca sobe acima do horizonte do Rio de Janeiro. A conta é a mesma do resto do artigo: a altura máxima seria 90° menos a diferença entre a latitude do Rio (−23°) e a declinação do objeto (+69°28′), o que dá um valor negativo, de cerca de −2,5°. É, portanto, um objeto sempre abaixo do horizonte para quem observa daqui, sem exceção de estação. Considerando ainda o brilho superficial baixíssimo da galáxia, mesmo se ela chegasse a raspar o horizonte, a extinção atmosférica próxima do horizonte tornaria a observação impraticável de qualquer forma. Os gráficos abaixo mostram a altura calculada para a localização do observatório do site (o Rio de Janeiro por padrão): a linha do objeto nunca cruza o horizonte.

Altura de NGC 4236 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. O objeto não passa de 30° à meia-noite em nenhuma época do ano.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZhoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Neste local o objeto não passa de 30° de altura no meio da noite em nenhuma época do ano.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -25°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
04:00 · -25° NNE
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
42 mag 9,8
Enquadramento
100 ocupa 52 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -36° — 101°
20:00 -38° — 101°
20:30 -40° — 101°
21:00 -41° — 101°
21:30 -42° — 101°
22:00 -43° — 102°
22:30 -44° — 102°
23:00 -44° — 102°
23:30 -43° — 102°
00:00 -42° — 102°
00:30 -41° — 102°
01:00 -39° — 102°
01:30 -37° — 102°
02:00 -35° — 103°
02:30 -33° — 103°
03:00 -30° — 103°
03:30 -28° — 103°
04:00 -25° — 103°
Altura de NGC 4236 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com -25°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · -25°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Invisível.
Binóculo Também invisível na prática, pela combinação de tamanho grande e brilho superficial baixo.
Telescópio de 150 a 250 mm Difícil: uma névoa alongada e fraca, fácil de confundir com o fundo do céu se a transparência não for excelente (Mobberley).
Telescópio de 350 mm ou mais Aqui a galáxia se torna um "fiapo" evidente, com a barra central mais destacada; em céu muito escuro, os nós de formação estelar começam a aparecer, principalmente o do lado sul (Bakich; Mobberley).

Expectativa honesta: este é, de fato, um objeto difícil — um dos exemplos clássicos de "magnitude enganosa" no catálogo Caldwell. Vale a pena mais como exercício de observação exigente, em céu muito escuro e com telescópio grande, do que como alvo de primeira sessão.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Um campo de 20′ a 30′ enquadra bem o disco brilhante medido pelo SIMBAD (12,5′ × 3′), com espaço de sobra; para capturar também a extensão fotográfica maior que os livros descrevem (até 21′ × 7,5′), um campo de 30′ a 40′ é mais seguro, deixando margem para o fuso completo da galáxia e algumas estrelas de campo ao redor.

Desafios do alvo

  • Brilho superficial extremamente baixo. É o principal obstáculo: são necessárias muitas horas de exposição total, sob céu muito escuro, para revelar o disco com contraste razoável.
  • Poluição luminosa é fatal aqui. Ao contrário de nebulosas de emissão, que se beneficiam de filtros de banda estreita, uma galáxia como NGC 4236 depende inteiramente de um céu de fundo escuro; não há filtro que resolva um céu urbano para este alvo.
  • Os nós de formação estelar são sutis. Revelar as regiões HII dentro do disco pede processamento cuidadoso para não estourar o núcleo enquanto se tenta realçar as partes mais fracas.

Equipamento e filtros

Câmera colorida de um disparo funciona, mas o fator decisivo aqui é o tempo total de integração, não o tipo de câmera. Um filtro de poluição luminosa de banda larga pode ajudar um pouco em céu suburbano, mas o ideal é mesmo um céu rural, com pouca ou nenhuma Lua.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (RGB ou colorida) 80 a 150 180 a 300 s Disco e nós de formação estelar; o tempo total é o que mais importa
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros.

Smart telescopes e campo de visão

NGC 4236 cabe no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), mas o brilho superficial baixo exige muitas horas de empilhamento e um céu bem escuro para o resultado compensar — não é um alvo de sessão rápida. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

NGC 4236 é um objeto que ensina paciência: uma galáxia grande, de magnitude nada desprezível, que se esconde atrás do próprio tamanho. É um bom alvo para quem já tem prática com galáxias de baixo brilho superficial e um céu realmente escuro à disposição, do hemisfério norte. Do Rio de Janeiro, ela está simplesmente fora do alcance, como boa parte dos primeiros números do catálogo Caldwell. Quem quiser continuar pelo mesmo canto do céu pode seguir para a vizinha Nebulosa Olho de Gato (NGC 6543), também em Draco.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 238 (NGC 4236).
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 3, p. 18-19.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, magnitude e dimensões de NGC 4236, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.