setembro 22, 2026
Microscópio: a constelação mais discreta do inventário de Lacaille

Se você já ouviu falar de quase todas as 88 constelações, o Microscópio é uma prova de que ainda existem cantos do céu quase sem nome. Não tem mitologia, não tem estrela de segunda magnitude, não tem sequer uma estrela batizada oficialmente pela União Astronômica Internacional. O que ela tem é uma origem muito clara: foi desenhada no século XVIII para caber um instrumento de laboratório entre duas constelações bem mais vistosas, o Peixe Austral e Sagitário. Este guia existe para que, mesmo sendo uma das áreas mais fracas do céu, o Microscópio também tenha o seu lugar no catálogo.
Uma constelação de instrumento, sem brilho e sem mito
O Microscópio (Microscopium, abreviatura Mic) ocupa cerca de 210 graus quadrados do céu (Moore, Astronomy Encyclopedia, verbete Microscopium), entre o Peixe Austral ao norte, Sagitário a oeste, Coroa Austral, Índio, Telescópio e Grou ao redor. Foi criada pelo astrônomo francês Nicolas-Louis de Lacaille durante sua expedição ao Cabo da Boa Esperança em meados do século XVIII, quando batizou catorze constelações austrais com nomes de instrumentos científicos e artísticos da época (Mourão, verbete Microscopium). O nome celebra a invenção do microscópio, e não há nenhuma figura, herói ou animal por trás dele: é ciência pura, desenhada no céu.
A consequência prática é que o Microscópio é uma das constelações mais fracas do hemisfério sul. Nenhuma de suas estrelas passa da magnitude 4,6, e nenhuma tem nome próprio consagrado pela IAU — todas são conhecidas só pela letra grega. Quem procura o Microscópio não vai encontrar nada que salte aos olhos: vai encontrar um pequeno quadrilátero de estrelas fracas, útil sobretudo como um marco entre vizinhas mais fáceis.
Isso não significa que ela seja inútil de se conhecer. Pelo contrário: aprender a reconhecer uma constelação fraca, a partir de vizinhas brilhantes, é um exercício de observação tão válido quanto admirar o Escorpião ou as Plêiades — e o Microscópio é um bom teste de céu escuro.
Quando e como achar
Melhor época. O Microscópio culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21 horas locais no fim de setembro, então a boa temporada de observação vai de agosto a novembro: em agosto ele nasce cedo, em setembro e outubro domina o início da noite, e em novembro já se inclina para o oeste.
Para onde olhar. O Microscópio fica ao sul do equador celeste, então do Brasil ele culmina olhando para o sul, com o norte para cima. A tabela abaixo mostra a altura máxima de alfa Microscopii, a mais brilhante da constelação (mag. 4,89), para sete cidades brasileiras.
| Cidade | Altura máxima de α Mic |
|---|---|
| Boa Vista (RR) | 53° |
| Manaus (AM) | 59° |
| Recife (PE) | 64° |
| Brasília (DF) | 72° |
| Rio de Janeiro (RJ) | 79° |
| São Paulo (SP) | 80° |
| Porto Alegre (RS) | 86° |
Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós a partir da declinação de α Mic (catálogo do site) e da latitude de cada cidade; valores arredondados.

Passo a passo.
- Comece pelo Peixe Austral e sua estrela Fomalhaut, bem brilhante e fácil de reconhecer no início da noite de primavera.
- Sagitário fica a oeste do Microscópio, com a "chaleira" (Sigma, Tau e vizinhas) servindo de referência.
- O Microscópio ocupa o espaço entre os dois, um pouco ao sul de Capricórnio: procure um pequeno quadrilátero de estrelas fracas (mag. 4 a 5), sem nada que se destaque. Épsilon e teta¹ Mic formam o lado leste; alfa e gama, o lado oeste.
- Céu escuro é obrigatório: em cidade grande, é bem provável que nenhuma das quatro estrelas principais apareça a olho nu.
As estrelas do Microscópio
| Estrela | Brilho visual (mag.) | Índice de cor (B-V) |
|---|---|---|
| Alfa Mic | 4,89 | 1,00 (amarelo-alaranjada) |
| Gama Mic | 4,67 | 0,89 (amarelo-alaranjada) |
| Épsilon Mic | 4,71 | 0,07 (branco-azulada) |
| Teta¹ Mic | 4,80 | 0,03 (branco-azulada) |
Brilhos e índices de cor do catálogo interno do site (HYG v4.1); nenhuma das quatro tem nome próprio reconhecido pela IAU, e nenhum dos livros de apoio consultados traz distância, tipo espectral ou paralaxe individual para essas estrelas.
Nenhuma das quatro estrelas listadas passa de magnitude 4,6, e é por isso que os livros de referência tratam o Microscópio quase sempre de passagem, sem uma seção própria: o Philip's Astronomy Encyclopedia dedica uma frase à constelação, só para registrar a origem do nome e a data de criação por Lacaille (verbete Microscopium, p. 272 do arquivo). Gama Mic e alfa Mic têm cor mais alaranjada (índice de cor próximo de 0,9 a 1,0, típico de uma gigante K), enquanto épsilon e teta¹ são mais brancas e quentes (índice de cor perto de zero, típico de tipo A). Sem uma consulta pontual ao SIMBAD, não é possível cravar tipo espectral, distância ou classe de luminosidade de cada uma com segurança — o que ficou registrado nas pendências deste artigo.
Um objeto de céu profundo: NGC 6925
O único objeto do catálogo do site dentro dos limites do Microscópio é a NGC 6925, uma galáxia espiral vista quase de perfil, de magnitude 11,35 e cerca de 4,7 minutos de arco de extensão, perto da borda leste da constelação (na direção do Grou e do Peixe Austral). É um alvo de telescópio médio a grande, fora do alcance de binóculos comuns, e não há registro dela em nenhum dos livros de apoio consultados para este guia — o que é coerente com o perfil geral do Microscópio: uma constelação pobre também em objetos de céu profundo catalogados. Não existe, até o momento, um guia próprio de NGC 6925 publicado no site.
Uma constelação sem mito, feita de ciência
Ao contrário da maioria das constelações — que carregam heróis, animais e deuses de tradições antigas —, o Microscópio nasceu direto de uma prancheta. Lacaille, trabalhando no Cabo da Boa Esperança entre 1751 e 1752, criou catorze novas constelações austrais, batizadas com nomes de instrumentos da ciência e das artes do Iluminismo: o microscópio, o telescópio, o compasso, o relógio, a máquina pneumática, o octante e outros (Mourão, verbete Microscopium; ver também a nota geral sobre Lacaille no catálogo do projeto). Não há mito de origem, não há mudança em animal nem em herói: o céu simplesmente ganhou um instrumento de laboratório.
Isso torna o Microscópio um bom contraponto às constelações mais antigas deste guia: prova de que nem todo desenho no céu vem de uma história de deuses gregos. Às vezes, o céu só documenta o que a ciência estava celebrando naquele momento.
Roteiro de observação
| Instrumento | O que ver |
|---|---|
| A olho nu | Praticamente nada em céu urbano; em céu escuro (Bortle 4 ou melhor), o quadrilátero fraco das quatro estrelas principais. |
| Binóculo (10×50) | As quatro estrelas resolvidas com facilidade, mesmo sob leve poluição luminosa. |
| Telescópio médio (150 mm ou mais) | A galáxia NGC 6925, um alongamento tênue de baixo contraste — exige céu escuro e paciência. |
Dicas de campo:
- Escolha uma noite sem Lua entre agosto e novembro, em céu bem escuro — o Microscópio não perdoa poluição luminosa.
- Use Fomalhaut (Peixe Austral) e a "chaleira" de Sagitário como âncoras: o Microscópio fica exatamente entre as duas.
- Não espere nenhum "uau" a olho nu; o valor de observar o Microscópio está em treinar o olho a reconhecer padrões fracos.
Referências
- MOORE, Patrick (ed.). Astronomy Encyclopedia. Londres: Philip's. Verbete "Microscopium", p. 272 do arquivo consultado (página impressa a confirmar).
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Microscopium", p. 573 do arquivo consultado (página impressa a confirmar).
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar e nos dados de brilho e cor das estrelas; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.