setembro 22, 2026

Máquina Pneumática: a constelação fraca de Lacaille entre a Bússola e a Vela

Carta estelar da Máquina Pneumática como aparece do Brasil, olhando para o sul: o contorno de quatro estrelas fracas entre a Bússola e a Vela, sem nenhuma estrela batizada, com a galáxia NGC 2997 marcada em verde

Nem toda constelação precisa ser bonita para merecer um lugar no céu — e a Máquina Pneumática é a prova disso. Não tem mito, não tem estrela de nome próprio, não tem brilho: é um conjunto de quatro estrelas fracas, entre a Bússola e a Vela, que só existe porque um astrônomo francês do século XVIII decidiu preencher um vazio do mapa celeste com o desenho de um instrumento de laboratório. Este guia mostra onde ela fica, o que dá para ver ali e por que, mesmo sem brilho, vale a pena reconhecê-la.

Uma constelação sem brilho, de propósito

A Máquina Pneumática (Antlia, abreviatura Ant) é uma constelação austral pequena e fraca, com cerca de 239 graus quadrados (Mourão, verbete Antlia, p. 44). Fica encaixada entre Hidra a norte, Vela ao sul, Bússola a oeste e Centauro a leste (Mourão, p. 44; Philip's, verbete Antlia). Não é fácil de reconhecer no céu: está numa região pobre em estrelas brilhantes, e sua estrela mais luminosa, Alfa Antliae, tem magnitude 4,3 a 4,4 — no limite do que se vê a olho nu sob céu urbano (Mourão, p. 44; Philip's).

Foi o astrônomo e abade francês Nicolas-Louis de La Caille quem a descreveu pela primeira vez, na obra Coelum Australe Stelliferum, publicada em 1763, a partir de observações feitas no Cabo da Boa Esperança entre 1750 e 1754 (Mourão, p. 44; Ridpath, na ideia oy-p095-lacaille-e-constelacoes-do-sul). O nome original, Antlia pneumatica, foi escolhido para homenagear o físico alemão Otto von Guericke (1602-1686), inventor da máquina pneumática (a bomba de vácuo, usada nas suas famosas experiências com os hemisférios de Magdeburgo) (Mourão, p. 44). Em português, o nome virou "Máquina Pneumática" ou, em listas mais técnicas, "Bomba Pneumática" (Vieira, tabela das 88 constelações).

Não há praticamente nada além disso nos livros consultados: é uma constelação moderna, sem lenda, sem estrela batizada e sem lugar de destaque em nenhum catálogo de observação popular. Isso não é motivo para pular o guia — é justamente o tipo de honestidade que faz sentido registrar: das 88 constelações oficiais, boa parte é discreta como esta.

Quando e como achar

Melhor época. Com centro perto de RA 10h10m e Dec -33,5°, a Máquina Pneumática culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21h locais no início/meados de abril. A boa temporada de observação vai de fevereiro a maio.

Para onde olhar. Como a declinação central fica bem abaixo de -23° (a latitude do Rio de Janeiro), a constelação culmina ao sul do zênite em todo o Brasil: a carta abaixo mostra o céu olhando para o sul, com o norte para cima e o leste à esquerda.

Cidade Altura de Alfa Antliae (a mais brilhante)
Boa Vista (RR) 56°
Manaus (AM) 62°
Recife (PE) 67°
Brasília (DF) 75°
Rio de Janeiro (RJ) 82°
São Paulo (SP) 82°
Porto Alegre (RS) 89°

Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós com a declinação do catálogo do site (-31,07°) e a latitude de cada cidade; valores arredondados. A Máquina Pneumática é visível, e bem alta, de qualquer ponto do Brasil — passa quase no zênite em Porto Alegre.

Carta estelar da Máquina Pneumática como aparece do Brasil, olhando para o sul: o contorno de quatro estrelas fracas entre a Bússola e a Vela, sem nenhuma estrela batizada, com a galáxia NGC 2997 marcada em verde
Carta estelar da Máquina Pneumática como ela aparece do Brasil ao olhar para o sul: o norte fica em cima e o leste à esquerda. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial. A linha laranja tracejada larga é o limite oficial da constelação. Em verde-claro, o único objeto de céu profundo citado neste artigo. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo. Não há como usar estrelas batizadas como referência, porque não existe nenhuma na constelação. O caminho mais confiável é partir de vizinhas mais fáceis: localize primeiro a Bússola (Pyxis), a oeste, ou a cauda de Hidra, a norte, e depois procure o quadrilátero apagado formado por Alfa, Épsilon, Iota e Teta Antliae, todas entre a 4ª e a 5ª magnitude — um binóculo ajuda bastante em céu com qualquer poluição luminosa.

As estrelas de Antlia

Estrela Brilho visual (mag.) Posição (RA / Dec)
Alfa Antliae 4,28 10h27m / -31,1°
Épsilon Antliae 4,51 9h29m / -36,0°
Iota Antliae 4,60 10h57m / -37,1°
Teta Antliae 4,78 9h44m / -27,8°

Magnitudes e posições do catálogo do site (HYG v4.1); nenhuma das quatro tem nome próprio reconhecido pela IAU, por isso a carta não traz rótulos de estrela.

Alfa Antliae, a mais brilhante, é uma gigante alaranjada (tipo espectral K, por volta de K4 III) a algumas centenas de anos-luz de distância — um alvo discreto, sem cor marcante a olho nu por causa do brilho baixo, mas com um tom levemente alaranjado perceptível em binóculo. Épsilon Antliae é outra gigante fria, um pouco mais distante. Teta Antliae, perto da fronteira com Hidra, é a mais próxima da eclíptica das quatro, embora a eclíptica não chegue a cruzar a constelação. Iota Antliae, no canto sudeste, fica perto da fronteira com Vela. Nenhuma delas tem companheira famosa ou variabilidade digna de nota nos livros consultados; a exceção é a dupla larga citada pelo Philip's, formada por duas estrelas de magnitude 5,9 e 6,2 (provavelmente Épsilon Antliae e sua companheira óptica), separável em binóculo (Philip's, verbete Antlia).

A galáxia NGC 2997

O único objeto de céu profundo que vale a pena procurar em Antlia é a NGC 2997, uma galáxia espiral de magnitude 9,3 a 9,4 e cerca de 10 por 6 minutos de arco, a maior e mais brilhante das cinco galáxias do catálogo do site dentro dos limites da constelação (Bakich, objeto nº 123; catálogo do site). Fica a cerca de 3° a leste-nordeste de Zeta² Antliae, uma estrela de magnitude 5,9 (Bakich). Em telescópio de 25 cm, mostra-se como uma mancha oval alongada no sentido leste-oeste, com núcleo brilhante e espaços escuros quebrados que marcam a região entre os braços espirais; o halo externo mais fraco lembra um anel ligeiramente mais claro ao redor do centro (Bakich, objeto nº 123). É o próprio Philip's que chama NGC 2997 de "o objeto de céu profundo mais brilhante de Antlia" (Philip's, verbete Antlia).

As outras quatro galáxias do catálogo do site na constelação — NGC 3223, NGC 3175, NGC 3347 e NGC 3137 — são mais fracas (magnitude 11 a 11,6) e não têm fonte bibliográfica de apoio nesta pesquisa; ficam de fora deste guia até que surjam boas notas de observação sobre elas.

Mitologia e história

Antlia não tem mitologia: é uma das 14 constelações criadas por Nicolas-Louis de La Caille durante sua estadia no Cabo da Boa Esperança, entre 1750 e 1754, junto com outras como Sculptor, Fornax, Reticulum, Pictor e Octans (ideia oy-p095-lacaille-e-constelacoes-do-sul, a partir de Moore). Como boa parte das constelações modernas do hemisfério sul, ela nasceu de um critério instrumental — preencher o mapa do céu austral com o desenho de aparelhos científicos e ferramentas do século XVIII, e não de uma figura mitológica (Patrick Moore's Data Book of Astronomy, ideia db-p385-quem-inventou-as-constelacoes-modernas, p. 388).

Vale registrar uma curiosidade de vizinhança: Antlia fica ao lado de três pedaços do antigo Argo Navis — Vela, Puppis e Carina —, a enorme constelação grega do Navio Argo, dos Argonautas, que o próprio La Caille dividiu em partes menores no mesmo período em que criou a Máquina Pneumática (Philip's, ideia en-p010-ceu-do-sul-de-argo-navis-a-alma, p. 35). Antlia em si nunca fez parte do Argo Navis — foi desenhada do zero, num espaço vazio do céu ao lado dele.

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu Praticamente nada de específico: em céu bem escuro, dá para notar as quatro estrelas principais como pontos fracos, sem desenho reconhecível.
Binóculo (10×50) As quatro estrelas do quadrilátero de Antlia, incluindo a possível dupla larga perto de Épsilon; um bom teste de céu escuro, porque a região é pobre em estrelas.
Telescópio pequeno a médio (15 a 25 cm) NGC 2997: núcleo brilhante, forma oval alongada e, em céu escuro, os primeiros indícios da estrutura espiral.

Dicas de campo:

  • Escolha uma noite sem Lua entre fevereiro e maio, em céu o mais escuro possível — a poluição luminosa apaga rápido as quatro estrelas de Antlia.
  • Use a Bússola (Pyxis) ou a Vela como ponto de partida, porque nenhuma estrela de Antlia é fácil de identificar sozinha.
  • NGC 2997 pede telescópio de pelo menos 15 a 20 cm de abertura para mostrar alguma estrutura; em instrumentos menores, é só uma mancha oval fraca.

Referências

  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Antlia", p. 44.
  • MOORE, Patrick (ed.). Astronomy Encyclopedia (Philip's). Londres: Philip's. Verbete "Antlia", p. 20 (paginação interpolada a partir do texto digitalizado).
  • MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press. Antlia e as constelações modernas de Lacaille, p. 388.
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. Londres: Springer. Lacaille e as constelações austrais, p. 98, 132-133.
  • VIEIRA, Fernando. Identificação do céu. Tabela das 88 constelações (nome em português "Máquina Pneumática").
  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die. New York: Springer, 2010. Objeto nº 123 (NGC 2997), p. 55 (paginação interpolada).
  • Catálogo de dados de céu profundo e estelares do site Astronomia no Telhado (HYG v4.1, CC BY-SA 4.0), consultado em 21 set. 2026.