setembro 21, 2026

M 78, a Nebulosa de Reflexão de Órion: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M78 — Nebulosa de Reflexão de Órion — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Nem toda nebulosa do céu brilha com luz própria. M 78, em Órion, é uma nuvem de poeira que reflete a luz de duas estrelas jovens embutidas nela, como uma neblina iluminada por faróis — o mesmo princípio físico que faz o céu diurno ser azul. É a nebulosa de reflexão mais brilhante do catálogo Messier e uma das poucas desse tipo visíveis em instrumentos amadores comuns, o que a torna um ótimo contraponto de aprendizado à vizinha M 42, uma nebulosa de emissão. Este guia reúne os dados, o mapa, os gráficos de altura e a estratégia de observação e de captura de M 78.

Texto em revisão. Este é um dos guias do novo formato de objeto do site. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de M78 — Nebulosa de Reflexão de Órion — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: uma nebulosa de reflexão, não de emissão

Das seis nebulosas difusas do catálogo de Messier, M 78 é a única que é, predominantemente, uma nebulosa de reflexão pura (Borgia). A diferença é fundamental para saber o que esperar ao telescópio: uma nebulosa de emissão, como M 42 ou M 8, tem o próprio gás de hidrogênio ionizado pela radiação ultravioleta de estrelas muito quentes, e reemite luz própria, sobretudo na linha vermelha do hidrogênio-alfa. Uma nebulosa de reflexão, como M 78, não brilha por si: é poeira fria que espalha e reflete a luz de estrelas próximas, geralmente mais frias que as ionizantes de uma região de emissão — o mesmo efeito de espalhamento que deixa o céu da Terra azul (Mollise).

Quem a ilumina. M 78 é iluminada por um pequeno par de estrelas jovens e quentes embutidas na nuvem de poeira, parte da mesma região de formação estelar que inclui M 42, mais ao sul (Mollise). Essas estrelas não são quentes o bastante para ionizar o gás ao redor de forma significativa; o resultado é uma mancha de luz azulada e difusa, em vez do vermelho-magenta típico das nebulosas de emissão.

Números. As fontes trazem magnitude integrada de cerca de 8,0 e um tamanho angular que vai de 4′ a 8′ (nucleo brilhante) a 8′ × 6′ (Kier) ou 8′ × 4′ (Mollise), dependendo de quanto de nebulosidade fraca cada autor inclui na medida. A distância citada nos livros é de 1.500 a 1.600 anos-luz (Mollise; Kier), praticamente a mesma do complexo de Órion como um todo, já que M 78 faz parte da mesma grande nuvem molecular. O SIMBAD não lista paralaxe própria para o objeto.

Descoberta. Mollise atribui a descoberta a Pierre Méchain, em 1780, quase setenta anos depois de M 42 ter sido registrada ao telescópio. Charles Messier incluiu o objeto em seu catálogo pouco depois.

Companheira. A cerca de 15′ a nordeste fica NGC 2071, uma segunda nebulosa de reflexão menor, com cerca de 4′ de extensão, iluminada por sua própria estrela e parte do mesmo complexo de poeira (Mollise).

Estruturas notáveis

  • O par de estrelas iluminadoras. Duas estrelas de magnitude 10, separadas por cerca de 55″, embutidas na nebulosa e visíveis já em refratores pequenos; são elas que dão à nuvem seu brilho azulado (Mollise).
  • A forma "de cometa". Em telescópios médios a grandes, M 78 lembra a cabeça e a cauda de um cometa: um núcleo mais brilhante ao redor das duas estrelas, esmaecendo gradualmente para um lado (Coe, sobre a impressão visual em abertura grande).
  • A textura "mosqueada". Observadores relatam manchas e variações sutis de brilho dentro da nebulosa, mais visíveis em aberturas de 300 mm ou mais e sob céu escuro (Coe).
  • NGC 2071. A segunda nebulosa de reflexão do mesmo campo, menor e mais fraca, útil como comparação de brilho superficial no mesmo enquadramento (Mollise).
  • McNeil's Nebula. Uma pequena nebulosa variável perto de M 78, descoberta por um astrônomo amador; aparece e desaparece de forma irregular, ligada à atividade de uma estrela jovem em formação (Mollise). É um alvo de curiosidade histórica, não um objeto fixo para observação de rotina.

Como localizar

M 78 fica cerca de 2,3° a nordeste de Alnitak (Zeta Orionis), a estrela mais a leste do Cinturão de Órion, no mesmo campo de um binóculo de campo largo (Kambič; Mollise). Aponte para Alnitak e desloque o campo na direção nordeste; a nebulosa aparece como uma mancha redonda e fraca, parecida com uma estrela desfocada, ainda em binóculo (Kambič). Ao telescópio, comece com uma ocular de baixo aumento (cerca de 50x) para localizar o campo e depois aumente para 100-150x para ver a estrutura interna (Mollise).

Carta de localização de M78: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

M 78 passa quase pelo zênite do observador em latitudes tropicais e subtropicais do hemisfério sul, já que fica muito perto do equador celeste. Como Órion domina o céu do verão austral, M 78 acompanha M 42 e M 43 na mesma temporada e na mesma região do céu, culminando alta e favorecendo a nitidez da imagem.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho de M 78 pelo céu nesta noite.

Altura de Nebulosa de Reflexão de Órion ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de outubro a fevereiro. O objeto chega a 67° à meia-noite em dezembro.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ17 dez · 67°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de outubro a fevereiro (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 67° em 17 de dezembro.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
04:00 · 67° N
Horas acima de 45°
2,5 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
63 / 100
Posição no céu
68
Brilho
69 mag 8,0
Enquadramento
40 ocupa 10 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M78 — Nebulosa de Reflexão de Órion pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 22:20 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 04:00, com 67°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO23:0000:0001:0002:0003:0004:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -37° — 131°
20:00 -31° — 132°
20:30 -24° — 132°
21:00 -17° — 132°
21:30 -10° — 132°
22:00 -3° — 132°
22:30 4° E 88° 133°
23:00 11° E 85° 133°
23:30 17° E 82° 133°
00:00 24° E 79° 133°
00:30 31° ENE 75° 133°
01:00 38° ENE 71° 134°
01:30 44° ENE 66° 134°
02:00 50° ENE 59° 134°
02:30 56° NE 51° 134°
03:00 61° NE 40° 134°
03:30 65° NNE 26° 135°
04:00 67° N 9° 135°
Altura de M78 — Nebulosa de Reflexão de Órion ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com 67°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · 67°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Invisível.
Binóculo (10×50 ou mais) Uma mancha redonda e fraca, parecida com uma estrela desfocada, no campo a nordeste de Alnitak; é uma das poucas nebulosas verdadeiras (não aglomerados não resolvidos) visíveis em binóculos comuns (Kambič).
Telescópio de 80 a 150 mm Já visível como mancha em refratores pequenos (80 mm f/5); em 100 a 150 mm, com 100-150x, aparecem as duas estrelas centrais e uma forma alongada (Mollise).
Telescópio de 300 mm ou mais Em instrumentos grandes (17,5″ citado por Coe) e boa ampliação, a nebulosa lembra um cometa, com forma triangular de luz e sombra, cerca de cinco estrelas na região e uma textura mosqueada.

A lição do filtro. Em teoria, filtros de banda estreita (UHC, OIII) ajudam pouco em nebulosas de reflexão, porque elas não emitem nas linhas espectrais que esses filtros isolam — são a poeira que reflete luz de amplo espectro, não gás ionizado. Ainda assim, Mollise relata ter visto M 78 aumentar de tamanho e ganhar lóbulos com um filtro UHC, sinal de que a nebulosa também tem algum componente de emissão misturado à reflexão; já Coe observou o oposto em nebulosas de reflexão mais puras, onde o UHC reduz o objeto à metade. Vale experimentar os dois cenários: com e sem filtro.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

M 78 e NGC 2071 cabem no mesmo quadro com um campo moderado, de cerca de 20′ a 30′. Kier lembra que M 78 é um alvo "frustrante" para fotografar por seu baixo contraste com o céu de fundo, e sugere um campo um pouco maior do que o estritamente necessário para dar "respiro" à composição. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°), a nebulosa e sua vizinha cabem com folga, deixando bastante espaço de céu ao redor — um enquadramento mais fechado, com uma focal maior, pode valer a pena para destacar a estrutura interna.

Desafios do alvo

  • Baixo contraste. M 78 tem brilho superficial baixo e bordas difusas, difíceis de separar do fundo do céu sob poluição luminosa. Kier recomenda não afiar demais a imagem, já que isso realça ruído em vez de detalhe real.
  • Estrelas iluminadoras muito mais brilhantes que o gás. As duas estrelas centrais podem saturar antes que a nebulosa mais fraca apareça bem exposta; um tratamento separado das estrelas ajuda.
  • Cor "lavada". Kier observa que, se a cor da nebulosa empalidecer no processamento, pode ser necessário aplicar a camada de luminância com opacidade menor que 100%, em vez da mistura padrão.

Equipamento e filtros

Como nebulosa de reflexão, M 78 não se beneficia de filtros de banda estreita (H-alfa, OIII) da mesma forma que nebulosas de emissão — eles cortam justamente o espectro amplo que a poeira reflete. Uma câmera colorida de um disparo sob céu razoavelmente escuro, ou um conjunto de filtros LRGB em câmera monocromática, tende a funcionar melhor que a banda estreita para este alvo específico. Sob céu urbano (Bortle 7), um filtro de redução de polução luminosa de banda larga pode ajudar mais que um dual-band.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 60 a 90 120 a 180 s Capturar o brilho baixo e difuso da nebulosa
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

M 78 e NGC 2071 cabem confortavelmente no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), mas o baixo brilho superficial da nebulosa de reflexão pede várias horas de empilhamento para separar bem a estrutura do ruído de fundo — é um alvo mais lento de "revelar" do que uma nebulosa de emissão brilhante como M 42. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 78 é o contraponto perfeito para quem já observou M 42: a mesma vizinhança de Órion, mas um mecanismo físico diferente por trás do brilho, e uma lição prática sobre os limites dos filtros de nebulosa. É um alvo acessível em binóculos, gratificante em telescópios médios e um bom exercício de paciência em astrofotografia. Se você ainda não visitou o resto do complexo, veja o guia de M 42, a Grande Nebulosa de Órion.

Referências

  • BORGIA, Michael P. Human Vision and the Night Sky: How to Improve Your Observing Skills. New York: Springer, 2006. Emissão, reflexão e regiões HII, p. 238-239.
  • COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. Cabeça da Bruxa (IC 2118) e M 78, p. 51, 75.
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Órion além da Grande Nebulosa: M 78 e o Laço de Barnard, p. 372-373.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. Cabeça de Cavalo, Chama e M 78, p. 31-37.
  • MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. New York: Springer. M 78 e a lição do filtro UHC, p. 201-209 (a confirmar).
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas de M 78, em 21 set. 2026 (sem paralaxe disponível para o objeto).
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.