setembro 21, 2026
M73, o pequeno grupo de estrelas de Aquário: guia completo de observação

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Nem todo objeto do catálogo Messier é uma nebulosa deslumbrante ou um aglomerado repleto de estrelas. M73 é a prova disso: um pequeno grupo de apenas quatro estrelas em Aquário, sem relação física comprovada entre si, que Charles Messier catalogou como se fosse um aglomerado nebuloso. É, para muitos observadores, "o Messier mais decepcionante" — mas também um dos mais interessantes do ponto de vista histórico, porque levanta uma pergunta simples e nada óbvia: o que, exatamente, torna um agrupamento de estrelas um "objeto" de catálogo? Este guia conta a história, explica o debate científico sobre a natureza de M73 e mostra como observá-lo com honestidade, sem prometer o que ele não é.
Texto em revisão. Este é um dos guias do novo formato de artigo de objeto. Ele reúne dados, mapas, gráficos de altura e estratégia de observação em um só lugar. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que Messier viu, afinal?
Em outubro de 1780, Charles Messier registrou uma "aglomeração de três ou quatro estrelas pequenas, que se parece com um aglomerado" na posição que hoje chamamos de M73 (NGC 6994). Ele descreveu certa nebulosidade ao redor do grupo — mas observadores posteriores, com instrumentos muito melhores, nunca confirmaram essa nebulosidade (Monks). O resultado é um objeto Messier que, ao contrário de quase todos os outros 109 do catálogo, não é uma nuvem de gás, nem um aglomerado estelar denso, nem uma galáxia: é apenas um pequeno grupo de quatro estrelas moderadamente próximas na esfera celeste.
Um debate real entre astrônomos. Segundo Monks, há duas visões sobre M73. Uma defende que se trata de um simples alinhamento por acaso: quatro estrelas que, vistas da Terra, parecem próximas, mas na verdade estão a distâncias diferentes e não têm relação física alguma. A outra argumenta que a chance de quatro estrelas de brilho parecido se alinharem tão bem por puro acaso é pequena, e que M73 poderia ser o que sobrou de um aglomerado aberto antigo, cujas demais estrelas já se dispersaram havia muito tempo, sob o efeito da gravidade da Galáxia — um resquício de aglomerado, e não um agrupamento aleatório. A evidência hoje pende para a primeira hipótese: as quatro estrelas parecem estar a distâncias diferentes e se mover em direções distintas, o que sugere que não formam, de fato, um sistema ligado (Monks).
O SIMBAD concorda com a suspeita. Uma consulta ao banco de dados SIMBAD pela designação NGC 6994 retorna o objeto classificado com o tipo "err" — uma marcação usada para entradas identificadas como erros ou casos duvidosos —, sem magnitude, paralaxe ou dimensões associadas ao "objeto" como um todo. Isso é coerente com a natureza de M73: não existe uma "distância de M73", porque não há um objeto físico único para medir.
Por que M73 continua no catálogo. Ainda que hoje pareça óbvio que M73 não é uma nebulosa nem um aglomerado real, ele permanece no catálogo Messier por razões históricas: Messier o catalogou de boa-fé, com os instrumentos que tinha, e retirar objetos do catálogo depois de dois séculos apagaria parte da história da própria astronomia observacional. M73 faz companhia a outras entradas "estranhas" do catálogo, como M40 (uma simples estrela dupla) e M102 (provavelmente uma duplicata de M101) — um lembrete de que até os grandes observadores da história cometeram enganos honestos, e de que isso também faz parte da ciência.
Outros "Messier estranhos". M73 não está sozinho nessa categoria de objetos que fogem do padrão. O catálogo tem pelo menos mais quatro entradas peculiares: M24 é, na verdade, uma grande nuvem estelar da Via Láctea, não um único objeto compacto; M40 é apenas uma estrela dupla, sem nenhuma nebulosidade associada; e M47 e M48 acabaram, ao longo da história, ligados a designações NGC diferentes das originalmente esperadas, por causa de erros de posição nas anotações do próprio Messier (Machholz). Lembrar dessas outras entradas ajuda a colocar M73 em contexto: catalogar o céu a olho e com instrumentos rudimentares, há mais de duzentos anos, envolvia esse tipo de imprecisão — e reconhecer isso não diminui o mérito histórico do catálogo, só o torna mais humano.
Estruturas notáveis
- O grupo de quatro estrelas. Um "quase-triângulo" formado por três estrelas, com uma quarta um pouco afastada em direção nor-noroeste, segundo a descrição de Bakich — a mesma configuração que confundiu Messier há mais de dois séculos.
- Nenhuma nebulosidade real. Observações modernas, visuais e fotográficas, nunca confirmaram gás ou poeira associados às estrelas (Monks). O que Messier interpretou como neblina provavelmente foi um efeito do seu telescópio ou da percepção, não um objeto físico.
- A vizinhança com M72. M73 fica a apenas 1,2° a leste de M72, um aglomerado globular denso e genuíno — o contraste entre os dois, lado a lado no mesmo campo de busca, é parte do valor didático de observar M73. Veja o guia de M72.
Como localizar
M73 fica cerca de 3° a oés-sudoeste de Ni Aquarii (magnitude 4,5) e apenas 1,2° a leste de M72 (Bakich) — a forma mais prática de encontrá-lo é localizar primeiro M72 e depois deslocar o campo de visão para leste. Como o "objeto" é só um punhado de estrelas fracas, um binóculo ou um buscador de campo amplo ajuda a confirmar a posição antes de aumentar a ampliação.

Quando e como observar
Com declinação de cerca de −12,6°, M73 passa quase tão alto no céu do Rio de Janeiro quanto seu vizinho M72: a altura máxima no meridiano é de 90° − |−23° − (−12,6°)| ≈ 79,6°, perto do zênite. A ascensão reta de cerca de 20h59m coloca a melhor época de observação no fim do inverno e começo da primavera austral.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 19:30 · 80° N
- Horas acima de 45°
- 3,3 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 70 / 100
- Posição no céu
- 81
- Brilho
- 55 mag 8,9
- Enquadramento
- 50 (sem tamanho cadastrado)
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 80° | N 356° | 88° |
| 20:00 | 77° | NW 322° | 88° |
| 20:30 | 72° | WNW 302° | 87° |
| 21:00 | 66° | WNW 291° | 87° |
| 21:30 | 59° | WNW 284° | 87° |
| 22:00 | 52° | W 279° | 87° |
| 22:30 | 45° | W 275° | 86° |
| 23:00 | 38° | W 272° | 86° |
| 23:30 | 32° | W 269° | 86° |
| 00:00 | 25° | W 266° | 86° |
| 00:30 | 18° | W 264° | 85° |
| 01:00 | 11° | W 261° | 85° |
| 01:30 | 4° | WSW 258° | 85° |
| 02:00 | -3° | — | 85° |
| 02:30 | -9° | — | 84° |
| 03:00 | -16° | — | 84° |
| 03:30 | -22° | — | 84° |
| 04:00 | -28° | — | 84° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Invisível — são estrelas individuais fracas, não um objeto difuso. |
| Binóculo (10×50) | Provavelmente um único ponto indistinto, sem separação das quatro estrelas. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | As quatro estrelas começam a se separar; o "objeto" revela sua verdadeira natureza de pequeno grupo estelar, não de nebulosa ou aglomerado denso. |
| Telescópio de 200 mm ou mais | As quatro estrelas bem definidas e isoladas, sem qualquer nebulosidade ao redor — o mesmo que geraram gerações de decepção entre observadores que esperavam mais de um objeto Messier. |
Expectativa honesta: não espere um espetáculo. M73 vale a visita pela curiosidade histórica e pela oportunidade de discutir, na prática, o que diferencia um "objeto" real de um efeito de perspectiva — não pela beleza visual. Muitos observadores experientes o descrevem como o Messier mais anticlimático de todos, e é justo concordar.
Astrofotografia: estratégia de captura
M73 não é um alvo tradicional de astrofotografia de céu profundo, porque não há gás, poeira nem uma estrutura estelar densa para revelar — é, essencialmente, um retrato de quatro estrelas de campo. Ainda assim, ele pode ser um bom "objeto bônus" dentro do mesmo enquadramento de M72, já que os dois cabem no campo de muitos telescópios de foco médio ao mesmo tempo (veja a seção de M72 para uma sugestão de enquadramento combinado). Não há desafios técnicos especiais — qualquer captura que resolva bem estrelas pontuais também resolve M73 —, e não há necessidade de filtros de nebulosa, já que não existe gás para realçar. Um único quadro de alguns minutos, com boa nitidez, já registra as quatro estrelas com clareza.
Se o objetivo é documentar o próprio "quebra-cabeça" de M73 — mostrar as quatro estrelas de forma clara o bastante para que quem veja a foto possa identificar cada uma —, vale a pena priorizar foco preciso e boa resolução angular (seeing estável, colimação em dia) em vez de tempo total de exposição. Uma sequência curta, de 10 a 20 quadros de 30 a 60 segundos, já costuma ser suficiente para um empilhamento limpo, com baixo ruído e estrelas bem definidas, sem o risco de saturar os pontos e perder a separação entre eles em exposições muito longas.
Smart telescopes e campo de visão
Como M73 é apenas um pequeno grupo de estrelas pontuais, qualquer smart telescope o registra sem dificuldade — o desafio não é técnico, é de expectativa: não há nebulosidade ou textura para revelar com tempo de exposição extra. Vale a pena enquadrar M72 e M73 juntos, já que muitos modelos comportam os dois no mesmo campo. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
M73 é uma lição de humildade — para Messier, que o catalogou de boa-fé com os instrumentos modestos do século XVIII, e para nós, que às vezes esperamos que todo item de uma lista famosa seja espetacular. Ele não é: é um agrupamento aparente de quatro estrelas, provavelmente sem relação física alguma, que ilustra bem os limites da observação visual antiga e o cuidado necessário para diferenciar um objeto real de um efeito de perspectiva. Observe-o em conjunto com seu vizinho denso e genuíno, M72, e conheça também o guia da constelação de Aquário.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer. Objeto nº 651 (M73/NGC 6994).
- MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. NGC 6994 (M73), p. 208.
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. London: Springer. Entrada M73 (página impressa não confirmada nesta pesquisa).
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Tabela do catálogo Messier, p. 342.
- MACHHOLZ, Don. The Observing Guide to the Messier Marathon: A Handbook and Atlas. Springer (Astronomers' Observing Guides). Objetos enigmáticos do catálogo Messier (M24, M40, M47, M48, M73), p. 15-16.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a NGC 6994 (tipo de objeto "err"), em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.