setembro 21, 2026
M72, o globular distante de Aquário: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Em uma noite de céu razoavelmente escuro, Aquário esconde dois aglomerados globulares muito diferentes entre si. M2 é grande, brilhante e generoso com qualquer telescópio. Seu vizinho mais distante, M72, é quase o oposto: uma bolinha de luz fraca, compacta e desafiadora, um dos objetos mais remotos e menos espetaculares de todo o catálogo Messier. E, ainda assim, M72 tem sua própria história para contar — a de uma bola de centenas de milhares de estrelas tão longe que a luz que chega até nós hoje partiu de lá antes mesmo de a espécie humana existir. Este guia mostra onde procurar, quando o objeto está mais alto no céu do Rio de Janeiro, o que esperar em cada instrumento e como abordar a astrofotografia de um alvo pequeno e discreto.
Texto em revisão. Este é um dos guias do novo formato de artigo de objeto. Ele reúne dados, mapas, gráficos de altura e estratégia de observação e de captura em um só lugar. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: um globular no limite da visibilidade amadora
Um aglomerado globular é uma esfera densa de centenas de milhares a alguns milhões de estrelas muito antigas, presa pela própria gravidade e orbitando o núcleo da Via Láctea. A maioria dos cerca de 150 globulares conhecidos da nossa Galáxia fica concentrada na direção do centro galáctico, em Sagitário e Escorpião — mas alguns, como M72, orbitam em trajetórias mais distantes e excêntricas, o que os afasta do plano da Galáxia por boa parte do tempo.
M72 em números. O SIMBAD lista uma paralaxe de 0,084 ± 0,012 milissegundos de arco para M72, de qualidade mediana (classe C) — o que é esperado para um alvo tão distante e intrinsecamente fraco. Isso corresponde a cerca de 38.800 anos-luz, o valor que este guia adota. Os livros trazem números mais altos e entre si mais próximos: 52.800 anos-luz na tabela de objetos Messier do Data Book of Astronomy, cerca de 53.000 segundo Monks e 55.400 segundo Allison. A diferença é grande, e provavelmente decorre da dificuldade de medir com precisão paralaxes tão pequenas quanto a de um globular a dezenas de milhares de anos-luz; por isso o texto registra as duas faixas de valor. Seja qual for o número exato, M72 está entre os globulares Messier mais distantes, e sua magnitude aparente (cerca de 9,0 a 9,3) já reflete isso: um objeto tão populoso quanto M2, mas visto de muito mais longe, por isso mais fraco.
Classe e brilho interno. Allison classifica M72 como classe IX na escala de concentração de Shapley-Sawyer (que vai de I, muito concentrado, a XII, muito solto): um globular relativamente disperso, e mesmo assim difícil de resolver, porque suas estrelas individuais brilham perto da magnitude 14 — abaixo do alcance da maioria dos telescópios amadores de abertura pequena a média. Monks chega a chamá-lo de "um dos globulares Messier menos impressionantes", cuja localização relativamente ao sul dificulta ainda mais a vida de quem observa do hemisfério norte.
Descoberta. O objeto foi descoberto por Pierre Méchain em 1780 e catalogado por Charles Messier logo em seguida, como um dos últimos acréscimos ao catálogo original.
Estruturas notáveis
- O núcleo denso. Mesmo sendo classificado como "solto" na escala de concentração, o núcleo de M72 concentra a maior parte da luz do objeto; é a região que aparece em telescópios pequenos como uma mancha arredondada e granulada.
- As bordas resolvíveis. Allison observa que a estrutura da periferia só aparece com telescópios maiores e alta ampliação; a maioria dos observadores amadores nunca chega a resolver estrelas individuais no núcleo.
- A vizinhança com M73. A cerca de 1,2° a leste fica M73, um pequeno grupo de quatro estrelas também catalogado por Messier — um contraste e tanto com o globular denso de M72. Veja o guia de M73.
Como localizar
M72 fica em uma região pobre em estrelas guia de Aquário. Monks recomenda partir de Épsilon Aquarii (Albali, magnitude 3,8) e deslocar-se cerca de 3,3° a sudeste (Bakich). Como o campo é escuro, use primeiro um binóculo ou um buscador de campo amplo para confirmar a posição antes de trocar para o telescópio principal — a estrela de magnitude 9,6 a cerca de 5′ a leste do aglomerado ajuda a confirmar que você chegou ao lugar certo.

Quando e como observar
Com declinação de cerca de −12,5°, M72 passa relativamente alto no céu do Rio de Janeiro: a altura máxima no meridiano é de 90° − |−23° − (−12,5°)| ≈ 79,5°, muito perto do zênite. É uma condição excelente, porque a luz atravessa pouca atmosfera nesse ponto — importante para um objeto já naturalmente fraco. A ascensão reta de cerca de 20h54m coloca a melhor época de observação no fim do inverno e começo da primavera austral, quando o objeto culmina em horário conveniente à noite.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho de M72 pelo céu nesta noite.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 19:20 · 80° N
- Horas acima de 45°
- 3,2 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 67 / 100
- Posição no céu
- 80
- Brilho
- 54 mag 9,0
- Enquadramento
- 40 ocupa 10 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 79° | N 349° | 87° |
| 20:00 | 76° | NW 317° | 86° |
| 20:30 | 71° | WNW 300° | 86° |
| 21:00 | 64° | WNW 290° | 86° |
| 21:30 | 58° | WNW 283° | 86° |
| 22:00 | 51° | W 279° | 85° |
| 22:30 | 44° | W 275° | 85° |
| 23:00 | 37° | W 272° | 85° |
| 23:30 | 30° | W 269° | 85° |
| 00:00 | 23° | W 266° | 84° |
| 00:30 | 16° | W 263° | 84° |
| 01:00 | 10° | W 260° | 84° |
| 01:30 | 3° | WSW 258° | 84° |
| 02:00 | -4° | — | 83° |
| 02:30 | -11° | — | 83° |
| 03:00 | -17° | — | 83° |
| 03:30 | -24° | — | 83° |
| 04:00 | -30° | — | 82° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Invisível. Com magnitude perto de 9, está bem abaixo do limite do olho nu mesmo em céu muito escuro. |
| Binóculo (10×50) | Um pontinho fraco e difuso, fácil de confundir com uma estrela desfocada; use a posição em relação a Épsilon Aquarii para confirmar. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Uma mancha redonda e granulada, mais brilhante no centro, sem estrelas resolvidas (Allison; Monks). |
| Telescópio de 200 mm ou mais | Começam a aparecer as estrelas mais externas em ampliações altas; o núcleo continua não resolvido na maioria dos instrumentos amadores, porque as estrelas do núcleo estão perto da magnitude 14 (Allison). |
Expectativa honesta: M72 não é um objeto de "uau" — é discreto mesmo em bons telescópios, e sua fama entre observadores vem mais do desafio de resolvê-lo do que do espetáculo visual. Vale a pena observá-lo junto com M73, no mesmo campo de busca, para comparar dois objetos tão diferentes cravados a apenas 1,2° de distância.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com cerca de 5,9′ de diâmetro aparente, M72 é um alvo pequeno. Um campo de 20′ a 30′ já enquadra o aglomerado com folga e ainda deixa espaço para as estrelas ao redor; com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo de cerca de 1,1° × 0,75° é generoso o bastante para incluir M72 e M73 no mesmo quadro, já que os dois ficam a apenas 1,2° um do outro — uma composição interessante de "dois Messier em um só clique", ainda que M73 seja um alvo pontual e discreto.
Desafios do alvo
- Tamanho pequeno. Exige focais relativamente longas para não perder o aglomerado como um pontinho no meio do quadro.
- Núcleo compacto e brilho baixo. Combine exposições curtas (para não estourar o núcleo) com exposições mais longas (para captar a periferia fraca), se o objetivo for revelar estrutura.
- Céu urbano. Sob Bortle 7, como no Rio de Janeiro, o baixo brilho superficial do aglomerado compete com o fundo do céu; um filtro de poluição luminosa ajuda pouco em um alvo estelar como este, mas o alto contraste do núcleo geralmente ainda se destaca.
Equipamento e filtros
Como se trata de um alvo estelar (estrelas concentradas, não gás), filtros de banda estreita não ajudam — o ganho vem de tempo total de exposição e de boa resolução (seeing e foco), já que o objetivo é separar estrelas próximas na periferia. Uma câmera colorida de um disparo funciona bem; para quem tem câmera monocromática, o canal de luminância é o mais importante para revelar estrelas fracas.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light | 40 a 60 | 60 a 120 s | Núcleo e periferia do aglomerado |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.
Smart telescopes e campo de visão
M72 é pequeno o bastante para caber com folga no campo de qualquer smart telescope, e o objeto vizinho M73 costuma entrar no mesmo enquadramento, dependendo do modelo. Como é um alvo estelar compacto, o empilhamento de várias dezenas de minutos já revela um núcleo bem definido, mesmo em céu urbano. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
M72 não vai encabeçar nenhuma lista de "objetos mais bonitos do céu", e é exatamente por isso que vale a pena visitá-lo: ele lembra que o catálogo Messier tem de tudo, do espetacular ao discreto, e que a beleza de um globular distante e fraco também está em saber que aquela luz atravessou dezenas de milhares de anos até chegar à sua ocular. Observe-o junto com seu vizinho peculiar, M73, e aproveite para conhecer o resto da constelação no guia de Aquário.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer. Objeto nº 650 (M72/NGC 6981).
- ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. Springer (Astronomers' Observing Guides), 2006. M72, p. 181.
- MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. NGC 6981 (M72), p. 194.
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Tabela do catálogo Messier, p. 342.
- MOORE, Patrick (ed.). Philip's Astronomy Encyclopedia. London: Philip's. Tabela do catálogo Messier, p. 259.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de M72, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.