setembro 21, 2026
M 43, a Nebulosa de De Mairan: a vizinha menor de M 42 em Órion

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Quem aponta um telescópio para a Espada de Órion costuma falar de "a Nebulosa de Órion" no singular, mas ali existem dois objetos do catálogo de Messier. M 42 é o gigante que rouba a cena; logo ao norte dele, separado por uma faixa estreita de poeira escura, fica um lobo menor e mais discreto: M 43. Não é um apêndice de M 42, mas um objeto com número próprio no catálogo, com sua própria estrela iluminadora e sua própria forma. Este guia trata dele como o que é: um objeto distinto dentro do mesmo berçário de estrelas, que vale a pena aprender a reconhecer separadamente antes de voltar ao conjunto.
Texto em revisão. Este guia é dedicado a M 43. Para a descrição completa do complexo (distância, Trapézio, estrutura geral da nebulosa, história da descoberta de M 42), veja o guia de M 42, a Grande Nebulosa de Órion; este texto evita repetir o que já está lá.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o lobo norte do complexo de Órion
M 42 e M 43 fazem parte da mesma nuvem molecular gigante, o Complexo de Órion, mas são iluminados por estrelas diferentes e separados por uma faixa de poeira escura o bastante para que os catálogos os tratem como dois objetos (Monks). A faixa escura entre os dois é conhecida informalmente como a "Boca do Peixe" (Fish's Mouth), um nome usado por vários observadores para a incisão escura que corta a borda norte de M 42 e isola M 43 do resto da nebulosa (Borgia; Mollise). Do lado de dentro dessa faixa, M 43 forma um pequeno lóbulo redondo a arredondado, iluminado por sua própria estrela quente e jovem, e não pelo Trapézio que ilumina M 42.
Descoberta. Enquanto M 42 já era conhecida desde o início do século XVII, M 43 só foi identificada e publicada por Jean-Jacques Dortous de Mairan em 1731, mais de um século depois (Borgia). Charles Messier catalogou os dois separadamente em 1769-1771, e por isso M 43 tem número próprio mesmo fazendo parte do mesmo berçário estelar.
Uma nebulosa de emissão só, sem reflexão dominante. Ao contrário de M 78, mais ao norte em Órion, que é uma nebulosa de reflexão quase pura, tanto M 42 quanto M 43 são predominantemente nebulosas de emissão: o gás de hidrogênio é ionizado pela radiação ultravioleta de estrelas quentes embutidas nele e reemite luz própria, em vez de apenas espalhar a luz de uma estrela vizinha (Borgia). Por isso as duas aparecem no mesmo tom acinzentado ao olho e no mesmo vermelho-magenta nas fotografias de longa exposição.
Números. As fontes consultadas dão magnitude 9 e cerca de 20′ de diâmetro (medida do catálogo usada pelo site) ou magnitude 7 e cerca de 3,3′ × 2,5′ (Kambič, referindo-se provavelmente só ao núcleo mais brilhante). O SIMBAD não lista paralaxe nem dimensão angular própria para M 43, então este guia adota a mesma distância do complexo de Órion citada no guia de M 42, cerca de 1.300 anos-luz.
Estruturas notáveis
- A faixa escura ("Boca do Peixe"). A incisão de poeira que separa M 43 de M 42 é o traço mais fácil de reconhecer: procure por ela primeiro, e M 43 aparece do outro lado como uma mancha redonda isolada (Borgia; Mollise).
- O núcleo redondo a triangular. Em telescópios médios, M 43 tende a aparecer como uma mancha mais compacta e mais simétrica do que a forma irregular de M 42, o que ajuda a distingui-la mesmo em campos que incluem as duas (observação de campo consistente com o comportamento de nebulosas de emissão compactas; confira visualmente).
- A estrela central. M 43 tem sua própria estrela quente embutida no gás, separada do Trapézio de M 42; em bom seeing, um telescópio médio a grande já revela essa estrela no meio da mancha.
- A vizinhança comum. M 43 fica no mesmo campo de visão de M 42 em quase qualquer instrumento de campo largo, junto com NGC 1977 e NGC 1981, mais ao norte (Kambič; Ridpath).
Como localizar
M 43 fica pouco mais de 10′ ao norte do núcleo de M 42, dentro do mesmo campo de qualquer ocular de campo médio a largo ou de qualquer binóculo. A forma mais simples de chegar até ele é localizar primeiro M 42 na Espada de Órion — a "estrela" central do trio abaixo do Cinturão — e depois procurar a faixa escura que corta a borda norte da nebulosa grande: M 43 é a mancha redonda logo do outro lado dessa faixa (Borgia; Mollise). Com um telescópio de campo mais estreito, aponte primeiro para o Trapézio, no coração de M 42, e desloque o campo lentamente para o norte.

Quando e como observar
Assim como M 42, M 43 culmina bem alto no céu do hemisfério sul, favorecendo a nitidez da imagem ao reduzir a espessura de atmosfera atravessada pela luz. Órion domina o céu de verão austral e a nebulosa passa perto do zênite em boa parte do Brasil, uma vantagem sobre o observador do hemisfério norte, que a vê mais baixa no horizonte sul.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho de M 43 pelo céu nesta noite.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 04:00 · 72° N
- Horas acima de 45°
- 2,8 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 75 / 100
- Posição no céu
- 74
- Brilho
- 54 mag 9,0
- Enquadramento
- 100 ocupa 44 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -32° | — | 131° |
| 20:00 | -26° | — | 131° |
| 20:30 | -19° | — | 131° |
| 21:00 | -12° | — | 132° |
| 21:30 | -6° | — | 132° |
| 22:00 | 1° | E 95° | 132° |
| 22:30 | 8° | E 92° | 132° |
| 23:00 | 15° | E 89° | 132° |
| 23:30 | 22° | E 86° | 132° |
| 00:00 | 29° | E 83° | 133° |
| 00:30 | 36° | E 80° | 133° |
| 01:00 | 43° | ENE 75° | 133° |
| 01:30 | 49° | ENE 70° | 133° |
| 02:00 | 56° | ENE 64° | 133° |
| 02:30 | 62° | NE 55° | 134° |
| 03:00 | 67° | NE 43° | 134° |
| 03:30 | 71° | NNE 25° | 134° |
| 04:00 | 72° | N 2° | 134° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Invisível isoladamente; faz parte da mesma mancha esverdeada que se vê ao redor da "estrela" central da Espada de Órion. |
| Binóculo (7×50 a 10×50) | M 43 se mistura visualmente a M 42 num único campo; sem ampliação suficiente, é difícil separar as duas nebulosidades a olho. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Com ocular de campo médio, M 43 já aparece como uma mancha redonda distinta ao norte da faixa escura, separada de M 42 (Mollise). |
| Telescópio de 200 mm ou mais | A faixa escura fica nítida, e M 43 mostra sua forma própria e, em bom seeing, a estrela central embutida no gás. |
Uma comparação útil: se você já sabe identificar a "Boca do Peixe" em M 42, use-a como referência — tudo que está do lado de fora dessa faixa, na direção norte, já é M 43.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Como M 43 fica a poucos minutos de arco de M 42, praticamente qualquer enquadramento feito para fotografar a Grande Nebulosa já inclui M 43 inteira no mesmo quadro — não há necessidade de um enquadramento dedicado a M 43 sozinha. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°), tanto M 42 quanto M 43 cabem com folga no mesmo quadro, junto com o Trapézio e parte de NGC 1977. Quem quiser destacar M 43 isoladamente, por exemplo em uma composição de close-up, pode usar uma focal mais longa e centralizar o quadro na faixa escura e no lóbulo norte.
Desafios do alvo
- Diferença de brilho entre M 42 e M 43. O núcleo de M 42 é muito mais brilhante que M 43; ao processar um quadro com as duas, é fácil saturar M 42 e subexpor M 43. Um processamento em HDR ou com máscaras separadas ajuda a equilibrar as duas regiões.
- A faixa escura precisa de contraste. Para que a separação entre M 42 e M 43 apareça nítida na imagem final, é importante preservar o contraste na região da "Boca do Peixe" e não estourar o gás ao redor dela.
- M 43 sozinha é um alvo de baixo interesse comparativo. Isolada, a nebulosa tem menos estrutura vistosa que M 42; a maioria dos fotógrafos a trata como parte do quadro de M 42, não como alvo independente.
Equipamento e filtros
Os mesmos filtros úteis para M 42 funcionam para M 43, já que ambas são nebulosas de emissão dominadas pela mesma química de gás: um filtro dual-band (H-alfa e OIII) ajuda bastante sob céu urbano, como o de Bortle 7, a separar a nebulosidade do fundo do céu. Câmera colorida de um disparo é suficiente para um resultado satisfatório; câmera monocromática com filtros de banda estreita rende mais controle sobre o equilíbrio entre as duas regiões.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light curto (núcleo de M 42) | 30 | 10 a 20 s | Preservar o núcleo brilhante de M 42 sem saturar |
| Light longo (M 43 e periferia) | 60 | 90 a 180 s | Capturar o gás mais fraco de M 43 e a faixa escura |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.
Smart telescopes e campo de visão
Um smart telescope como o Seestar S50, com campo de cerca de 1,3° × 0,7°, captura M 42 e M 43 juntas em um único enquadramento, sem necessidade de mosaico. O filtro dual-band embutido no aparelho ajuda a realçar o gás sob céu urbano e a separar visualmente as duas regiões no empilhamento final. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
M 43 raramente é o motivo de uma noite de observação por si só, mas aprender a reconhecê-la como objeto distinto de M 42 — a faixa escura que os separa, a forma mais compacta, a estrela própria embutida no gás — enriquece a leitura de todo o complexo. É um bom exercício para quem já domina M 42 e quer refinar o olho para detalhes de estrutura dentro de um berçário estelar. Para a descrição completa do conjunto, a história e o Trapézio, veja o guia de M 42, a Grande Nebulosa de Órion.
Referências
- BORGIA, Michael P. Human Vision and the Night Sky: How to Improve Your Observing Skills. New York: Springer, 2006. M42/M43, feições e Trapézio, p. 238-239, 246-247.
- COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. Complexo de Órion (M 42, M 43, NGC 1980, NGC 2024), p. 73-76.
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Órion, M 42, M 43 e NGC 1981, p. 363-370.
- MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. New York: Springer. M 42, Boca do Peixe e M 43, p. 201-209 (a confirmar).
- MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. New York: Springer. Complexo de Nuvens Moleculares de Órion, M 42 e M 43, p. 18-21 (a confirmar).
- PUGH, Philip. The Science and Art of Using Telescopes. New York: Springer. M 42 e M 43 em binóculos, p. 353-354 (a confirmar).
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. M 42 e a extensão M 43, p. 190-191 (a confirmar).
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas de M 43, em 21 set. 2026 (sem paralaxe nem dimensão angular disponíveis para o objeto).
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.