setembro 22, 2026

Lobo: guia da constelação austral entre Antares e os Ponteiros do Centauro

Carta estelar do Lobo como aparece do Brasil, olhando para o sul: a fileira de estrelas de brilho médio entre Escorpião e Esquadro, sem estrelas de nome próprio, a Via Láctea ao fundo e os objetos NGC 5822 e NGC 5986 marcados em verde

O Lobo é uma dessas constelações que ninguém aponta de cabeça, mas que qualquer observador do hemisfério sul já viu sem saber: um aglomerado de estrelas de brilho médio, sem nenhuma vedete, espremido entre Antares e os Ponteiros do Cruzeiro do Sul. Kambič, um dos poucos autores de guia de observação que dedica espaço a ela, resume bem a situação: é uma constelação "para o sul", que mal aparece no horizonte de quem observa do hemisfério norte, mas que passa bem alto no céu do Brasil. Neste guia você vai aprender a achar o Lobo, conhecer suas estrelas — nenhuma delas com nome próprio — e dois objetos de céu profundo que valem a visita, além da lenda do rei que a mitologia grega transformou em fera.

Uma constelação discreta entre gigantes

O Lobo (Lupus, abreviatura Lup) ocupa uma área de 334 graus quadrados do céu, entre as ascensões retas de 14h13min e 16h05min e as declinações de -29,8° a -55,3° (Mourão, verbete Lupus, p. 491-492). Faz fronteira ao sul com o Compasso e o Centauro, a oeste também com o Centauro, ao norte com a Balança e o Escorpião, e a leste com o Esquadro (Mourão, p. 491-492). Apesar de não ter uma área muito grande, Mourão destaca sua "notável abundância de estrelas de magnitude média" — o Lobo não tem uma estrela realmente brilhante, mas tem muitas de brilho moderado, o que dá à figura uma textura densa e uniforme.

A referência mais fácil para achá-lo é a posição: Mourão descreve o Lobo como facilmente reconhecível "por estar situada entre a estrela vermelha de Antares e as estrelas Guardas — Alfa e Beta da constelação do Centauro" (Mourão, p. 492) — ou seja, entre o coração do Escorpião e os Ponteiros que apontam para o Cruzeiro do Sul.

Quando e como achar

Melhor época. O centro do Lobo culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21 horas locais perto de fins de junho, no meio do inverno austral. A temporada boa vai de maio a agosto, mesma época do Escorpião e do Centauro, que ficam logo ao lado.

Para onde olhar. O Lobo é uma constelação austral: do Brasil, ele culmina voltado para o sul, e a carta abaixo mostra o céu nessa direção, com o norte para cima e o leste para a esquerda.

Cidade Alfa Lupi Beta Lupi NGC 5986 NGC 5822
Boa Vista (RR) 40° 44° 49° 33°
Manaus (AM) 46° 50° 55° 39°
Recife (PE) 51° 55° 60° 44°
Brasília (DF) 58° 63° 68° 51°
Rio de Janeiro (RJ) 66° 70° 75° 58°
São Paulo (SP) 66° 70° 76° 59°
Porto Alegre (RS) 73° 77° 82° 66°

Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós com as declinações do SIMBAD e a latitude de cada cidade; valores arredondados. O Lobo é bem visível de todo o Brasil.

Carta estelar do Lobo como aparece do Brasil, olhando para o sul: a fileira de estrelas de brilho médio entre Escorpião e Esquadro, sem estrelas de nome próprio, a Via Láctea ao fundo e os objetos NGC 5822 e NGC 5986 marcados em verde
Carta estelar do Lobo como ele aparece do Brasil ao olhar para o sul: o norte fica em cima e o leste à esquerda. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial. A linha tracejada dourada larga é o limite oficial da constelação. Em verde-claro, os objetos de céu profundo citados neste artigo. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo.

  1. Comece pelo Escorpião: Antares, a estrela vermelha do coração do escorpião, é a referência mais brilhante da região.
  2. A leste de Antares (à esquerda na carta), já fora do Escorpião, começa a fileira de estrelas do Lobo: não há um salto brusco de brilho, então procure uma sequência de pontos de magnitude parecida, entre 2,3 e 4.
  3. Outra opção é partir dos Ponteiros do Centauro, Rigil Kentaurus e Hadar: o Lobo fica ao norte deles (para baixo, na carta), preenchendo o espaço entre o Centauro e o Escorpião.
  4. NGC 5986, o globular, fica perto do canto norte da constelação; NGC 5822, o aglomerado aberto, no canto sul, mais perto do Compasso.

As estrelas do Lobo

Estrela Posição Brilho visual (mag.) Tipo espectral Distância aproximada
Alfa Lupi a mais brilhante 2,30 B1,5 III cerca de 460 a 550 anos-luz
Beta Lupi perto de Alfa 2,68 B2 III cerca de 380 a 525 anos-luz
Gama Lupi leste da figura 2,80 B2 IV (dupla) cerca de 570 anos-luz
Delta Lupi leste da figura 3,22 B1,5 IV cerca de 620 anos-luz
Epsilon Lupi perto de Delta 3,37 B2 IV (dupla) cerca de 500 anos-luz
Kapa1 Lupi oeste 3,88 dupla, separável em binóculo cerca de 210 anos-luz

Brilhos, tipos espectrais e paralaxes consultados no SIMBAD (CDS, Estrasburgo). Nenhuma estrela de Lupus tem nome próprio reconhecido pela IAU; todas são identificadas só pela letra grega. As distâncias vêm de paralaxes de satélite; Kambič, escrevendo em 2010, traz valores um pouco diferentes para as mais brilhantes.

Nenhuma estrela do Lobo tem nome próprio — uma raridade entre as constelações mais antigas, e um contraste com as vizinhas Escorpião e Centauro, cheias de nomes árabes e latinos consagrados. Isso não significa que a constelação seja pobre em estrelas notáveis: Alfa Lupi, a mais brilhante, é uma gigante azul-branca de magnitude 2,3, com cerca de 18.000 vezes a luminosidade do Sol (Kambič, p. 337). Kambič a lista também como uma variável do tipo Beta Cephei, com um ciclo de 6h14min e uma variação de apenas 0,03 magnitude — imperceptível a olho nu.

Beta e Gama Lupi completam o trio mais brilhante da constelação; Gama é, na verdade, uma estrela dupla. Kapa1 Lupi, mais fraca, forma com sua companheira uma dupla de magnitudes 3,8 e 5,5, separadas por 26 segundos de arco — fácil de separar até em binóculos (Kambič, p. 338).

Objetos de céu profundo

O catálogo do site registra dois objetos de destaque em Lupus, ambos bons alvos de binóculo e telescópio pequeno; os demais objetos da constelação são galáxias fracas, de magnitude 11 ou mais fraca, fora do alcance da maioria dos instrumentos amadores.

NGC 5822, o aglomerado aberto

O NGC 5822 é um aglomerado aberto rico, situado na faixa da Via Láctea, de magnitude 6,5 (Kambič, p. 338). É um alvo relativamente fácil em céu escuro, com dezenas de estrelas visíveis em binóculo ou telescópio pequeno.

NGC 5986, o globular

O NGC 5986 é um aglomerado globular de magnitude 6,9, mais compacto que o NGC 5822 e situado mais ao norte da constelação, perto do limite com o Escorpião e a Balança.

Mitologia: o rei que virou lobo

Segundo Mourão, na mitologia grega o Lobo é a imagem de Licaão, "rei sanguinário de Arcádia", que o deus Júpiter transformou "num animal feroz — o lobo que colocou no céu entre as estrelas" (Mourão, verbete Lupus, p. 492). É uma origem mais sombria que a de vizinhas como o Centauro: enquanto Quíron subiu ao céu como recompensa por sua sabedoria, o Lobo é, na tradição que Mourão registra, um castigo. Diferentes versões do mito de Licaão circulam na literatura grega e romana — algumas o descrevem servindo carne humana a Zeus como teste, outras como um tirano cruel —, mas o desfecho astronômico é sempre o mesmo: a transformação em lobo e a colocação entre as estrelas do sul.

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu A fileira de estrelas de brilho médio entre Antares e os Ponteiros do Centauro, sem nenhuma estrela isolada de destaque.
Binóculo (10×50) Kapa1 Lupi separada em duas estrelas, o campo denso da Via Láctea ao fundo, e NGC 5822 como uma mancha de estrelas.
Telescópio pequeno (70 a 100 mm) NGC 5822 resolvido em dezenas de estrelas e NGC 5986 como uma bola compacta de luz.
Câmera DSLR ou celular no tripé A faixa da Via Láctea entre Escorpião, Lobo e Centauro, num único enquadramento de grande angular.

Dicas de campo:

  • Escolha uma noite sem Lua entre maio e agosto, em céu escuro.
  • Use Antares e os Ponteiros do Centauro como referências de cada lado da constelação.
  • Não espere uma "forma" fácil de reconhecer: o Lobo é mais uma textura densa de estrelas do que um desenho nítido.

Referências

  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Lupus", p. 491-492.
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars. New York: Springer, 2010. Lobo e Régua, p. 332-333 (impressa).
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos, tipos espectrais e paralaxes, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.