setembro 22, 2026

Lince: a constelação que Hevelius disse que só um lince enxergaria

Carta estelar da Lince como aparece do Brasil, olhando para o norte: a fileira fraca de estrelas entre Gêmeos e o Cocheiro, com Alsciaukat rotulada e os objetos NGC 2419 e NGC 2683 marcados em verde

Poucas constelações admitem a própria fraqueza como a Lince. Foi o astrônomo polonês Johannes Hevelius quem a desenhou, em 1687, preenchendo um vazio grande e escuro entre a Ursa Maior e o Cocheiro com uma fileira zigue-zagueante de estrelas fracas — e batizou o resultado de Lince porque, segundo a tradição repetida por astrônomos desde então, só alguém com visão de lince conseguiria enxergar a figura. Não há mitologia grega nem instrumento de Lacaille aqui: é uma constelação puramente cartográfica, criada para não deixar um pedaço do céu sem nome.

Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.

Uma fileira de estrelas fracas entre dois gigantes

A Lince (Lynx, abreviatura Lyn) fica encaixada entre a Ursa Maior, o Cocheiro, os Gêmeos e o Leão Menor — todas constelações mais fáceis, o que só reforça o contraste. Sua estrela mais brilhante, Alfa Lyncis, tem magnitude 3,1 e nem tem nome próprio oficial da IAU. A única com nome é Alsciaukat (31 Lyncis), uma gigante laranja de magnitude 4,25, bem mais fraca ainda. Não é um lugar para primeira observação: é um exercício de céu escuro e paciência.

Quando e como achar

Melhor época. A Lince culmina por volta das 21h em meados de fevereiro; a boa temporada vai de dezembro a abril, quando ela acompanha a Ursa Maior e o Cocheiro alto no céu.

Cidade Alsciaukat (altura máxima)
Boa Vista (RR) 46°
Manaus (AM) 40°
Recife (PE) 35°
Brasília (DF) 28°
Rio de Janeiro (RJ) 21°
São Paulo (SP) 20°
Porto Alegre (RS) 17°

Altura acima do horizonte ao culminar, calculada por nós com a declinação do SIMBAD (+43,2°) e a latitude de cada cidade. A Lince é visível de todo o Brasil, mas sempre baixa ao norte, e mais baixa ainda no Sul.

Carta estelar da Lince como aparece do Brasil, olhando para o norte: a fileira fraca de estrelas entre Gêmeos e o Cocheiro, com Alsciaukat rotulada e os objetos NGC 2419 e NGC 2683 marcados em verde
Carta estelar da Lince como ela aparece do Brasil ao olhar para o norte: o norte fica embaixo e o leste à direita. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial. O contorno tracejado dourado é o limite oficial da constelação. Em verde-claro, os objetos de céu profundo citados neste artigo. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo. Comece pela Ursa Maior: a partir das patas do lado leste (esquerdo na carta), procure uma linha fraca e comprida de estrelas subindo em direção ao Cocheiro. Sem binóculo, em céu urbano, é quase impossível seguir o desenho inteiro — use um app de céu ou a carta acima como referência de posição.

Objetos de céu profundo

Dois objetos do catálogo do site ficam dentro dos limites da Lince, nenhum deles fácil:

  • NGC 2419, o "Vagabundo Intergaláctico". Um aglomerado globular extremamente distante (quase 300.000 anos-luz, mais longe que as Nuvens de Magalhães), tão fraco e afastado que já foi confundido com um objeto fora da Via Láctea — daí o apelido. Guia completo já publicado.
  • NGC 2683, a "Galáxia OVNI". Uma espiral vista quase de perfil, com magnitude 9,7, um alvo de telescópio médio e astrofotografia, sem guia próprio no site ainda.

Mitologia e história

Não há mito: a Lince é uma das constelações "modernas", criadas para preencher espaços vazios do céu no mapeamento europeu dos séculos XVI e XVII. Hevelius a introduziu no seu atlas Firmamentum Sobiescianum (1687), ao lado de outras figuras sem lastro mitológico como o Lagarto, o Sextante e o Escudo. A analogia com o animal — um felino de visão notoriamente aguçada — é, segundo a tradição repetida por divulgadores de astronomia, uma piada do próprio Hevelius sobre o quão difícil seria enxergar a figura formada por estrelas tão fracas.

Roteiro de observação

Instrumento O que esperar
A olho nu Em céu muito escuro, algumas das estrelas mais brilhantes da fileira; em cidade, praticamente nada.
Binóculo O melhor instrumento para "ler" o desenho: percorra da Ursa Maior ao Cocheiro seguindo a carta.
Telescópio pequeno/médio NGC 2683 aparece como um risco alongado de luz; NGC 2419 exige céu escuro e abertura de 200 mm ou mais para começar a se resolver.

Referências

  • Astronomy Dictionary / atlas histórico de Hevelius (Firmamentum Sobiescianum, 1687): origem da constelação, conhecimento geral de história da astronomia, não conferido em livro do acervo do projeto.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e tipo espectral de Alsciaukat (31 Lyncis), em 22 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.