setembro 22, 2026
Leão Menor: guia da pequena constelação sem estrela Alfa

Se o Escorpião e Órion são o tipo de constelação que qualquer pessoa reconhece de longe, o Leão Menor é o oposto: uma figura pequena, fraca, sem forma nenhuma que salte aos olhos, encaixada num vazio entre dois gigantes do céu de outono do hemisfério norte. Ela nem tem uma estrela Alfa — uma raridade entre as 88 constelações oficiais. Mas faz parte do céu como qualquer outra, e sua história (a de uma constelação inventada, não herdada da mitologia) e a curiosidade em torno da estrela que deveria ter sido Alfa e não foi valem o guia. Aqui você aprende a achá-la do Brasil e a reconhecer o pouco que ela realmente tem para mostrar.
Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.
Uma constelação para preencher um espaço vazio
O Leão Menor (Leo Minor, abreviatura LMi) ocupa cerca de 232 graus quadrados do céu — uma das menores constelações — encaixado entre a Ursa Maior ao norte, o Leão ao sul e o Lince a oeste. Como o nome sugere, ela fica "em cima" do Leão, mas não tem relação mitológica com ele: é uma constelação moderna, criada pelo astrônomo polonês Johannes Hevelius em 1687, para preencher um trecho do céu que os antigos gregos e romanos nunca haviam desenhado (fonte de pesquisa baseada em Ridpath e Vieira).
Hevelius criou várias constelações desse tipo no mesmo período — Lince, Lagartixa, Cães de Caça, Escudo, Raposa, Sextante — a maioria sem qualquer história mitológica por trás, só a necessidade prática de dar nome a regiões do céu que ainda estavam em branco nos atlas. O Leão Menor é um exemplo particularmente claro disso: não tem mito, não tem figura óbvia no céu e, na maioria das listas de curiosidades astronômicas, aparece como resposta de charada, não como constelação para se admirar.
A curiosidade da estrela que falta. O Leão Menor é uma das únicas constelações do céu sem nenhuma estrela batizada com a letra grega Alfa. A estrela mais brilhante da constelação, 46 LMi, tem apenas o número de catálogo de Flamsteed e o nome próprio Praecipua ("a principal", em latim) — mas nunca recebeu uma letra de Bayer. A explicação mais repetida diz que o erro é do astrônomo inglês Francis Baily, no século XIX, que revisou e padronizou as designações de Bayer e Flamsteed para boa parte do céu, mas deixou passar a atribuição de uma letra grega a 46 LMi (Ridpath). O resultado ficou assim até hoje: pergunte a magnitude de "Alfa do Leão Menor" e a resposta certa é que ela simplesmente não existe.
Quando e como achar
Melhor época. O Leão Menor está centrado perto de 10h 20min de ascensão reta, então culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21 horas locais em meados de março. A temporada boa vai de janeiro a maio, acompanhando o Leão logo abaixo dele.
Para onde olhar. A constelação fica ao norte do equador celeste e, do Brasil, culmina voltada para o norte.
| Cidade | Praecipua (46 LMi, Dec +34,2°) | Beta LMi (Dec +36,7°) |
|---|---|---|
| Boa Vista (RR) | 59° | 56° |
| Manaus (AM) | 53° | 50° |
| Recife (PE) | 48° | 45° |
| Brasília (DF) | 40° | 37° |
| Rio de Janeiro (RJ) | 33° | 30° |
| São Paulo (SP) | 32° | 30° |
| Porto Alegre (RS) | 26° | 23° |
Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós com as declinações do SIMBAD e a latitude de cada cidade; valores arredondados. O Leão Menor é visível do Brasil inteiro, com altura moderada, mais confortável no Norte e no Nordeste.

Passo a passo.
- Localize o Leão e sua estrela mais brilhante, Regulus, além do triângulo Denébola-Zosma-Chort na garupa. O Leão Menor fica bem acima dessa figura (para o norte).
- Ou parta da Ursa Maior: o Leão Menor fica no espaço entre a "panela" e o dorso do Leão, sem nenhuma estrela óbvia de referência entre os dois.
- Não espere achar uma forma reconhecível: a constelação é essencialmente um par de estrelas de brilho moderado, Praecipua e Beta LMi, sem uma figura clara que uma as duas visualmente com o resto. Um bom aplicativo de céu ou uma carta ajuda bastante nas primeiras tentativas.
As estrelas do Leão Menor
| Estrela | Brilho visual (mag.) | Tipo espectral | Distância aproximada |
|---|---|---|---|
| Praecipua (46 LMi) | 3,79 | K0 III (gigante laranja) | cerca de 95 anos-luz |
| Beta LMi | 4,20 | G8 III (gigante amarela) | cerca de 154 anos-luz |
Brilhos, tipos espectrais e distâncias consultados no SIMBAD (CDS, Estrasburgo); não conferidos contra os livros de apoio, que não trazem dados físicos detalhados para esta constelação (ver pendências).
Praecipua, a estrela mais brilhante da constelação, é uma gigante laranja evoluída — o tipo de estrela que já saiu da sequência principal e está se expandindo depois de esgotar o hidrogênio do núcleo. O nome "Praecipua" ("principal" ou "a mais importante", em latim) é justamente uma referência ao fato de ser a estrela mais brilhante de uma constelação sem Alfa: um nome de compensação, poderíamos dizer, para uma estrela que nunca ganhou a letra grega que normalmente caberia à mais brilhante de uma constelação.
Beta LMi, a segunda mais brilhante, é outra gigante evoluída, um pouco mais fraca e mais distante. O resto da constelação cai rapidamente de brilho: todas as demais estrelas dentro dos limites oficiais do Leão Menor têm magnitude 4,5 ou mais fraca, e nenhuma tem nome próprio tradicional.
Objetos de céu profundo: uma seção curta, por honestidade
O catálogo do site lista apenas quatro galáxias dentro dos limites do Leão Menor — NGC 3344, NGC 3486, NGC 3432 e NGC 3003 — todas com magnitude entre 10 e 12, portanto alvos de telescópio médio a grande, sem apelidos populares e sem guia próprio publicado no site até este momento. Não foi encontrada nenhuma menção a essas galáxias nos livros de observação consultados para esta série de artigos: o Leão Menor simplesmente não aparece como destino recomendado na maioria dos guias de campo, o que é coerente com o pouco que a constelação realmente oferece a olho nu ou binóculo.
Para quem gosta de desafios de telescópio grande, vale registrar NGC 3344, a mais brilhante das quatro (magnitude por volta de 10), uma espiral vista quase de frente — mas é um alvo avançado, não um ponto de partida para quem está começando na observação de céu profundo.
Mitologia e história: nenhuma, e tudo bem
Não há mito para contar aqui. O Leão Menor é criação de mesa de Johannes Hevelius, no fim do século XVII, junto com um pacote de outras constelações modernas — Lince, Lagartixa, Cães de Caça, Escudo, Raposa, Sextante — todas pensadas para preencher espaços vazios do céu, sem ligação com nenhuma lenda antiga. Isso não diminui seu valor como parte do mapa do céu: constelações fracas e sem história também são parte dos 88 territórios oficiais em que o céu inteiro foi dividido pela União Astronômica Internacional, e reconhecê-las (mesmo sabendo que não têm muito a oferecer) também é aprender a se orientar entre as estrelas.
Roteiro de observação
| Instrumento | O que ver |
|---|---|
| A olho nu | Praecipua e Beta LMi, marcando os dois pontos mais brilhantes da constelação em céu razoavelmente escuro. |
| Binóculo (10×50) | As duas estrelas principais no mesmo campo e a sensação de "vazio" característica da região — um bom exercício para perceber como nem todo pedaço do céu tem destaque. |
| Telescópio grande (250 mm ou mais) | As quatro galáxias fracas do catálogo, para quem gosta de colecionar alvos difíceis longe dos roteiros mais populares. |
Dicas de campo:
- Escolha uma noite sem Lua entre janeiro e maio, com o Leão já bem posicionado como referência.
- Não espere reconhecer uma "forma" no Leão Menor: use-o como exercício de precisão, partindo de estrelas vizinhas mais fáceis (Regulus, Denébola, o dorso do Leão ou a Ursa Maior).
- Reserve as quatro galáxias para uma sessão de telescópio grande dedicada a "constelações esquecidas", talvez emparelhada com outras áreas pobres do céu de outono do hemisfério norte.
Referências
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Constelações modernas de Hevelius e o erro de Francis Baily com Praecipua, p. 176.
- VIEIRA, Fernando. Identificação do Céu. Lista das constelações modernas por autor, incluindo o Leão Menor (Hevelius), p. 16, 29-31.
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press. Ausência de estrela Alfa no Leão Menor, p. 455.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos, tipos espectrais e distâncias, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.