setembro 22, 2026

Lagarto: guia da pequena constelação que Hevelius desenhou entre o Cisne e Cassiopeia

Carta estelar do Lagarto como aparece do Brasil, olhando para o norte: o zigue-zague de estrelas fracas entre Alfa e Beta Lacertae, o aglomerado NGC 7243 marcado em verde perto do centro e os aglomerados mais fracos NGC 7209, Mel 239 e IC 1442 ao redor

O Lagarto é uma das constelações mais discretas do céu do hemisfério norte: nenhuma estrela chega à segunda magnitude, nenhuma tem nome próprio, e o desenho é só um zigue-zague apertado de pontos fracos, espremido entre o Cisne, Cassiopeia, Cefeu, Andrômeda e Pégaso. Ainda assim, ela guarda um dos objetos mais estranhos do catálogo: BL Lacertae, catalogada por décadas como uma simples estrela variável e que acabou virando o protótipo de uma classe inteira de galáxias com núcleo ativo. Neste guia você vai aprender a localizar o Lagarto do Brasil — onde ele fica baixo, é bom avisar de cara —, conhecer suas duas estrelas mais brilhantes, o aglomerado NGC 7243 e a história de como uma "estrela" de 14ª magnitude revelou ser um farol a centenas de milhões de anos-luz.

Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.

Uma constelação sem mito, inventada para preencher um vazio

O Lagarto (Lacerta, abreviatura Lac) não vem da Antiguidade. Foi criado pelo astrônomo polonês Johannes Hevelius no fim do século XVII (a data mais citada para seu catálogo é 1687) para preencher uma região do céu sem estrelas de primeira grandeza, entre Andrômeda e o Cisne (Mourão, verbete Lacerta). Diferente do Escorpião ou de Áries, ele não tem mitologia: é produto de mapa, não de lenda, e Mourão é direto sobre a dificuldade de encontrá-lo, "em virtude do brilho muito fraco de suas estrelas". Hevelius fez o mesmo tipo de trabalho de "preenchimento de vazios" em outras constelações modernas da região, como o Lince e os Cães de Caça.

A constelação ocupa cerca de 201 graus quadrados, entre as ascensões retas de 21h55min e 22h56min e as declinações de +34,9° a +56,8° (Mourão), perto do polo norte celeste, cercada por Pégaso ao sul, Andrômeda e Cassiopeia a leste, Cefeu ao norte e o Cisne a oeste. Ela fica sobre um trecho povoado da Via Láctea, entre o Cisne e Cassiopeia, o que a torna um bom campo para varrer com binóculo mesmo sem alvos famosos.

Por onde e quando procurar, do Brasil

Aviso primeiro: é uma constelação baixa no céu brasileiro. Com declinação entre +43° e +52° nas suas estrelas principais, o Lagarto nunca sobe muito acima do horizonte norte, e a altura cai rápido quanto mais ao sul você estiver. A tabela abaixo mostra a altura máxima (no momento da culminação) de Alfa Lacertae, de Beta Lacertae e do aglomerado NGC 7243 em sete cidades brasileiras.

Cidade Alfa Lacertae Beta Lacertae NGC 7243
Boa Vista (RR) 43° 41° 43°
Manaus (AM) 37° 35° 37°
Recife (PE) 32° 30° 32°
Brasília (DF) 24° 22° 24°
Rio de Janeiro (RJ) 17° 15° 17°
São Paulo (SP) 16° 14° 17°
Porto Alegre (RS) 10° 8° 10°

Altura máxima acima do horizonte norte, calculada por nós a partir das declinações (SIMBAD/Hipparcos) e da latitude de cada cidade (altura = 90° menos a diferença entre latitude e declinação); valores arredondados.

A constelação está, portanto, tecnicamente ao alcance de todo o território brasileiro — Ridpath dá o limite sul de visibilidade total em 33°S, o que cobre até Porto Alegre —, mas na prática é um alvo bem mais fácil no Norte e no Nordeste, onde passa acima de 30°, do que no Sul e no Sudeste, onde mal ultrapassa 10° a 17° e fica perto do horizonte carregado de luzes e obstáculos. Vale tratá-la como visibilidade parcial a partir do Brasil: dá para ver, mas ela nunca fica alta.

Quando. O Lagarto está centrado perto de 22h30min de ascensão reta, então culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21h locais em meados de outubro. A boa temporada de observação vai de agosto a dezembro: em agosto ele já aparece baixo no fim da noite, em outubro e novembro fica melhor posicionado no começo da noite, e em dezembro começa a se perder no crepúsculo.

Para onde olhar. Olhando para o norte, procure primeiro o Cisne, com sua cruz bem marcada e a estrela Deneb: o Lagarto fica a leste dele, na direção de Cassiopeia. Outra referência é o Quadrado de Pégaso: o Lagarto fica ao norte da linha que une Pégaso a Andrômeda. Como nenhuma estrela do Lagarto chama atenção a olho nu, o melhor é usar essas vizinhas mais brilhantes como ponto de partida e depois varrer a região com binóculo.

Carta estelar do Lagarto como aparece do Brasil, olhando para o norte: o zigue-zague de estrelas fracas entre Alfa e Beta Lacertae, o aglomerado NGC 7243 marcado em verde perto do centro e os aglomerados mais fracos NGC 7209, Mel 239 e IC 1442 ao redor
Carta estelar do Lagarto como aparece do Brasil ao olhar para o norte: o norte fica embaixo e o leste à direita. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial. O contorno tracejado dourado é o limite oficial da constelação; a eclíptica não aparece porque o Lagarto fica bem ao norte dela. Em verde-claro, os objetos de céu profundo citados neste artigo. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo.

  1. Encontre o Cisne, com Deneb na ponta da cauda, e Cassiopeia, com seu "W" característico — o Lagarto fica no espaço entre as duas, um pouco mais ao sul de Cassiopeia.
  2. Dentro desse espaço, procure uma fileira curta e torta de estrelas fracas (magnitude 4 a 5): é o zigue-zague do Lagarto, mais fácil de reconhecer pela forma do que por qualquer estrela isolada.
  3. Alfa Lacertae, a mais brilhante, fica na ponta do zigue-zague voltada para Andrômeda; Beta Lacertae fica um pouco a oeste dela, mais perto do Cisne.
  4. O aglomerado NGC 7243 fica bem no meio do desenho, quase entre as duas: é o melhor alvo de binóculo da constelação.

Duas estrelas, nenhum nome próprio

O Lagarto é uma raridade entre as 88 constelações: nenhuma das suas estrelas tem nome próprio consagrado. Todas são conhecidas só pela letra grega (Bayer) ou pelo número (Flamsteed) — Alfa, Beta e mais nove estrelas numeradas até a 15 Lacertae, todas fracas.

Estrela Brilho visual (mag.) Tipo espectral Distância aproximada
Alfa Lacertae 3,76 a 3,77 A1 V (branca) cerca de 103 anos-luz
Beta Lacertae 4,42 a 4,44 G9 III (gigante amarelada) cerca de 169 anos-luz
5 Lacertae 4,34 K (gigante alaranjada) —
4 Lacertae 4,55 branco-azulada —
11 Lacertae 4,50 gigante —

Brilhos, tipos espectrais e paralaxes do SIMBAD (CDS, Estrasburgo). As demais estrelas do Lagarto (1, 2, 6, 9, 10 e 15 Lacertae) ficam entre a magnitude 4,1 e 5,0 e não têm dados de distância conferidos aqui.

Alfa Lacertae é uma estrela branca da sequência principal, parecida com Sirius em tipo espectral, mas bem mais fraca porque está bem mais longe (cerca de 103 anos-luz, contra 8,6 de Sirius). É a estrela mais próxima da Terra dentre as principais do Lagarto. Beta Lacertae é uma gigante amarelada, mais evoluída e mais distante. Juntas, elas marcam as duas pontas do "V" que dá a forma característica à constelação; o restante do desenho é preenchido pelas estrelas numeradas, todas por volta da 4ª e 5ª magnitude, formando o zigue-zague que só aparece bem em céu escuro, sem Lua e longe da poluição luminosa.

NGC 7243 e os outros aglomerados abertos

O Lagarto cruza um trecho rico da Via Láctea, o que lhe garante ao menos um alvo decente de binóculo: o aglomerado aberto NGC 7243 (também catalogado como Caldwell 16), de magnitude 6,4 e cerca de 30 minutos de arco de diâmetro (SIMBAD; Mobberley cita o mesmo valor). Fica a cerca de 2.500 a 2.900 anos-luz, com idade estimada em 75 milhões de anos (Mobberley, p. 57). Mobberley chama atenção para um detalhe curioso: como o aglomerado está mergulhado num campo estelar já denso, sem uma borda bem definida, ele chega a questionar se NGC 7243 realmente se destaca do fundo ou se é, em parte, um efeito de flutuação estatística — bastaria remover meia dúzia de estrelas de magnitude 9, que formam um pequeno triângulo com uma dupla no centro, para a "ilusão" de aglomerado desaparecer (Mobberley, p. 57). De qualquer forma, é um bom alvo de binóculo: aparece como uma mancha alongada de estrelas soltas.

Nos arredores há três aglomerados mais fracos, que pedem céu escuro e telescópio pequeno: NGC 7209 (magnitude 7,7), Mel 239 (também chamado IC 1434, magnitude 9) e IC 1442 (magnitude 9,1). Allison os lista entre os aglomerados abertos "do norte" que ficam praticamente invisíveis do Brasil ou muito baixos (Allison, p. 194-201) — o que combina com a tabela de alturas acima: só valem a pena a partir do Norte e do Nordeste, em noite bem escura.

BL Lacertae: a "estrela" que era um farol a 900 milhões de anos-luz

O fato mais notável do Lagarto não é uma estrela de verdade. BL Lacertae foi catalogada, ainda no início do século XX, como uma estrela variável comum, de magnitude por volta de 14 — fraca demais para qualquer binóculo, mas dentro do alcance de fotografias de longa exposição (Mourão, verbete BL Lacertae; Ridpath, p. 167). Só décadas depois os astrônomos perceberam que ela não tinha nada de estrela: é o núcleo brilhante de uma galáxia distante, com um jato de partículas relativísticas apontado quase exatamente na direção da Terra. Esse jato "ilumina" o núcleo de um jeito que imita a variação rápida e irregular de brilho de uma estrela variável, em todas as faixas do espectro, do rádio ao raio gama (Mourão, verbete objetos BL Lacertae).

O caso foi tão emblemático que deu nome a uma classe inteira: os objetos BL Lac, um tipo de blazar (galáxia de núcleo ativo com jato voltado para nós), próximo dos quasares e das galáxias Seyfert (Mourão). Pelo desvio para o vermelho medido no SIMBAD (z = 0,0655), BL Lacertae fica a cerca de 900 milhões de anos-luz — nada a ver com as dezenas ou centenas de anos-luz das estrelas de verdade do Lagarto. A magnitude visual de cerca de 14,7 (SIMBAD) confirma por que ela passou tanto tempo catalogada como "só mais uma estrela fraca": só telescópios de porte médio, com câmera, mostram o objeto, e mesmo assim ele aparece como um pontinho indistinguível de uma estrela. A diferença toda está no que ele realmente é.

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu Em céu bem escuro, o zigue-zague fraco de Alfa e Beta Lacertae e as estrelas numeradas — exige olhos adaptados ao escuro e pouca poluição luminosa.
Binóculo (10×50) NGC 7243 como uma mancha alongada de estrelas soltas, o campo denso da Via Láctea entre o Cisne e Cassiopeia.
Telescópio pequeno (70 a 150 mm) NGC 7243 resolvido em dezenas de estrelas, e, em céu muito escuro, os aglomerados mais fracos NGC 7209, Mel 239 e IC 1442.
Telescópio de 200 mm ou mais, com câmera BL Lacertae como um pontinho de magnitude ~14 a 15 — vale comparar imagens de noites diferentes para notar a variação de brilho.

Dicas de campo:

  • Escolha uma noite sem Lua entre agosto e dezembro, com o horizonte norte bem livre de luzes e obstáculos.
  • Comece pelo Cisne ou por Cassiopeia e ande até o espaço vazio entre eles: é ali que mora o Lagarto.
  • Do Norte e do Nordeste do Brasil, ele passa bem mais alto que do Sul e do Sudeste — leve isso em conta ao planejar a sessão.

Referências

  • ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. London: Springer (Astronomers' Observing Guides), 2006. Aglomerados abertos do Cisne, Lagarto, Cefeu e Cassiopeia, p. 184-201 (impressa 176-193).
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer (Astronomers' Observing Guides), 2009. Caldwell 16 (NGC 7243), p. 57-58 (impressa 44-45).
  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbetes "Lacerta" (p. 490), "BL Lacertae" (p. 146) e "objetos BL Lacertae" (p. 618).
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Lagarto, Triângulo e BL Lacertae, p. 167.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos, tipos espectrais, paralaxes, diâmetros e desvio para o vermelho de Alfa Lacertae, Beta Lacertae, NGC 7243, NGC 7209 e BL Lacertae, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.