setembro 22, 2026
Golfinho: guia do losango de Sualocin e Rotanev, a nova de 1967 e dois globulares distantes

O Golfinho é uma daquelas constelações pequenas que, apesar do tamanho, ninguém esquece depois de ver uma vez: um losango apertado de quatro estrelas, com uma quinta pendurada ao lado, formando um desenho que já foi confundido com as Plêiades por observadores desatentos. E guarda duas curiosidades e tanto — um trocadilho escondido nos nomes de suas duas estrelas mais brilhantes, e uma nova descoberta por um amador em 1967, a olho armado só de binóculo. Este guia mostra como achar o Golfinho no céu do Brasil e o que vale a pena observar nele.
Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.
Um losango fácil de reconhecer
O Golfinho (Delphinus, abreviatura Del) é pequeno — cerca de 189 graus quadrados —, mas seu desenho compacto de quatro estrelas em losango, com uma quinta formando a "cauda", é tão característico que Moore registra: observadores já confundiram o grupo com as Plêiades à primeira vista, por causa do aglomerado apertado de estrelas de brilho parecido (Observer's Year, p. 256). A mitologia grega associa a constelação a um golfinho que ajudou Poseidon a conquistar a ninfa Anfitrite, ou, em outra versão, ao golfinho que salvou o poeta Arion, atirado ao mar por marinheiros — histórias que os livros de apoio consultados aqui não detalham o suficiente para reproduzir com segurança.
Quando e como achar
Melhor época. O Golfinho culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21h locais em meados de setembro; a boa temporada de observação vai de julho a novembro, acompanhando de perto o Cisne e a Águia.
Para onde olhar. Por ficar um pouco ao norte do equador celeste, o Golfinho passa relativamente alto em todo o Brasil.
| Cidade | Altura máxima |
|---|---|
| Boa Vista (RR) | 78° |
| Manaus (AM) | 72° |
| Recife (PE) | 67° |
| Brasília (DF) | 59° |
| Rio de Janeiro (RJ) | 52° |
| São Paulo (SP) | 51° |
| Porto Alegre (RS) | 45° |
Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós a partir da declinação média das estrelas principais (SIMBAD) e da latitude de cada cidade (altura = 90° menos a diferença entre latitude e declinação); valores arredondados.

Passo a passo.
- Procure, na direção da Águia e do Cisne, um pequeno losango apertado de quatro estrelas de brilho parecido, com uma estrela isolada logo ao lado — essa quinta estrela é Aldulfin.
- Rotanev e Sualocin, as duas mais brilhantes, marcam um dos lados do losango; as outras duas, mais fracas, fecham a figura.
- Perto do Golfinho fica o Cavalo Menor, uma constelação ainda menor e mais fraca, praticamente sem estrelas visíveis a olho nu em céu urbano — um bom teste de céu escuro.
As estrelas do Golfinho
| Estrela | Posição | Brilho visual (mag.) | Tipo espectral | Distância aproximada |
|---|---|---|---|---|
| Rotanev (beta) | losango | 3,64 | F5 IV (subgigante) | cerca de 100 anos-luz |
| Sualocin (alfa) | losango | 3,77 | B9 IV | cerca de 250 anos-luz |
| Aldulfin (épsilon) | cauda | 4,03 | B6 III | cerca de 330 anos-luz |
| Gama² Del | losango | 4,27 (dupla) | K1 IV + F7 V | cerca de 100 anos-luz |
| Delta Del | losango | 4,43 | A7 III | cerca de 220 anos-luz |
Brilhos, tipos espectrais e paralaxes consultados no SIMBAD (CDS, Estrasburgo).
Sualocin e Rotanev, as duas estrelas mais brilhantes, escondem uma piada de mais de duzentos anos. Lidos de trás para frente, os nomes soletram "Nicolaus Venator" — a versão latinizada de Niccolò Cacciatore, assistente do astrônomo Giuseppe Piazzi no Observatório de Palermo no início do século XIX. A tradição conta que Cacciatore batizou as duas estrelas com seu próprio nome disfarçado num catálogo estelar, e a brincadeira colou: os nomes acabaram formalmente reconhecidos e são usados até hoje, um dos casos mais divertidos de "assinatura escondida" na história da nomenclatura astronômica. Essa história é bem conhecida na tradição de divulgação astronômica, mas os livros de apoio consultados para este guia não a documentam diretamente — trate-a como informação a confirmar em fonte impressa antes de publicar sem ressalva.
Gama² Delphini é uma dupla real, fácil em telescópio pequeno: uma primária amarelo-alaranjada de magnitude 4,5 e uma companheira de magnitude 5,5, separadas por cerca de 10 segundos de arco — física, não só aparente, com separação real estimada em torno de 300 unidades astronômicas (Moore, Observer's Year, p. 256-258).
HR Delphini, a nova que um amador achou de binóculo
Em 1967, o astrônomo amador britânico George Alcock — famoso por descobrir cometas e novas a olho nu ou com binóculo, sem telescópio — encontrou uma nova na constelação, batizada HR Delphini. Ela chegou à magnitude 3,3 no pico, tornando-se, por um tempo, a única nova conhecida na história registrada do Golfinho (Moore, Observer's Year, p. 256-258; Mobberley, p. 109). A descoberta de Alcock é lembrada como um exemplo clássico do que a observação visual paciente, com equipamento simples, ainda consegue contribuir para a astronomia, mesmo numa época dominada por levantamentos automatizados.
Dois globulares no limite da visão
O NGC 6934, catalogado como Caldwell 47, é um globular de magnitude 8,8 e cerca de 7 minutos de arco, a uns 4° de Aldulfin — acessível em telescópios de 10 cm ou mais, embora pequeno. Fica a cerca de 60 mil anos-luz, no halo distante da Via Láctea (Mobberley, p. 119).
O NGC 7006, Caldwell 42, é ainda mais distante e mais desafiador: magnitude 10,5, apenas 3,5 minutos de arco de diâmetro, a cerca de 135 mil anos-luz — um dos globulares mais remotos associados à Via Láctea, tão distante que às vezes é descrito como um possível "andarilho intergaláctico" capturado de outra galáxia (Mobberley, p. 109). Foi descoberto por William Herschel; fica a cerca de 3½° a leste de Gama Delphini, e telescópios de 20 cm ou mais já mostram alguma resolução em suas estrelas mais brilhantes.
Os dois, juntos, servem de bom contraste com globulares mais próximos e brilhantes como M13 ou M22: mostram como o brilho aparente de um aglomerado depende tanto de sua riqueza real quanto, principalmente, de quão longe ele está.
Roteiro de observação
| Instrumento | O que ver |
|---|---|
| A olho nu | O losango completo do Golfinho, compacto e bem definido. |
| Binóculo (10×50) | O losango com mais contraste de brilho entre as estrelas, e uma primeira tentativa (difícil) de perceber NGC 6934 como uma manchinha. |
| Telescópio pequeno (70 a 100 mm) | Gama² Delphini separada em duas estrelas, e NGC 6934 como uma mancha nebulosa nítida. |
| Telescópio de 200 mm ou mais | NGC 6934 começando a resolver estrelas na borda; NGC 7006 ainda pequeno e denso, exigindo boa transparência. |
Dicas de campo:
- Localize primeiro a Águia e o Cisne; o Golfinho fica entre os dois, um pouco mais próximo da Águia.
- Não confunda o losango do Golfinho com o Cavalo Menor, sua vizinha ainda menor e mais fraca, praticamente invisível sob poluição luminosa.
- Reserve NGC 7006 para uma noite de transparência muito boa; é um alvo de teste para céu escuro.
Referências
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 42 (NGC 7006) e Caldwell 47 (NGC 6934), p. 109-110, 119-120.
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Noites de 4 a 9 de setembro (Golfinho, Gama Delphini, HR Delphini e globulares, p. 256-260).
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos, tipos espectrais e paralaxes, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.