setembro 22, 2026
Fênix: a ave que Bayer colocou no meio do caminho entre Achernar e Fomalhaut

A Fênix não tem mito grego, não tem estrela de primeira magnitude e a maioria dos livros de constelações resolve o assunto em meio parágrafo. E, ainda assim, ela é fácil de achar e fica bem alta no céu do Brasil o ano quase todo — uma ave discreta, mas hospitaleira para quem está começando a reconhecer o céu do sul. Neste guia você vai aprender a localizá-la a partir de duas estrelas muito mais famosas, Achernar e Fomalhaut, conhecer Ankaa e a binária eclipsante Wurren, e entender por que essa constelação nasceu de um mapa impresso em 1603, sem passar pela mitologia antiga.
Uma ave sem mito, mas fácil de achar
A Fênix (Phoenix, abreviatura Phe) ocupa cerca de 469 graus quadrados do céu (Mourão, verbete Phoenix), um tamanho mediano, encaixada entre Escultor ao norte, Grou e Tucano ao sul, Hidra Macho a oeste e Erídano e Forno a leste. Não é uma constelação brilhante: sua estrela principal, Ankaa, é de segunda magnitude, e todo o resto fica abaixo da quarta. O que a torna fácil de achar não é o brilho, e sim a posição: ela fica quase exatamente na metade do caminho entre duas estrelas de primeira grandeza que qualquer observador do hemisfério sul aprende cedo, Achernar (Erídano) e Fomalhaut (Peixe Austral) (Vieira, p. 101-102; Moore, Observer's Year, p. 331).
Moore conta que a Fênix foi uma das doze constelações que o cartógrafo alemão Johann Bayer acrescentou ao céu em seu atlas Uranometria, de 1603, a partir de observações de navegadores holandeses que exploravam o hemisfério sul havia poucas décadas (Observer's Year, p. 331; Mourão, verbete Phoenix, p. 664). Por isso ela não carrega nenhuma história grega: o nome só evoca a ave mítica que renasce das próprias cinzas, uma referência decorativa que os cartógrafos do Renascimento gostavam de usar para preencher o céu austral, então quase sem nome (Mourão, p. 664).
Quando e como achar
Melhor época. A Fênix culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21 horas locais em meados de novembro. A boa temporada vai de outubro a janeiro: em outubro ela já aparece alta no fim da noite, em novembro e dezembro domina o começo da noite, e em janeiro começa a se inclinar para o oeste, na direção do poente.
Para onde olhar. A Fênix fica ao sul do equador celeste e, do Brasil inteiro, culmina virada para o sul — a carta abaixo mostra o céu olhando para o sul, com o norte para baixo e o leste para a direita.
| Cidade | Ankaa | Wurren (ζ Phe) |
|---|---|---|
| Boa Vista (RR) | 45° | 32° |
| Manaus (AM) | 51° | 38° |
| Recife (PE) | 56° | 43° |
| Brasília (DF) | 63° | 51° |
| Rio de Janeiro (RJ) | 71° | 58° |
| São Paulo (SP) | 71° | 58° |
| Porto Alegre (RS) | 78° | 65° |
Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós com as declinações do catálogo do projeto e a latitude de cada cidade; valores arredondados. A Fênix é visível do Brasil inteiro, ficando cada vez mais alta quanto mais ao sul o observador está.

Passo a passo.
- Ache Achernar, a estrela mais brilhante de Erídano, e Fomalhaut, a estrela solitária e brilhante do Peixe Austral — as duas ficam bem separadas no céu, mas nenhuma é difícil de reconhecer.
- Trace uma linha imaginária entre as duas: Ankaa fica quase no meio dela, um pouco deslocada (Vieira, p. 101-102; Moore, Observer's Year, p. 331).
- Ankaa é a única estrela de brilho razoável na região; as demais estrelas da Fênix formam um desenho estreito e alongado ao redor dela e da vizinha Wurren, mais ao sul.
As estrelas da Fênix
| Estrela | Brilho visual (mag.) | Tipo espectral | Distância aproximada |
|---|---|---|---|
| Ankaa (alfa) | 2,38 a 2,40 | K0,5 III (gigante laranja) | cerca de 80 a 85 anos-luz |
| Wurren (zeta) | 3,9 a 4,0 (variável) | B6 V + B9 V (binária) | cerca de 290 anos-luz |
| Beta Phe | 3,3 | dupla quase igual (mag. 4,0 e 4,2) | não conferida aqui |
| Gama Phe | 3,4 | — | não conferida aqui |
| Épsilon Phe | 3,9 | — | não conferida aqui |
Brilhos e tipos espectrais de Ankaa e Wurren consultados no SIMBAD (CDS, Estrasburgo); as demais estrelas vêm do catálogo HYG usado na carta do site. Distâncias calculadas por nós a partir da paralaxe (3.261,56 dividido pela paralaxe em milissegundos de arco); livros mais antigos trazem valores um pouco diferentes para Ankaa.
Ankaa, a estrela mais brilhante da Fênix, é uma gigante laranja de tipo K, com brilho de magnitude 2,4 (Data Book, p. 481). Fica relativamente perto, entre 77 e 85 anos-luz dependendo da fonte — os livros de apoio citam 77 a 78 anos-luz (Vieira, p. 101; Data Book, p. 481), e a paralaxe do SIMBAD dá algo perto de 85. O nome vem do árabe e faz parte de uma tradição de nomes de estrelas ligados à ave mítica (Mourão não traz um verbete próprio para Ankaa nas páginas consultadas).
Wurren, a designação de Zeta Phoenicis aprovada pela União Astronômica Internacional, é a segunda estrela mais notável da constelação e a mais interessante para quem gosta de estrelas variáveis: é uma binária eclipsante do tipo Algol, a mais brilhante desse tipo depois do próprio Algol, variando de magnitude 3,6 a 4,1 (Data Book, p. 481) — outra fonte cita 3,9 a 4,4 — em um período de cerca de 1 dia e 16 horas, isto é, por volta de 1,67 dia (Observer's Year, p. 332; Vieira, p. 101-102). Um telescópio pequeno já mostra uma companheira de magnitude 8 ao lado da estrela principal (Vieira, p. 101-102).
Beta Phe é uma dupla quase igual, com duas estrelas de magnitude 4,0 e 4,2 separadas por apenas 1,4 segundo de arco — um desafio para telescópios maiores, de boa resolução (Observer's Year, p. 331). Perto dali também fica SX Phoenicis, uma estrela variável pulsante de curtíssimo período, cerca de 79 minutos, com brilho entre magnitude 6,8 e 7,5 (Observer's Year, p. 332) — um alvo curioso para quem tem binóculo e paciência, já que muda de brilho visivelmente em pouco mais de uma hora.
Objetos de céu profundo
O catálogo de objetos do site ainda não tem nenhum alvo de céu profundo dentro dos limites da Fênix, então este guia não linka nenhum DSO por enquanto. A constelação não é conhecida por aglomerados ou nebulosas brilhantes — os livros de apoio não trazem nenhum objeto de céu profundo da Fênix entre as recomendações para observação amadora simples. Isso não significa que a região seja vazia (há grupos compactos de galáxias fracas, alvo de astrofotografia avançada), mas eles pedem instrumentos maiores e não constam das fontes usadas neste guia.
Mitologia e história
A Fênix não tem uma história mitológica antiga como o Escorpião ou o Carneiro: ela nasceu direto de um mapa. Foi uma das doze constelações que Johann Bayer introduziu na Uranometria, publicada em 1603, junto com outras figuras do hemisfério sul batizadas a partir das observações de navegadores holandeses como Pieter Dirkszoon Keyser e Frederick de Houtman, que cruzaram o Índico e o Pacífico registrando estrelas nunca antes catalogadas pelos europeus (Observer's Year, p. 331; Mourão, p. 664). Como muitas dessas constelações "modernas", o nome foi escolhido mais por associação decorativa do que por um mito específico: a ave-fênix, que renasce das próprias cinzas na mitologia egípcia e depois grega, deu um nome de peso a um agrupamento de estrelas de brilho modesto, sem ligação narrativa direta com a figura desenhada no céu (Mourão, p. 664).
Roteiro de observação
| Instrumento | O que ver |
|---|---|
| A olho nu | Ankaa, laranja e isolada, a meio caminho entre Achernar e Fomalhaut; o desenho alongado da ave, com um pouco de prática. |
| Binóculo (10×50) | Wurren e sua vizinhança; SX Phoenicis, se o céu estiver escuro, para acompanhar sua variação rápida de brilho ao longo de uma hora. |
| Telescópio pequeno (70 a 100 mm) | A companheira de magnitude 8 de Wurren; tentativa de acompanhar o eclipse (queda de brilho) da binária ao longo de uma noite. |
| Telescópio médio (150 mm ou mais) | A dupla fechada de Beta Phe, com boa resolução e noite estável. |
Dicas de campo:
- Escolha uma noite sem Lua entre outubro e janeiro, com o horizonte sul livre de obstáculos.
- Use a linha entre Achernar e Fomalhaut como referência: Ankaa fica quase no meio dela.
- Se quiser acompanhar Wurren como estrela variável, anote o horário e compare o brilho dela com Beta e Gama Phe, próximas, ao longo de algumas noites.
Referências
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Noites de 26 a 29 de novembro (Grou, Fênix, Pavão, Tucano e Índio), p. 330-334.
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Verbete "Phoenix", p. 481; aves do sul, p. 474-475, 480-481, 506-507.
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Phoenix" (constelações austrais discretas), p. 664.
- VIEIRA, Fernando. Identificação do céu. Ao sul de Fomalhaut: Tucano, Grou, Fênix, Pavão, Índio e Hydrus, p. 101-102.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos, tipos espectrais e paralaxes de Ankaa e Wurren, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.