setembro 22, 2026
Estações espaciais: Salyut, Skylab, Mir e ISS
Colocar uma pessoa em órbita por alguns minutos ou horas é uma proeza; mantê-la vivendo, trabalhando e dormindo lá em cima por semanas ou meses é outra completamente diferente. A história das estações espaciais — das primeiras Salyut soviéticas, na década de 1970, até a Estação Espacial Internacional de hoje — é a história de como a humanidade aprendeu, com acertos e tragédias, a transformar a órbita baixa da Terra num lugar onde se pode morar.
Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.
Salyut: as primeiras estações, e uma tragédia inaugural
A primeira estação espacial da história foi a soviética Salyut 1, lançada em 19 de abril de 1971. O nome "Salyut" significa "saudação" em russo, uma referência ao décimo aniversário do voo de Gagarin, completado dias antes. A primeira tripulação a tentar ocupá-la, a bordo da Soyuz 10, não conseguiu completar o encaixe com a estação e teve de retornar sem entrar; só a Soyuz 11, semanas depois, conseguiu acoplar com sucesso, e os três cosmonautas passaram 22 dias a bordo — o maior tempo contínuo no espaço até então.
O retorno da Soyuz 11, porém, terminou em tragédia: uma válvula de equalização de pressão se abriu prematuramente durante a reentrada, despressurizando a cápsula, e os três tripulantes — Gueorgui Dobrovolski, Vladislav Volkov e Viktor Patsayev — morreram por asfixia antes de chegar ao solo. É, até hoje, o único caso de mortes ocorridas efetivamente no espaço (fora da atmosfera terrestre), e levou a mudanças profundas no projeto das cápsulas soviéticas, entre elas a exigência de que os cosmonautas usassem trajes pressurizados durante o lançamento e o retorno, algo que não acontecia até então.
Depois da tragédia, o programa Salyut seguiu — parte das estações era voltada à pesquisa civil, parte a fins militares de reconhecimento, um detalhe pouco divulgado à época. A Salyut 4 (1975) e a Salyut 5 (1976) tiveram missões de 63 e 49 dias, respectivamente. O salto de qualidade veio com a Salyut 6, lançada em setembro de 1977: pela primeira vez, uma estação tinha dois pontos de acoplamento, o que permitia receber cargueiros não tripulados — os Progress, versões de carga da cápsula Soyuz, capazes de reabastecer a estação com comida, água, combustível e equipamento sem precisar de tripulação. Isso abriu caminho para missões cada vez mais longas: em 1978, os cosmonautas Vladimir Liakhov e Valeri Riumin passaram mais de 100 dias em órbita, um recorde que seria superado repetidamente nas décadas seguintes.
Skylab: a estação remendada em órbita
Enquanto os soviéticos desenvolviam uma linhagem de estações pequenas e modulares, os Estados Unidos tentaram algo diferente: aproveitar o hardware que sobrou do programa Apollo. O Skylab, lançado em 14 de maio de 1973, foi construído a partir de um terceiro estágio do foguete Saturno V, esvaziado e adaptado como um grande volume habitável — bem maior, internamente, do que qualquer estação soviética da época.
O lançamento quase terminou em desastre: durante a subida, um escudo de proteção térmica e micrometeoritos se soltou, arrancando também um dos dois painéis solares principais e travando o outro. A estação chegou à órbita superaquecida e com metade da energia elétrica planejada. A primeira tripulação, que deveria subir no dia seguinte, teve o lançamento adiado por dez dias enquanto engenheiros da NASA corriam contra o tempo para desenvolver soluções de reparo. Em 25 de maio de 1973, os astronautas Charles "Pete" Conrad, Paul Weitz e Joseph Kerwin conseguiram, numa sequência de manobras arriscadas, instalar um "guarda-sol" improvisado sobre o casco superaquecido e liberar o painel solar preso — salvando a estação numa das operações de reparo mais audaciosas já feitas em órbita.
As duas tripulações seguintes, em missões de 59 e 84 dias, respectivamente, ampliaram os limites da permanência humana no espaço: a última equipe, formada por Gerald Carr, William Pogue e Edward Gibson, observou de fora da atmosfera o cometa Kohoutek, então recém-descoberto, e testou os efeitos da microgravidade prolongada sobre o corpo humano — dados que seriam fundamentais para planejar missões futuras, incluindo as da ISS. O Skylab foi abandonado em fevereiro de 1974, com a intenção original de ser reaproveitado por futuras missões do ônibus espacial — um plano que nunca se concretizou, porque o desenvolvimento do Shuttle atrasou. Sem impulso para se manter em órbita, o Skylab reentrou de forma descontrolada em 11 de julho de 1979, espalhando destroços sobre o oceano Índico e sobre áreas pouco povoadas da Austrália Ocidental — um evento acompanhado com ansiedade pela imprensa mundial, mas que não causou vítimas.
Apollo-Soyuz: um aperto de mãos em órbita
Em julho de 1975, em plena Guerra Fria, uma cápsula Apollo americana e uma Soyuz soviética se encontraram e se acoplaram em órbita, numa missão simbólica batizada de Apollo-Soyuz Test Project. As duas tripulações passaram cerca de dois dias conectadas, realizando experimentos conjuntos e, sobretudo, mostrando ao mundo que as duas potências espaciais rivais também podiam cooperar. Foi a última missão tripulada americana antes da chegada do ônibus espacial, seis anos depois, e um prenúncio distante da colaboração que, décadas mais tarde, tornaria possível a Estação Espacial Internacional.
Mir: a primeira estação verdadeiramente modular
Lançada em 20 de fevereiro de 1986 a partir do cosmódromo de Baikonur, a Mir — cujo nome significa "paz" em russo — foi a primeira estação espacial verdadeiramente modular da história: ao módulo-núcleo inicial, foram acoplados, ao longo de dez anos, mais cinco módulos especializados (para astrofísica, para experimentos tecnológicos, para acoplamento com o ônibus espacial americano, entre outros), transformando a Mir numa estrutura cada vez maior e mais complexa. Esse modelo de construção incremental, em órbita, se tornaria o padrão adotado depois pela própria ISS.
A Mir também foi palco de recordes de permanência que permanecem entre os mais notáveis da história espacial: o cosmonauta Valeri Poliakov passou 437 dias seguidos a bordo, entre 1994 e 1995, um recorde de permanência contínua numa única missão que segue sem ser superado até hoje; e o cosmonauta Sergei Krikalev acumulou, ao longo de várias missões, mais tempo total no espaço do que qualquer outra pessoa até então. A partir de 1995, a Mir recebeu visitas frequentes do ônibus espacial americano dentro do programa Shuttle-Mir, um passo importante de aproximação entre as agências russa e americana depois do fim da União Soviética, e um ensaio direto para a parceria que resultaria na ISS.
Envelhecida, e após um grave incêndio a bordo e uma colisão com uma nave de carga em 1997, a Mir foi desativada e reentrou de forma controlada na atmosfera em março de 2001, com os destroços caindo, como planejado, numa área remota do oceano Pacífico Sul — encerrando quinze anos de operação, bem além dos cinco originalmente previstos.
A Estação Espacial Internacional
A ISS nasceu de um projeto americano chamado Freedom, aprovado ainda em 1984 como resposta à presença soviética contínua em órbita, mas que sofreu anos de atrasos e cortes de orçamento. O projeto só ganhou fôlego depois do fim da Guerra Fria, quando a Rússia foi convidada a se juntar como parceira — trazendo consigo décadas de experiência acumulada com as estações Salyut e Mir. O primeiro módulo, o russo Zarya, foi lançado em novembro de 1998, seguido rapidamente pelo módulo americano Unity; a montagem em órbita seguiria por mais de uma década, com contribuições do Japão, do Canadá e da Agência Espacial Europeia, esta última reunindo países como França, Alemanha e Itália.
Hoje, a ISS é a maior estrutura já construída no espaço: tem cerca de 110 metros de ponta a ponta (aproximadamente o comprimento de um campo de futebol), mais de 900 metros cúbicos de volume pressurizado e abriga rotineiramente entre três e sete tripulantes, revezados a cada poucos meses. A estação está em órbita contínua desde novembro de 2000, tornando-se o mais longo período ininterrupto de presença humana no espaço da história.
O Brasil e a ISS. Embora o Brasil não seja um dos parceiros formais do consórcio da estação, o país participou do projeto por meio de um acordo de cooperação com os Estados Unidos, que incluiu o fornecimento de peças e equipamentos — e, principalmente, permitiu ao país mandar seu primeiro astronauta ao espaço: Marcos Pontes, em 2006, numa missão de cerca de dez dias na ISS.
Números e recordes
| Estação | Início da operação | Fim | Destaque |
|---|---|---|---|
| Salyut 1 | 19 abr. 1971 | out. 1971 | Primeira estação espacial da história; tragédia da Soyuz 11 |
| Skylab | 14 maio 1973 | jul. 1979 (reentrada) | Feita de um estágio do Saturno V; reparada em órbita |
| Salyut 6 | 29 set. 1977 | 1982 | Primeira com dois pontos de acoplamento e cargueiros Progress |
| Mir | 20 fev. 1986 | 23 mar. 2001 (reentrada) | Primeira estação modular; recorde de 437 dias contínuos |
| ISS | nov. 1998 (montagem) / nov. 2000 (tripulação contínua) | operação prevista até por volta de 2030 | Maior estrutura já construída no espaço; parceria de 15 nações |
Datas segundo Mourão (1987) e Ridpath, complementadas com informações posteriores aos livros de origem.
O que veio depois
Os livros que serviram de base para este artigo foram escritos quando a ISS ainda era um projeto no papel, e por isso não podiam prever boa parte do que aconteceu depois. Hoje sabemos que a estação está prevista para ser desativada e desorbitada de forma controlada por volta do fim desta década, encerrando três décadas de presença humana contínua em órbita. Enquanto isso, a China desenvolveu seu próprio programa de estações: depois de protótipos menores (Tiangong 1 e 2), o país concluiu, em 2022, a montagem da estação Tiangong, com três módulos permanentes e tripulações regulares — a segunda estação espacial multimodular operada de forma independente na história, depois da Mir. Com o fim programado da ISS, é possível que a Tiangong se torne, por algum tempo, a única estação espacial em operação contínua, até que novas estações comerciais, hoje em desenvolvimento por empresas privadas, entrem em serviço.
Considerações finais
Da tragédia da Soyuz 11 aos remendos heroicos do Skylab, da modularidade pioneira da Mir à cooperação internacional que sustenta a ISS, a história das estações espaciais é, no fundo, a história de como se aprendeu — errando e corrigindo — a viver fora da Terra por longos períodos. Essa mesma história está profundamente ligada à sequência de voos tripulados contada no artigo anterior desta série, e ao início de tudo, com o lançamento do primeiro satélite artificial, tema do primeiro artigo desta coleção sobre exploração espacial.
Referências
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Salyut" e a corrida dos recordes, p. 742-744; verbete "Skylab", p. 782-784; Mir, Solar Max e mochila espacial, p. 577-578, 580, 582-583, 589, 593.
- MOORE, Patrick (ed.). Astronomy Encyclopedia. Londres: Philip's. Sputnik, Skylab e a era das estações espaciais, p. 364-365, 368-369, 377-378, 385; Estação Espacial Internacional e o Brasil, p. 210.
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). Rio de Janeiro: Zahar, 4ª ed. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges; revisão técnica de Alexandre Cherman. Estações espaciais: Salyut, Mir, Skylab e ISS, p. 30-31.