setembro 22, 2026

Esquadro: guia da constelação da Régua de Lacaille e dos aglomerados de Norma

Carta estelar do Esquadro como aparece do Brasil, olhando para o sul: uma pequena constelação trapezoidal na Via Láctea, entre Escorpião, Lobo e Altar, sem estrelas de nome próprio, com os aglomerados NGC 6087, NGC 6067 e NGC 6134 marcados em verde

O Esquadro é outra das constelações que o abade francês Nicolas-Louis de Lacaille inventou no século 18 para preencher o céu austral com nomes de instrumentos técnicos — neste caso, a régua do geômetro, do matemático e do astrônomo. É pequena, fraca e sem nenhuma estrela de nome próprio, mas compensa com uma vantagem que suas vizinhas Compasso e Lobo não têm: fica bem no meio da Via Láctea, o que lhe garante pelo menos três aglomerados abertos razoavelmente fáceis de observar. Neste guia você vai aprender a achar o Esquadro no céu do Brasil, entender a história do nome e conhecer os aglomerados NGC 6087, NGC 6067 e NGC 6134.

A régua entre o Escorpião e o Lobo

O Esquadro (Norma, sem abreviatura tradicional além do próprio nome; a sigla usual é Nor) é uma constelação austral pequena, com cerca de 165 graus quadrados, compreendida entre as ascensões retas de 15h25min e 16h31min e as declinações de -42,2° a -60,2° (Mourão, verbete Norma, p. 572-573). Faz fronteira ao sul com o Triângulo Austral, a oeste com o Compasso e o Lobo, ao norte com o Escorpião e a leste com o Altar (Mourão, p. 572-573). Apesar de suas estrelas serem fracas — a mais brilhante não passa da quarta magnitude —, Mourão observa que é "fácil reconhecê-la por sua forma trapezoidal", situada a nordeste de Toliman, o nome tradicional de Alfa Centauri (Mourão, p. 572).

O nome é uma homenagem de Lacaille à régua, "um dos instrumentos fundamentais do geômetro, do matemático e até do astrônomo" (Mourão, p. 572). A constelação apareceu pela primeira vez na obra póstuma de Lacaille, Coelum Australe Stelliferum, publicada em 1763, fruto do levantamento que ele fez do céu austral durante sua estada no Cabo da Boa Esperança, entre 1750 e 1754 (Mourão, p. 572-573).

Sem mitologia antiga. Assim como o Compasso, o Esquadro é uma criação moderna e não carrega nenhuma lenda da Antiguidade grega ou romana — é só um instrumento de medição, colocado no céu para completar o mapa do hemisfério sul que os astrônomos europeus não conheciam antes das grandes viagens marítimas.

Uma curiosidade de nomenclatura. O Esquadro não tem hoje nenhuma estrela chamada "Alfa" ou "Beta" — a constelação começa direto em Gama. Isso acontece porque, séculos atrás, essas duas posições foram atribuídas a estrelas que, quando os limites oficiais das constelações foram fixados no início do século 20, acabaram ficando do lado de dentro do Escorpião vizinho, e por isso são hoje conhecidas por outras designações (como N e H Scorpii). É um vestígio de uma época em que os limites entre constelações não eram tão rígidos quanto são hoje.

Quando e como achar

Melhor época. O centro do Esquadro culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21 horas locais no início de julho, no meio do inverno austral — a mesma temporada boa para o Escorpião, o Lobo e o Compasso, todos vizinhos.

Para onde olhar. O Esquadro é uma constelação austral: do Brasil, ele culmina voltado para o sul, e a carta abaixo mostra o céu nessa direção, com o norte para cima e o leste para a esquerda.

Cidade Gama2 Nor NGC 6087 NGC 6067 NGC 6134
Boa Vista (RR) 37° 29° 33° 38°
Manaus (AM) 43° 35° 39° 44°
Recife (PE) 48° 40° 44° 49°
Brasília (DF) 56° 48° 52° 57°
Rio de Janeiro (RJ) 63° 55° 59° 64°
São Paulo (SP) 63° 56° 59° 64°
Porto Alegre (RS) 70° 62° 66° 71°

Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós com as declinações do SIMBAD e a latitude de cada cidade; valores arredondados. O Esquadro é bem visível de todo o Brasil.

Carta estelar do Esquadro como aparece do Brasil, olhando para o sul: uma pequena constelação trapezoidal na Via Láctea, entre Escorpião, Lobo e Altar, sem estrelas de nome próprio, com os aglomerados NGC 6087, NGC 6067 e NGC 6134 marcados em verde
Carta estelar do Esquadro como ele aparece do Brasil ao olhar para o sul: o norte fica em cima e o leste à esquerda. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial. A linha tracejada dourada larga é o limite oficial da constelação. Em verde-claro, os objetos de céu profundo citados neste artigo. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo.

  1. Localize primeiro o Escorpião, com Antares em destaque, e o Altar, ao sul dele.
  2. O Esquadro fica entre o Escorpião e o Triângulo Austral, formando um pequeno trapézio de estrelas de brilho fraco a médio (a mais brilhante, Gama2 Nor, não passa de magnitude 4).
  3. A constelação está imersa na Via Láctea, então o fundo estelar é rico — use isso a seu favor para confirmar que está no lugar certo.
  4. NGC 6134 fica no canto norte da figura, NGC 6067 no meio e NGC 6087 mais ao sul, perto do limite com o Triângulo Austral.

As estrelas do Esquadro

Estrela Posição Brilho visual (mag.) Tipo espectral Distância aproximada
Gama2 Norma a mais brilhante 4,01 K1 III (gigante laranja) cerca de 129 anos-luz
Epsilon Norma dupla 4,46 dupla, separável em binóculo (Kambič) cerca de 400 anos-luz
Iota1 Norma oeste 4,63 A5 V cerca de 400 anos-luz
Eta Norma leste 4,65 K1 III cerca de 550 anos-luz
Delta Norma norte 4,73 B4 IV cerca de 550 anos-luz
Gama1 Norma par de Gama2 4,97 dupla cerca de 1.500 anos-luz

Brilhos, tipos espectrais e paralaxes consultados no SIMBAD (CDS, Estrasburgo). Nenhuma estrela do Esquadro tem nome próprio reconhecido pela IAU; todas são identificadas só pela letra grega.

Nenhuma estrela do Esquadro tem nome próprio. A mais brilhante, Gama2 Normae, é uma gigante laranja discreta, de magnitude 4. Kambič destaca Epsilon Normae como uma dupla separável em binóculo, com componentes de magnitude 4,5 e 6,1, separadas por cerca de 22,8 segundos de arco (cb-p301, p. 338). É um bom teste para quem está começando a observar estrelas duplas.

Objetos de céu profundo: três aglomerados na Via Láctea

O Esquadro fica numa região relativamente rica da Via Láctea, e o catálogo do site registra onze aglomerados abertos dentro dos seus limites. Os três mais citáveis são:

NGC 6087, o aglomerado da cefeida S Normae

O NGC 6087 é o mais conhecido dos três, de magnitude 5,4 — quase visível a olho nu em céu escuro — com cerca de 40 estrelas em binóculo ou telescópio pequeno (Kambič, cb-p301, p. 338). O que torna esse aglomerado especial é que ele abriga em seu interior a estrela variável S Normae, uma cefeida clássica que varia entre a magnitude 6,1 e 6,8 em um ciclo de cerca de 9,75 dias (Kambič, p. 338) — uma raridade, já que aglomerados com cefeidas confirmadas permitem calibrar a relação entre o período de variação e o brilho real dessas estrelas, uma das réguas mais importantes da astronomia para medir distâncias no universo.

NGC 6067, o vizinho ao norte

O NGC 6067 é outro aglomerado aberto, de magnitude 5,6, cerca de 4° ao norte de NGC 6087. É fácil confundir os dois nomes: o catálogo Caldwell, por exemplo, já teve um erro de impressão que trocou as designações dos dois objetos em algumas edições.

NGC 6134, no canto norte da constelação

O NGC 6134 é o mais fraco dos três, de magnitude 7,2, situado perto do limite com o Escorpião e o Altar.

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu O campo estelar denso da Via Láctea dentro dos limites do Esquadro; NGC 6087, sob céu bem escuro, quase se percebe como uma manchinha.
Binóculo (10×50) NGC 6087 com boa parte de suas estrelas resolvidas, Epsilon Normae separada em duas estrelas, e NGC 6067 como uma mancha compacta.
Telescópio pequeno (70 a 100 mm) Os três aglomerados bem resolvidos em dezenas de estrelas cada, e a variação de S Normae acompanhável ao longo de algumas noites.

Dicas de campo:

  • Escolha uma noite sem Lua entre maio e agosto, em céu escuro.
  • Use o Escorpião e o Altar como referências de cada lado da constelação.
  • Para acompanhar S Normae, compare seu brilho com o de estrelas vizinhas de magnitude conhecida em noites espaçadas por alguns dias.

Referências

  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Norma", p. 572-573.
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars. New York: Springer, 2010. Lobo e Régua, p. 332-333 (impressa).
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos, tipos espectrais e paralaxes, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.