setembro 22, 2026

Dragão: guia da constelação que serpenteia entre as duas Ursas

Carta estelar do Dragão como aparece do Brasil, olhando para o norte: a cabeça formada por Eltanin e Rastaban, o corpo serpenteando por Athebyne, Grumium, Aldhibah e Thuban até a cauda em Giausar, perto da Ursa Menor e de Polaris, com a Nebulosa Olho de Gato (NGC 6543) marcada em verde

O Dragão é uma das constelações mais antigas do céu e uma das mais difíceis de "ver" de uma vez: ele não tem uma forma compacta como o Escorpião ou o Cisne, mas uma longa fileira de estrelas fracas que serpenteia por quase 1.083 graus quadrados — a 8ª maior constelação do céu —, dando uma volta quase completa ao redor do polo norte celeste, entre a Ursa Maior, a Ursa Menor, Cefeu, Lira, Hércules e o Boieiro. Sua cabeça, um pequeno quadrilátero de estrelas perto de Hércules, é a parte mais fácil de reconhecer; o corpo se estende dali, cruza entre as duas Ursas e termina numa cauda fina que quase toca o polo. Do Brasil, boa parte do Dragão é baixa demais para ser vista com conforto, mas a cabeça — mais ao sul em declinação — chega a ficar razoavelmente alta a partir do Norte e do Nordeste do país. Este guia explica como achar o que dá para achar, apresenta as estrelas principais e a história de Thuban, a estrela que já foi o norte celeste do Egito Antigo, e termina na Nebulosa Olho de Gato, um dos alvos mais fotografados do Hubble.

Uma serpente entre as duas Ursas

O Dragão (Draco, abreviatura Dra) é uma constelação antiga, já registrada por Ptolomeu entre as 48 constelações clássicas. Sua forma não lembra um desenho fechado, como muitas figuras do zodíaco, mas uma linha longa e sinuosa: a cabeça é um pequeno losango de quatro estrelas (Eltanin, Rastaban, e as vizinhas mais fracas), de onde o corpo se estende para o norte e o oeste, cruza por cima da Ursa Menor, contorna quase metade do caminho ao redor do polo e termina numa cauda fina entre as Ursas Maior e Menor. Não há, nos livros de referência consultados para esta série, um verbete detalhado sobre a origem específica do desenho — o que é coerente com sua natureza: uma das figuras mais antigas do catálogo de Ptolomeu, sem uma "descoberta" recente a relatar.

Vizinhas. O Dragão faz fronteira com nove constelações: Ursa Menor, Cefeu, Cisne, Lira, Hércules, Boieiro, Ursa Maior, Lince e Camelopardalis (a Girafa) — um raio de vizinhança tão grande quanto seu próprio tamanho.

O que o torna notável. Poucas estrelas do Dragão passam da 3ª magnitude, e nenhuma delas é particularmente famosa por brilho. O que torna a constelação interessante é outra coisa: por causa da precessão do eixo da Terra, uma das suas estrelas, Thuban, já foi a estrela polar — a que hoje é ocupada por Polaris, na Ursa Menor — em uma época em que as pirâmides do Egito estavam sendo construídas. E, mais perto do nosso tempo, ela guarda a Nebulosa Olho de Gato, uma das planetárias mais fotografadas pelo telescópio espacial Hubble.

Quando e como achar

Melhor época. O centro do Dragão fica perto de 16 h 10 min de ascensão reta, o que o coloca no céu de outono e inverno do hemisfério norte (inverno e início da primavera no Brasil): ele culmina por volta das 21 h locais em meados de julho, e a cabeça (Eltanin e Rastaban), com declinação mais baixa que o resto do corpo, é a parte que melhor aparece do Brasil nessa época.

Para onde olhar. O Dragão fica quase todo ao norte do equador celeste, com declinações entre +50° e +73°. A carta abaixo mostra o céu olhando para o norte, com o norte para baixo e o leste para a direita.

Cidade Eltanin — cabeça (mag. 2,2) Rastaban — cabeça (mag. 2,8) Thuban — corpo (mag. 3,7)
Boa Vista (RR) 41° 41° 28°
Manaus (AM) 35° 35° 23°
Recife (PE) 30° 30° 18°
Brasília (DF) 23° 22° 10°
Rio de Janeiro (RJ) 16° 15° 3°
São Paulo (SP) 15° 14° 2°
Porto Alegre (RS) 8° 8° não sobe

Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós a partir das declinações do catálogo do site (SIMBAD) e da latitude de cada cidade (altura = 90° menos a diferença entre latitude e declinação); valores arredondados. A cabeça do Dragão (Eltanin e Rastaban), mais ao sul em declinação, é visível com alguma folga em todo o país, embora sempre baixa no Sul; a cauda e boa parte do corpo, mais ao norte (declinações de +55° a +73°, como Thuban), ficam muito baixas ou não sobem a partir do Sudeste e do Sul.

Carta estelar do Dragão como aparece do Brasil, olhando para o norte: a cabeça formada por Eltanin e Rastaban, o corpo serpenteando por Athebyne, Grumium, Aldhibah e Thuban até a cauda em Giausar, perto da Ursa Menor e de Polaris, com a Nebulosa Olho de Gato (NGC 6543) marcada em verde
Carta estelar do Dragão como ele aparece do Brasil ao olhar para o norte: o norte fica embaixo e o leste à direita. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial. O contorno tracejado dourado é o limite oficial da constelação. Em branco, fora do limite, três estrelas-guia (Dubhe, na Ursa Maior; Vega, na Lira; Polaris, na Ursa Menor). Em verde-claro, a Nebulosa Olho de Gato, citada neste artigo. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo.

  1. Ache Vega, a estrela mais brilhante da Lira e uma das mais brilhantes do céu do hemisfério norte (na carta, ao lado direito, fora do limite do Dragão). A cabeça do Dragão, o pequeno losango de Eltanin e Rastaban, fica a pouco menos de 20° dali.
  2. De Eltanin, siga o corpo para o lado oposto a Vega (na carta, para baixo e à esquerda): Athebyne, Grumium e Aldhibah formam a primeira curva.
  3. Continue até Thuban, perto do meio do trajeto — ela fica quase exatamente entre a Ursa Maior e a Ursa Menor, uma boa referência de posição mesmo quando não é diretamente visível.
  4. A cauda termina em Giausar, perto do "cabo" da Ursa Menor, quase na direção de Polaris.

As estrelas do Dragão

Estrela Posição Brilho visual (mag.) Tipo espectral Distância aproximada
Eltanin (gama) cabeça 2,23 K5 III (gigante alaranjada) cerca de 154 anos-luz
Athebyne (eta) corpo, perto da cabeça 2,73 G8 III (gigante amarela) —
Rastaban (beta) cabeça 2,79 G2 Ib-IIa (supergigante amarela) cerca de 380 anos-luz
Altais (delta) corpo 3,07 G9 III (gigante amarela) —
Aldhibah (zeta) corpo 3,17 B6 III (branco-azulada) —
Edasich (iota) corpo 3,29 K2 III (gigante alaranjada) —
Thuban (alfa) corpo, meio do trajeto 3,67 A0 III (branca) cerca de 261 anos-luz
Grumium (csi) cabeça 3,73 K2 III (gigante alaranjada) —
Giausar (lambda) cauda 3,82 M2 III (gigante vermelha) —

Brilhos e tipos espectrais consultados no catálogo de estrelas do site (base HYG v4.1); distâncias de Eltanin, Thuban e Rastaban conferidas e recalculadas a partir da paralaxe do SIMBAD (CDS, Estrasburgo), 3.261,56 dividido pela paralaxe em milissegundos de arco. Distâncias das demais estrelas não foram conferidas no SIMBAD nesta consulta.

Eltanin, a estrela mais brilhante do Dragão, é uma gigante alaranjada na cabeça da constelação. Tem um lugar na história da astronomia pouco conhecido do grande público: em 1728, o astrônomo inglês James Bradley tentou medir a paralaxe de Eltanin para provar o movimento da Terra ao redor do Sol e, no processo, descobriu outro efeito — a aberração da luz, causada pela combinação da velocidade da Terra com a velocidade finita da luz (Moore & Rees, Data Book of Astronomy). Segundo a mesma fonte, daqui a cerca de 1,5 milhão de anos Eltanin vai se aproximar da Terra a ponto de se tornar a estrela mais brilhante do céu noturno, superando até Sirius.

Rastaban, ao lado de Eltanin na cabeça do Dragão, é uma supergigante amarela — um estágio evolutivo mais avançado e mais raro do que a maioria das estrelas visíveis a olho nu.

Thuban, apesar de ser hoje uma estrela discreta de magnitude 3,7, tem a história mais importante da constelação: por volta de 3000 a 2000 a.C., ela foi a estrela polar do hemisfério norte, o ponto em torno do qual todo o céu parecia girar — a posição que hoje pertence a Polaris, na Ursa Menor (Moore & Rees, Data Book of Astronomy). Isso acontece por causa da precessão, o lento cambalear do eixo de rotação da Terra, que completa um ciclo a cada cerca de 25.800 anos e faz o "norte celeste" percorrer um grande círculo entre várias estrelas ao longo dos milênios. Alguns egiptólogos associam o alinhamento de certos corredores das pirâmides à posição de Thuban na época de sua construção — um detalhe de cultura, não de astronomia observacional, mas que costuma acompanhar a menção a essa estrela.

Objetos de céu profundo: a Nebulosa Olho de Gato

O catálogo do site lista nove objetos de céu profundo dentro dos limites do Dragão, quase todos galáxias fracas de magnitude 9,7 ou mais tênue — alvos de telescópio grande e céu escuro. O destaque isolado é a Nebulosa Olho de Gato (NGC 6543), sexta entrada do catálogo Caldwell e uma das nebulosas planetárias mais fotografadas pelo telescópio espacial Hubble, cuja imagem de anéis concêntricos coloridos é reconhecível até por quem nunca olhou num telescópio. Ao olho de um telescópio amador a realidade é mais modesta — um disco pequeno, denso e esverdeado, com magnitude integrada de cerca de 8,1 a 8,2 —, mas ela tem o maior brilho superficial de todo o catálogo Caldwell, o que a torna um alvo relativamente fácil de localizar apesar do tamanho minúsculo. Fica a cerca de 4.450 anos-luz pela paralaxe do SIMBAD (os livros trazem cerca de 3.000), muito perto do polo norte da eclíptica. Do Rio de Janeiro, sua declinação de +66,6° a coloca praticamente no limite matemático do horizonte — o guia completo do objeto, linkado acima, detalha essa conta e o que esperar em cada instrumento.

Mitologia e história

A versão mais difundida liga o Dragão a Ladão, a serpente que guardava o Jardim das Hespérides e as maçãs de ouro, morta por Hércules em um dos seus doze trabalhos — o mesmo herói cuja constelação fica logo ao lado, com a cabeça do Dragão sob seu pé na representação clássica das cartas celestes antigas. Não é a única leitura possível: culturas antigas diferentes já associaram serpentes celestes a outras histórias, e os livros de referência consultados para esta série não trazem um verbete detalhado e específico sobre a origem do desenho do Dragão — o que é registrado aqui como uma lacuna, não como ausência de mito (ver pendências).

Mais documentada é a importância histórica de Thuban como estrela polar do Egito Antigo, tratada na seção anterior — um caso em que a astronomia observacional e a arqueologia se cruzam de um jeito concreto, ao contrário da maior parte da mitologia das constelações, que é tradição oral registrada muito depois dos fatos.

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu O losango da cabeça (Eltanin e Rastaban), mais alto e mais fácil a partir do Norte e Nordeste; Thuban como referência de posição entre as duas Ursas.
Binóculo (10×50) O traçado completo do corpo entre a cabeça e a cauda, em céu razoavelmente escuro; a cor alaranjada de Eltanin e Grumium.
Telescópio pequeno (70 a 100 mm) NGC 6543 como um discinho esverdeado bem definido — pequeno demais para mostrar estrutura, mas fácil de confirmar pela cor.
Telescópio médio a grande, céu muito escuro Início de alguma estrutura interna em NGC 6543 com aumentos altos; as galáxias mais fracas do catálogo do site, um projeto de longo prazo mesmo para quem observa do hemisfério norte.

Dicas de campo:

  • Do Brasil, a melhor chance é observar a cabeça do Dragão (Eltanin e Rastaban) a partir do Norte e Nordeste, numa noite sem Lua, com o horizonte norte bem livre de obstáculos.
  • Use Vega, muito mais brilhante, como ponto de partida: a cabeça do Dragão fica a menos de 20° dela.
  • Para NGC 6543, este é um guia mais útil para quem observa do hemisfério norte — do Rio de Janeiro para o sul, ela está no limite do horizonte ou abaixo dele.

Referências

  • MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Thuban e Eltanin como estrelas polares do passado e do futuro, p. 435-438.
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 6 (NGC 6543), usado no guia individual do objeto.
  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die. New York: Springer, 2010. NGC 6543, usado no guia individual do objeto.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos, tipos espectrais e paralaxes de Eltanin, Thuban e Rastaban, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.